¶1O ditado popular diz que futebol e política não se misturam. Mas será que isso é verdade mesmo? O que que explica uma queda tão brusca de desempenho do nosso futebol? A gente não ganha Copa, vai fazer o quê? 20, 30 anos.
¶2O quanto que o futebol é afetado pelos fenômenos culturais ou pelos fenômenos políticos, pelos fenômenos sociais? É para pensar sobre essa questão que a gente convidou hoje o historiador Fábio Luiz Barbosa. O Fábio, ele é doutor em história econômica pela USP. Ele é professor no departamento de relações internacionais da universidade e ele pesquisa temas relacionados à história da América Latina e a história do mundo não europeu. Ele também é autor de livros como Além do PT, A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana e o seu título mais recente, que é sobre que a gente vai falar aqui, que é saudade do que nunca fomos, brasileiros e o futebol.
¶3Fábio, seja muito bem-vindo. [música] [música] Fábio, no seu livro você analisa o atual cenário do futebol a partir de transformações políticas, sociais econômicas. É possível dizer que futebol é política final? >> Olha, o futebol ele é atravessado pela política de muitas formas, né? Então, a forma mais evidente quando a FIFA proíbe a Rússia de participar da Copa do Mundo, mas não proíbe Israel, aí é uma forma, vamos dizer, bastante evidente de você perceber a uma uma a politização do esporte.
¶4Agora, quando a FIFA interfere nas regras do jogo, por exemplo, favorecendo um jogo mais defensivo, alterando regras, né, que vão modificar ã eh dinâmicas do jogo, por exemplo, a parada agora paraa hidratação, que foi eh introduzida nessa Copa com uma intenção exclusivamente essencialmente mercantil, né? São formas de você Sim, o veja, vários dos estádios, por exemplo, eram climatizados, o que tem um custo ambiental que eu não consigo nem imaginar. Então, a questão do calor que fazia sentido eh se a Copa fosse disputada no Qatar no meio do ano, que não foi porque foi no final do ano e os jogos eram no final da tarde à noite, na Copa dos Estados Unidos, ela fez sentido que foi essencialmente nos Estados Unidos, né? Inclusive, só o Trump tava na premiação, só os jogos nos Estados Unidos as quartas de final para diante, enfim, os outros foram figurantes. Eh, ela não se justificou essencialmente por critérios eh de saúde.
¶5Isso parece ter sido pretexto, né? E essa modificação eh altera a regra do jogo. Olha, todo mundo percebeu, o próprio Ancelote falou no último quarto, que as pessoas começaram a chamar de quarto, como no basquete, né, do jogo do Brasil com a Noruega. eh eh foi muito diferente. Ali foi o ponto de virada, embora a virada tenha sido dada fundamentalmente pelas alterações, pelas substituições que o próprio técnico hoje eh reconhece que foram equivocadas.
¶6Mas por para dar um outro exemplo, quando a FIFA proibiu a paradinha na no no pênalty, né, essencialmente [limpando a garganta] quem fazia a paradinha são jogadores brasileiros, né? Então, uma, então são formas de você interferir na dinâmica do futebol que vão favorecer um outro estilo. Eh, o uso dos cartões é uma outra eh uma outra forma, né? O uso dos cartões na Copa do Mundo tem diminuiu drasticamente, não é? que é uma a FIFA orientava os árbitros, né, a economizar cartões, a deixar o jogo correr.
¶7Acho que a gente percebeu isso muito claramente nessa Copa. São orientações que acabam favorecendo um estilo de jogo em detrimento de outro e também, vamos dizer, determinadas escolas de futebol em detrimento de outras. Então, são formas também indiretas. Mas o que eu tô querendo dizer é que a própria negociação da Copa do Mundo, né, qual é o país que vai sediar a Copa do Mundo também são eh são são muitas formas como a política atravessa o esporte. Vou dizer uma outra mais que ficou mais evidente nessa Copa do Mundo.
