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O que aconteceu com o futebol brasileiro? | Diálogos

a tese

O historiador Fábio Luiz Barbosa, doutor em história econômica pela USP e autor de "Saudade do que nunca fomos: brasileiros e o futebol", sustenta que o declínio do futebol brasileiro não é acidente técnico e sim efeito combinado da globalização do mercado de jogadores e da europeização do estilo de jogo, com o futebol funcionando como índice civilizatório da sociedade que o produz.

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talvez

O interesse não é o futebol: é a leitura de messianismo, pensamento mágico e religiosidade difusa como sintomas da mesma descrença, material que dialoga com a crítica do Bruno à fé instrumentalizada.

O que foi dito

  • Ele começa pelas formas diretas de politização da FIFA: barrar a Rússia e não Israel, mudar regras que favorecem jogo defensivo, proibir a paradinha no pênalti (recurso de brasileiros), orientar árbitros a economizar cartões e introduzir a parada para hidratação por razão comercial, não sanitária.
  • A flexibilização das regras de nacionalidade, pressionada pelas federações africanas, mudou a cara das seleções: descendentes de migrantes africanos e árabes nas equipes europeias e europeus atuando por seleções africanas, com irmãos em seleções diferentes.
  • O argumento econômico central: até os anos 90 os clubes sul-americanos venciam mundiais (sete contra três na década, com Vasco e Corinthians na final de 2000), e a abertura do mercado europeu aos estrangeiros converteu os clubes brasileiros em vitrines de exportação.
  • A consequência é a impossibilidade do jogo coletivo: antes o clube negociava jogadores para formar um time, agora forma times para negociar jogadores, o que impede conjuntos duradouros como o Flamengo de Zico, Júnior e Andrade ou o São Paulo de Müller, Cafu e Raí.
  • O resultado estético ele descreve como futebol brutalizado, com menos gols, mais bola parada e mais treta, e cita Eduardo Galeano (“o gol é o orgasmo do futebol”) para dizer que o jogo virou correria, menos brincado e mais brigado; estende o diagnóstico às arquibancadas, com a torcida única imposta em São Paulo no mesmo ano da queda de Dilma criando uma geração educada na hostilidade.
  • A linha do tempo tem como inflexão a Copa de 82, último momento do futebol arte, cuja derrota para a Itália os brasileiros processaram como prova de que jogo ofensivo não compensa; em 86, com os mesmos jogadores, Telê Santana armou time defensivo e deu a faixa de capitão a Edinho, zagueiro, em vez de Sócrates.
  • Ele lê 94 como sintonia com o ajuste neoliberal e o “futebol de resultados”, vocabulário corporativo dentro do esporte, e usa a música “Cara do Brasil”, de Celso Viáfora, para formular a pergunta: a cara do Brasil é o meio-campo 0 a 0 campeão ou o time que ficou pelo caminho, Júnior, Sócrates, Zico e Falcão.
  • A inflexão seguinte é 2006, com o jogador-celebridade: Ronaldinho Gaúcho recusando trocar camisa na estreia porque a guardava para o museu que o irmão organizava, e a CBF leiloando a cidade da concentração, com treinos pagos e dez mil pessoas assistindo.
  • A parte mais forte para discussão é a leitura de Neymar como “bet encarnada” e “Messias de chuteira”: num ambiente de descrença, o marketing (a campanha “tá liberado acreditar”) produziu expectativa de salvador, e no jogo decisivo o salvador se revelou pura pulsão de morte, com paralelo explícito ao bolsonarismo e desconfiança quanto à sinceridade do choro de quem disputava pôquer em Las Vegas cinco dias depois.
  • Ele fecha ligando as bets (62 bilhões de reais perdidos por famílias brasileiras em 2025, com uso de Bolsa Família em apostas) a uma descrença que atinge tanto a gramática do trabalho quanto a do mérito empreendedor, substituídas por pensamento mágico e por uma sociabilidade cada vez mais atravessada de religiosidade, inclusive dentro de campo.

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