¶8A FIFA flexibilizou as regras para para aceitar que os que jogadores defendessem seleções que não fossem nos seus países de origem. Todo mundo percebeu como isso modificou radicalmente a a, vamos dizer, a a a cara, né, do dos dos jogadores, né, como a gente viu de um lado, a gente tem de um lado cada vez mais descendentes de migrantes africanos, árabes, atuando pelas pelas seleções europeias, mas a gente tem também cada vez mais jogadores europeus atuando pelas seleções africanas. Isso tem a ver com a modificação que foi uma foi uma solicitação, foi uma demanda, foi uma pressão das federações africanas, né, para de forma a a que pudesse fortalecer seus jogadores com suas suas seleções, com os times, vamos dizer, de segunda linha das principais eh escolas europeias, né? Então, os primeirinhas, como a gente viu, o Duê, por exemplo, eh tá na seleção francesa, né? Mas ele tem, você tem o irmão do duê, né?
¶9que joga na na seleção da costa do marfim, assim por diante, né? Então, então é são são é uma outra forma, né, que eh em que a política modifica as condições eh do próprio esporte, né? Diz uma coisa, eh, no seu livro você diz que o futebol é um é um indicador de das condições de vida, indicadores de nível de civilização ou enfim, da situação. Quer dizer, o futebol reflete de alguma maneira as situações sociais, eh, culturais, né? Eh, bom, considerando os resultados eh meio vechatórios aí das últimas campanhas do Brasil, você acha que isso reflete alguma coisa da do futebol brasileiro, da sociedade brasileira?
¶10Afinal, a gente tá num jejum danado aí. >> Tá, essa essa essa questão tem dois níveis. Quando eu escrevo isso, eu tô pensando mais no futebol de clubes jogado no Brasil. Aí acho que a leitura essencial é a seguinte: se a gente olha o futebol, né, dos anos até os anos até os anos 90, né, os o futebol de clube sul-americano de forma geral era competitivo internacionalmente. Se a gente olha na década de 90, aquela a final dos campeonatos mundiais, né, de de clubes, eu tô falando, os clubes sul-americanos venceram sete, os europeus três, né?
¶11Mesmo ainda em 2002, né, no no comecinho do século XX, a FIFA organizou aquele torneio interclubes, né, em que Vasco da Gama e Corinthians chegaram na final derrotando clubes como o Manchester, né, e o Real Madrid, coisa que hoje em dia é é impensável, né? Então, entre os anos 80, 90 e o século XX, você teve processos que modificaram radicalmente a condição eh de de cultivo de um futebol brasileiro que tem como base os seus clubes, né? A a a modificação fundamental foi dada pela globalização, né? Como eu acabei de dizer, da mesma forma em que se modificou as modificaram as regras para que as seleções utilizem jogadores nascidos fora dos seus países, não é? aquele contexto do final do século passado, os clubes europeus, o mercado europeu, flexibilizou a as regras para incorporassem eh estrangeiros nas suas equipes.
¶12Nos anos 80, por exemplo, a Itália só permitia dois estrangeiros, né? Isso caiu. Então, a Inter de Milão foi campeã eh em 2007 do ou do 8 da Champions, eu não me lembro exatamente, uma equipe que não tinha nenhum italiano, né? Então [limpando a garganta] essa modificação ela ela a ela abalou o futebol de clubes eh sul-americanos no seguinte sentido de de que eles viraram essencialmente vitrines, né, de jogadores para serem comercializados nesse mercado mundial, mas que é mas que a primeira linha é é é pro futebol europeu. É claro que isso já acontecia, né?
¶13Então, nos anos 80, o Sócrates, Suzica, o Falcão, cada um deles teve o seu período no estrangeiro, mas era mas não era, era um fenômeno, vamos dizer, muito seleto, né? a partir com essa com essas modificações, eh, o você, vamos dizer, a intensidade do movimento se modifica de modo que vai que você vai alterar a própria natureza do clube, que se antes um clube negociava jogadores para formar um time, né, a a os clubes passam, os clubes brasileiros passam formar times para negociar jogadores. viram vitrines de jogadores para exportação, como o futebol é um esporte coletivo, né? Eh, essa a rapidez, cada torneio, cada time, clube que se destaca, né, num num ano, significa que os seus melhores jogadores vão ser negociados na temporada seguinte. Portanto, você não consegue constituir um time, né, entendido?
¶14Um coletivo, como, por exemplo, o Flamengo, né, Zico, Júnior, Andrade, né, dos anos dos anos 80 ou o São Paulo do Miller, Cafu, Raí, né, como um coletivo que joga junto, né? Então, essas essas essas essa essa impossibilidade de você de você cultivar o jogo coletivo nos clubes, ela vai minando a qualidade do futebol jogado no Brasil, a própria possibilidade de você constituir um futebol caracteristicamente brasileiro também, porque se se os melhores jogadores vão embora cada vez mais cedo paraa Europa, eles vão ser desenvolvidos e amadurecidos para jogar futebol à maneira europeia, né? Então isso é um fenômeno global, não acontece só na América do Sul, mas também no Leste Europeu, na África, né? Então, de modo que eh o futebol eh o a forma europeia de futebol se globalizou, né? Ou não é tanto futebol eh europeu eh que é isso se a forma de jogar o futebol europeu se globalizou.
¶15E então, ah, nesse, nesse, nesse percurso, né, os clubes, ah, ah, o, o, o o, o o, o o futebol brasileiro vai perdendo os seus melhores talentos, vai perdendo a condição de se do jogo coletivo, de cultivar um estilo próprio. ele vai se tornando um futebol cada vez menos técnico, cada vez mais eh eh marcado por lances de bola parada, cada vez mais brutalizado e deserotizado, eu diria, né? O Eduardo Galeano, aquele escritor uruguaio, dizia que o gol é o orgasmo do futebol, que a gente percebe, né, dos anos 90 para cá, isso de novo é um processo global, mas no Brasil é um futebol com cada vez menos gols. Então é um futebol que vai ficando, o futebol de clubes jogado no Brasil, ele vai ficando cada vez mais brigado, cada vez menos brincado, ele vai ficando cada vez mais uma correria, como na a própria vida, né? Você pergunta para as pessoas: "Como é que você tá?" "Ah, tô na correria", né?
¶16É um futebol em que o, vamos dizer, a emoção, ela vai cada vez mais se deslocando pras tretas do jogo, pros lances de bola parada, pras [limpando a garganta] brigas e cada vez menos para em função da beleza estética, do drible, das jogadas encantadoras, não é, dos próprios e dos próprios gols. Então, nesse sentido, né, de uma é que é que eu tô que eu que eu tô dizendo que o futebol de clubes é uma espécie de índice civilizatório, né, e de do que vai do que vai acontecendo. Então, um jogo um e também a gente observa isso nas torcidas, né? Então, no mesmo ano que a Dilma foi, que teve o golpe, que destituiu a Dilma, você proibiu, por exemplo, em São Paulo, eh, que se tivesse dois, duas torcidas no clássico. Acho que no Rio ainda não, isso não, não, não aconteceu, né?
¶17Mas então, hoje você tem uma geração de de paulistanos, né? Isso se estendeu para outros estados do Brasil, né? Que foram criados na torcida única, né? Portanto, você tá cultivando também uma uma uma uma, vamos dizer, uma uma disposição afetiva, uma sensibilidade, né, pro pro odiosa também nos estádios, né? Então, eh, tanto dentro de campo como fora de campo, em tudo que, né, com eh envolve o futebol, acho que a gente é perceptivo essa, vamos dizer, essa corrosão que faz o jogo mais deserotizado, embrutecido, né?
¶18Isso então no no no plano dos clubes. Agora, quando a gente olha a seleção, né, que foi o que você o que você falou, o que a gente eu acho que isso tem a ver com um outro um outro fenômeno que tem dois lados, né? O primeiro éuropeização do futebol. Isso é um processo que vem dos anos 80, né? que tem a ver com a, vamos dizer, com a elevação das cifras do esporte propulsionadas pela pelo televisionamento dos jogos, né?
¶19Porque a hora que o que o jogo é condensado na forma de imagem, iso é comercializado pela FIFA e você rompe, né, com a limitação de público de um estádio, você passa a ter um público global. Então isso multiplica as cifras, os jogadores viram atletas profissionais com uma exigência muito maior física, né, de de Então você começa a ter uma ocupação dos espaços que modifica a dinâmica do jogo. Qualquer um que assistir um jogo da Copa de 70 ou mesmo de 82 vai notar a diferença, né, na ocupação dos espaços. E essa e essa ocupação dos espaços, isso vai ser acompanhado de mudanças também eh eh nas regras, né, na forma de de organizar o jogo eh que é que é comandado pela FIFA, que vão tudo isso, o que eu quero sintetizar e dizer é o seguinte, isso vai favorecer uma forma europeia de se jogar, né, o jogo da compactuação, da ocupação de espaços. O futebol passa a ser um esporte cada vez mais defensivo e menos de criação, né, de drible, de improvisação, que é das virtudes que caracterizavam o futebol brasileiro.
¶20Então isso isso de um lado e de outro o processo que eu já que eu já falei. De um lado você tem, digamos assim, uma europeização do futebol e de outro lado você tem uma uma extinção, né, do da possibilidade de você cultivar um futebol brasileiro por esses processos que eu acabei de descrever em relação ao ao que acontece com os clubes, né? Então, a a a soma dessas, vamos dizer, a convergência entre essas duas coisas, o resultado, vamos dizer, quase que é um um pleonasmo, é um favorecimento das seleções europeias, né, nas nas Copas do Mundo, da forma eh vamos eh ehuropeia de de de se de se de se jogar, né? Então agora essa essa decadência do Brasil, então que eu acho que ela ela ela vem, veja, nos anos 90, né? Eh, num primeiro momento pareceu que o Brasil ia se dar bem.
¶21Eu acho que o ponto de inflexão é a Copa de 82, que ali foi o último momento, digamos assim, uma espécie de poente do futebol arte brasileiro, porque o futebol, o Brasil tinha uma seleção reconhecida como a que jogava mais bonita, um pouco como a França nessa última Copa, né? os melhores talentos, só que ele perdeu paraa Itália numa partida eh que foi muito dolorosa, abriu uma ferida na autoimagem dos brasileiros. E como é que os brasileiros processaram aquela derrota, né? De maneira geral que o futebol de arte, futebol ofensivo não compensava. Então houve uma pressão, né?
¶22>> Mas 86 não foi um pouco repeteco de 82? >> Poder parece, né? Porque o >> técnico era o mesmo. A base da seleção. Eu sei porque você tá tocando nas minhas feridas aí.
¶23tinha 8 anos quando a gente perdeu 82 e eu tô lembrando. >> Então era a gente fal é a gente acaba também fazendo um pouco de terapia, né, do do eu começo o livro brincando com isso, dizendo, né, quando eu fui casar, para mim casar foi uma coisa, uma decisão séria. Eu resolvi que eu tinha que encarar os traumas da minha infância e o trauma da minha infância tinha um nome, esse nome era Paulo Ross, né? É, eu fui rever aquele jogo tr eu nunca tive coragem de rever esse jogo. >> Então eu fiz no meu no no meu casamento e é uma coisa, eu pensei assim, agora que eu vou, né, vou vou assumir outros desafios, uma outra maduridade esperada [risadas] da minha pessoa, né?
¶24E é muito triste. Mas em 86, Cristian, né, parece, tem tem semelhanças, mas tem diferenças, né? Por quê? Eh, porque o próprio Telesantana que foi chamado as vésperas daquela copa, né, não foi, ele não foi o técnico do processo todo, né, ele arma um time mais defensivo. Eu acho que o símbolo disso é o fato dele ter dado como a faixa de capitão pro Edinho, que era um zagueiro, e não pro Sócrates.
¶25E é interessante que no primeiro jogo Brasil estreia contra a Espanha, um jogo muito difícil, o Edinho faz um gol de mão que nem o Maradona ia fazer uma uma semana depois ele escele, ele bota a mão assim na bola, só que o Edinho, o juiz anulou e aí quem teve que fazer o gol para ganhar aquele jogo de 1 a 0 foi o Sócrates mesmo, o antigo capitão, né? Mas aquela copa, veja você, quando termina termina aquela Copa, o Brasil só tomou um gol e não perdeu nenhum jogo, né? ele perdeu na na disputa de pênalis contra Frantes, né? >> Então isso é um isso é um, vamos dizer, é um detalhe que eh revela uma mudança de postura, porque na Copa, na Copa anterior, eu não lembro exatamente, tomou gol da Rússia, tomou gol, tomou gol em todos os jogos, tomou gol da Argentina, tomou três da, então tomou muitos gols na Copa de 82, só que fez muito mais. O Brasil fez mais gols naquela Copa do que na soma das duas copas anteriores, a de 74, 78, que o Brasil tinha chegado na semifinal.
¶26O Brasil jogou menos em 82, mas fez, né, fez fez fez dois, depois fez quatro, depois fez cinco, depois fez três, depois fez um monte de gol, né? Então era um futebol, então apesar de terem os mesmos jogadores, a postura foi outra, né? E e isso era era um sinal, né, dessa da da da pressão, vamos dizer, pelo ajuste do futebol. Então, interessante. >> Em 94 já foi completamente diferente.
¶27>> E o que ganhou, mas era a seleção tava irreconhecível comparado com que ela tinha sido >> eh na década anterior. >> E o que que tá acontecendo no mundo naquele contexto, né, Cristian? Era o ajuste estrutural, né? Era o there is no alternative, né? né, do o neoliberalismo se impondo.
¶28Então você tem uma uma uma O que eu tô querendo dizer é que não é que claro que não é o neoliberalismo diretamente no futebol, mas o que eu tô dizendo é que é uma correspondência entre as mudanças inclusive de expectativa de subjetividade que vai fazer com que os próprios brasileiros, os próprios torcedores, né, esperem, exigem e cobrem uma uma postura defensiva, uma postura mais ajustada. o que se passou a se chamar de futebol de resultados. É um termo que denota a o atravessamento do vocabulário corporativo no futebol, né? Então você tem em 94 como você tem uma espécie de você como se você chegasse no outro extremo, né? Porque o Brasil enfrenta a Itália novamente, que tinha sido o seu algum jogo deles, uma espécie de identificação com aquele que tinha traumatizado o Brasil, né?
¶29>> Foi a foto. >> E aí, >> e aí só que acaba aquela Copa, aí tem um dilema. Eu me lembro, eu não sei como é que você viveu aqui essa essa essa conquista, mas eu me lembro que assim, eu eu queria muito que o Brasil fosse campeão desde que eu nasci, né? [risadas] >> E a hora que acontece aquela conquista nos pênaltis, eu lembro assim, claro que eu fiquei feliz, mas me deu uma sensação assim, eu achava que ia ficar muito mais feliz do que eu fiquei, assim, como se eu tivesse que forçar um pouco de felicidade, né? >> Não, eu fiquei loucamente feliz também.
¶30né? O o que ajudava, né? Mas mas eh o que eu lembro foi o seguinte, a impressão que eu tive é que a gente jogou mal a copa inteira, exceto o jogo com a Holanda, que o único jogo que a gente jogou bem foi contra Holanda, que a gente disse que ganhou uma cópia jogando mal, mas todo mundo parecia que jogava mal. >> Então o Celso Viáfora fez uma música logo depois dessa Copa que chama Cara do Brasil e ele tem um verso que ele fala assim, né? Ele tá discutindo então a cara do Brasil, ele fala assim, né?
¶31Eh, qual é a cara do Brasil? Você tem o é o é os é o C é o eh eh Mauro Silva Dunguizinho, né? Era não era, era era meio meio-campo 0 a 0 campeão. Mauro Silva Dunguizinho. Ou o time que ficou pelo caminho Júnior Sócrates, Zico e Falcão.
¶32Hum. >> Né? >> Qual era a cara do Brasil, né? Aquele que ficou pelo caminho ou 0 a 0 campeão, né? E e então essa essa era um, acho que foi um, eu acho que acho que essa música sintetiza essa essa ideia que eu tô tentando dizer.
¶33Então que num primeiro momento apareceu que o Brasil ia se dar bem nesse ajuste, porque tem um personagem que ficou de fora dessa música em 94 e foi o Romário, >> né? você tinha o o meio-coampo 0 a 0 campeão. Mas então num futebol de resultados que se descidia pelos detalhes, o detalhe em 94 foi o Romário. Ele marcou gol em todos os jogos. Ele só não marcou contra os Estados Unidos, mas ele deu assist o que hoje em dia chama-se assistência, né?
¶34O passe pro Bebé. Sim. >> Ele ia marcar o gol porque ele driblou o zagueiro dos Estados Unidos, só que o zagueiro dos Estados Unidos deu um taco nele, foi expulso, né? E acabou 1 a 0 mesmo. Ele também não marcou na final contra Itália porque foi 0 a 0.
¶35Mas como se sabe, na hora de bater pênalti, ele não tava escalado para bater, chama, fala, fala: "Eu quero bater, né?" >> Foi >> e chuta uma bola que aquela bola ali, sim, meu coração saiu pela boca, porque ele chuta a bola bate, vai praticamente no ângulo, bate assim na trave e entra, né? O goleiro da Itália fica furioso, pega a bola, remeessa no chão, ele fica indignado. Aí você pode falar pelo ângulo italiano, eles falam: "Foi sorte, do meu ponto de vista, foi uma cobrança perfeita". >> Claro, porque é indefensável. Pois é, essa nessa nesse fenômeno que você tá falando da da neoliberalização, de como é que a o neoliberalismo, digamos assim, das relações pessoais da sociedade afeta, né?
¶36Tem afetado o futebol, né? Hoje tem essa tendência de que os jogadores, né, eles sejam tratados como se fossem celebridades, influenciadores digitais, né? Isso também não desobriga os jogadores a lutarem por títulos ou espaço midiático. Parece que a Copa, no fundo virou uma coisa meio incidental, né? A Copa era o máximo, a Copa era o pico, a Copa era eles estão defendendo a nação e tinha aquela coisa de que o sentimento de Vera Lata era muito maior.
¶37Você tá falando uma coisa tão engraçada, né? Porque nós éramos muito mais periferia naquele tempo, mas nós não éramos periferia no futebol e agora a gente é menos periferia no global, mas a gente ficou mais periferia no futebol, né? Então parece que o futebol perdeu um pouco, pelo menos não sei se no caso do do do futebol brasileiro. E e e e parece um pouco o contrário que ele que a Europa ficou mais nacionalista com o futebol. É, eu acho, eu vou falar primeiro o ponto que você falou do do jogador celebridade.
¶38Eu acho que um ponto de inflexão importante é 2006, né? Porque então tava falando em 94 a gente ganhou, 98 cheg o Brasil chegou à final, em 2002 foi campeão. Então, por um momento parecia que esse ajuste do futebol que fez do futebol um jogo mais deserotizado, defensivo, que o Brasil ia se dar bem. porque a gente tinha bom excelentes meio-campistas, compactava na defesa e tinha os atacantes que decidiam no detalhe, né? Só que a gente hoje sabe que não foi bem assim.
¶39E 2006, eu acho que é um ponto de inflexão, porque naquela Copa a gente tinha ainda os melhores talentos, era os chamado quadrado mágico, né? Você tinha Adriano, Ronaldinho fenômeno, Ronaldinho gaúcho, né? E você tinha o Kaká e você ainda tinha o Robinho no banco. Quer dizer, talento não faltava. Só que teve um pequeno episódio naquela Copa que foi muito significativo disso que você tá falando, que quando termina o primeiro jogo contra a Croácia, né, 1 a 0, golaço do Kaká, vem o jogador da Croácia falar com o Ronaldinho Gaúcho e pede a camisa dele, trocar a camisa, como os jogadores fazem no final do jogo.
¶40E o Ronaldinho não. Aí o repórter perguntou: "Por que que você não trocou a camisa?" Ele fala: "Não, porque eu tô guardando a camisa pro museu". Falou: "Como que museu?" falou o museu da minha carreira que o meu que meu agente tá organizando, que era o irmão dele, né? Tá tá organizando. Então, Cristian, se a cabeça do jogador no primeiro, na estreia dele da Copa do Mundo, tá no museu, né?
¶41E aquela Copa também, a a CBF foi na Alemanha, né? O Brasil fez a a concentração dele na Suíça. O a CBF leiloou a cidade que poderia organizar. Então, o Brasil se for foi pra cidade que, vamos dizer melhores, mas de e e o treino do Brasil se cobrava ingresso, você tinha 10.000 pessoas assistindo o treino, ma tietagens. Qual eram as condições de você se concentrar, né, num, vamos dizer, no que de fato importava, que era a o campeonato, né?
¶42Então, acho que ali eh foi foi um um um indício de que os jogadores estavam fazendo da seleção uma plataforma de valorização individual das suas carreiras mais do que uma e a gente viu o ápice desse negócio exatamente na eliminação do Brasil com o Neymar que entra para se exibir. Ele entrou ali por dizer assim: "Hoje eu vou dar a última cena da minha carreira na seleção brasileira, né? >> Eu vou fazer o gol, eu vou vou chamar atenção para mim, eu vou fazer aquele troço todo." E pronto, parece que tava entrou pensando nele. >> E é muito e é muito curioso, né, Cristian? Porque se você pensar, veja, o o o Neymar, né, ele provocou, ele atiçou as as expectativas dos brasileiros e e é importante dizer que não foi que foi uma expectativa que atravessou o espectro ideológico, né?
¶43Tem uma pesquisa que foi feita logo antes da convocação dele, né? eh mostrando que eh 57% dos bolsonaristas, daqueles que se identificavam como bolsonaristas apoiavam a convocação do Neymar, né? >> Sim, >> mas 50% eh dos que se identificavam com o Lula não apoiavam. Mas o que eu tôendo, mas o que isso mostra é o seguinte, era 40 e poucos por apoiavam, então não era no a o, vamos dizer a o apoio, a convocação do Neymar não refletia e tinha fazia diferença, mas não era não era. Então, então o apoio à convocação do Neymar, ele atravessava, por exemplo, o Mano Brown, né, que é uma pessoa reconhecidamente, vamos dizer do do lado das causas da da mudança social.
¶44Ele abraça. Quando o Neymar voltou para jogar no Santos o ano passado, ele abraçou, tinha dito que se o Neymar voltasse pro Santos ia ser como a volta do Jesus Cristo. E então eu e o que eu tô querendo dizer é que então você tinha uma grande uma muita expectativa, né? E como é que você explica essa essa essa expectativa? Eu acho, a minha leitura é que o Neymar é uma espécie de bet encarnada, né?
¶45Em que sentido? numa seleção em que as expectativas dos brasileiros estavam tão baixas, estavam tão baixas que o marketing corporativo focou as suas campanhas em fazer as pessoas acreditarem. Não sei se você lembra o comercial da Brama, por exemplo, né? O lema do Comercial da Brama era: "Tá liberado acreditar". E era o Ronaldo, você tem que evocar os últimos ídolos para fazer esses comerciais.
¶46Aí para dar um pouquinho de lastro, como não tem um jogador para dar esse lastro, eles chamaram o Lancelote, né? Então, a outra a outra propaganda do Mercado Livre era o Ronaldo com guiando um carro como se fosse aquele filme do De Volta pro Futuro, né? Ele voltava pro passado, para um passado em que o Brasil ainda era campeão e fazia festa e de novo tinha essa ideia de de acreditar. Ele terminava falando: "Enquanto os brasileiros acreditarem, isso aqui vai ser o país do futebol, né?" né? Então o Neymar, então num contexto de desacreditamento, de descrença, mas em que as pessoas querem muito acreditar, não só porque as pessoas amam o futebol, mas porque a Copa do Mundo dá uma licença para elas cancelarem uma segunda-feira, se encontrar, tomar cerveja e como aconteceu no jogo contra o Japão, quem é que não quer isso, né?
¶47>> Eu acho que também tem uma coisa bacana de confraternização que acho que quebrou um pouco a coisa da da polarização, sabe? A coisa da camisa. Porque eu vi, eu vi muita gente falando isso. Pena que acabou, porque agora vai voltar aquela [risadas] porque aquela identificação comum vai acabar. >> Então o que eu quero dizer é que eu acho que muita da expectativa em torno do Neymar é que assim, num contexto em que as pessoas olhavam para aquela seleção e diziam: "Cara, isso aqui não tem muito futuro, mas eu quero muito que isso tenha futuro, porque eu gosto muito de futebol.
¶48O Brasil precisa, é uma das poucas coisas que que a gente tem de de de bonito, que que tira a gente, vamos dizer, da rotina, esse poder mágico de transformar um momento profano, um dia profano de segunda-feira numa coisa sagrada que o que o Brasil para, né? >> Aí o Neymar, então ele ele acaba encarnando essa expectativa, vamos dizer, de um salvador, né? Só que qual é o paradoxo, que é o que você tava observando quando ele entra nessa posição, nessa expectativa, no jogo decisivo, o Salvador se revela pura pulsão de morte. É muito parecido com o próprio bolsonarismo, em que você toda a expectativa que você tem, aquele que encarnava, vamos dizer, o Messias de Chuteira, quando ele entra, o que ele faz? É pontapé no meia que tinha alugado o meio-coampo da, né, do meio da Donuega, né?
¶49Ele fica tretando com o goleiro em vez de de de correr para aquela pegar aquela bola para tentar recuperar. >> Enfim, foi pura foi puro descarrego odioso, né? E performático, né? Porque quem é que pode acreditar naqu na sinceridade daquele choro se na hora que o jogo ainda tava acontecendo, ele resolveu tretar com o goleiro ao invés de correr ali para pegar a bola e se um cinco dias depois ele tava disputando um torneio de poker em Las Vegas, se ele tava assim tão triste, né? Então é pura performance.
¶50>> Pois é. Você tá falando de jogo de bet. O boletim fiscal dos Estados Brasileiros estimou que em 2025 houve uma perda de 62 bilhões para BETs em famílias brasileiras. R 62 bilhões deais, né? E e que é um dos principais debates sobre futebol hoje em dia.
¶51Você acha que esse cenário é reflexo dessa sociedade aí que você tá descrevendo? é é reflexo de uma sociedade sim de discrentes e também de discrença no mundo do trabalho e inclusive no no empreendedorismo, né? Porque você sabe, né, com a corrosão, que é um processo global, corrosão do mundo do trabalho, né? Eh, a, vamos dizer, a, se a gente pensar, vamos pensar assim, em gramática brasileira, né? Quando você tem a Constituição de 88, a aposta é universalização de direitos sociais, né?
¶52Aí você vem, eh, vamos dizer, a política social principal dos anos do PT vai ser o bolso da família, né? Mas ao mesmo tempo com você vai tendo cada vez mais o empreendedorismo, né? Então, muitas vezes o recurso do Bolsa Família sendo usado para começar um empreendimento ou para E o que você tem nessas pesquisas que você falou, dos relatórios do Banco Central de eh recentes foi começar a constatar que as pessoas estavam usando Bolsa Família para apostar, né, o recurso dessas dessas políticas sociais para apostar. O que que eu acho que isso revela? Isso revela uma uma discrença não só no mundo do trabalho, mas no próprio empreendedorismo, porque o quanto mais não queira, tá na gramática do mérito, né?
¶53A gramática da Bet, ela tá muito mais próxima do capital financeiro, que na, vamos dizer, na pro senso comum, né, parece é uma mágica, né, porque é dinheiro que faz o mais dinheiro, né? E eu acho que a Bet tem também uma coisa que tem a ver com esse universo digital dos influenciadores, que é essa essa essa aspiração de você ganhar dinheiro fazendo o que gosta, né? que isso também é algo que o jogador de futebol influenciador como Neymar acaba encarnando ao quadrado. Se você for conversar com os jovens em escola hoje, né, eles não vão dizer que querem nas escolas públicas que eles querem ser professor, que eles querem o o desejo é ser um influenciador, né, ser alguém que que dá esse que que que dá esse pulo. Então, acho que a Bet ela tá nesse nessa nessa linguagem que é também uma linguagem que tá fora da gramática do trabalho.
¶54Ela reflete um desencanto, uma descrença profunda com a gramática do trabalho, mesmo com a gramática do do mérito que do empreendedor. e uma, mas também uma aposta, uma espécie de aposta, um pensamento mágico, né, que tem a ver também com uma sociabilidade que tá ficando cada vez mais atravessada pela religios religiosidade, inclusive no campo de futebol. >> Olha, cara, papo fantástico. Eu vou eu acho que eu vou tentar arrancar um artigo seu para pra revista Inteligência, cara, para poder continuar a conversa, porque eu acho absolutamente fascinante, né, essa análise do futebol. né, de forma interdisciplinar para além da técnica.
¶55É um negócio fascinante, né? Eu tenho certeza que quem assistiu essa entrevista gostou tanto quanto eu. Bom, como já presumi, né, e o Fábio não é ainda não é articulista da inteligência, mas espero que seja daqui a pouco, né, >> né? Bom, para mais conteúdos sobre futebol, política, relações internacionais, globalização e muito mais, não deixe de conferir os planos da assinatura da revista. Você não vai se arrepender, obviamente.
¶56E acompanha as redes sociais da Insat Inteligência e do Canal Meio para ficar por dentro dos lançamentos e das novidades. Até o próximo diálogos. O meio começou com a newsletter que chega na sua caixa de entrada com as principais [música] notícias do dia. Sabe qual é, né? Aquela que você lê em 8 minutos.
¶57Depois, depois a gente evoluiu pros vídeos aqui no canal do YouTube. São as análises e programas que mais tarde foram adaptados para áudio com os podcasts que você pode ouvir lavando louça na [música] academia, na fila do mercado, cozinhando e a barra ficou mais alta. Porque chegamos às produções audiovisuais com qualidade de cinema e um swimming [música] próprio. São séries e documentários originais e um catálogo exclusivo para eles, os nossos assinantes premium. É assim que o jornalismo do meio vem crescendo para caber no seu dia, [música] do jeito que fizer sentido para cada um dos nossos leitores se informar.
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