¶1Você tá entendendo a briga do Banco Master mesmo? Você entende qual a natureza do conflito entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal? Entende com a natureza do envolvimento de Flávio Bolsonaro com master? E o do PT e o de José Antônio Dias Tofoli. Aliás, já que a gente tá nessa, você compreende também o impacto nessa eleição desse que é literalmente, tá?
¶2O maior escândalo financeiro da história do Brasil. Você sabe quem permitiu que o banqueiro Daniel Vorcaro tivesse um banco no debate dinheiro público versus dinheiro privado. Compreende quanto era o que no máster e como distribuía? Pois é, amanhã, terça-feira, o Supremo Tribunal Federal vai abrir aquela que possivelmente é a mais importante audiência da sua história. De lá pode sair a decisão, pela primeira vez de autorizar a investigação de um dos seus ministros, Alexandre.
¶3E talvez você acredite que esse conflito, como todos os outros conflitos políticos, no fim das contas, seja um entre bolsonarismo e o lulismo? Mas e se não for, porque é tentador, não é mesmo? Põe de um lado a turma do Lula, do outro a turma do Flávio. Por exemplo, Alexandre, Lula, Mendonça, Flávio. O mundo fica simples de entender.
¶4Tem dois times disputando um campeonato. Pronto, escolhe a camisa vermelha, a camisa amarela. Vamos em frente, todo mundo sabe como se posicionar. E se não for tão simples, vamos voltar uns meses no passado. O presidente Luís Inácio Lula da Silva indicou Jorge Messias, seu advogado geral da União, AGU, para ser ministro do Supremo.
¶5Bolsonaro fez o mesmo, escolheu o próprio Mendona, que era o seu aú. Aliás, Lula colocou o próprio Tol assim. Fernando Henrique fez isso com Gilmar Mendes, todos ageus. Então foi lá pro Senado o nome do Messias e ele foi derrotado. Foi derrotado por uma aliança que juntou Alexandre de Morais, Davi Al Columbri, presidente do Senado, Flávio Bolsonaro e alguns acreditam o próprio líder do governo no Senado, Jaques Wagner.
¶6Mas pera aí, por que que Alexandre e Al Columbri operaram contra Messias, que era indicado por Lula? Flávia, a gente entende que seria contra alguém que Lula escolheu, mas os outros, o Alexandre, [suspirando] bem, Messias era visto por todo mundo como um aliado de mendonça no processo do Master. Era assim que eles viam. Ou seja, o que temos não é o time do Lula e o time do Bolsonaro um contra o outro. O que temos é algo diferente.
¶7É o time que não quer investigar o máx e o time que quer. Então é isso. Mas como é grande a vontade que a gente tem de um desenho claro de mocinho e bandido, né? Eu sei, é muito tentador, mas eu posso complicar um pouco mais. No início do ano, o ministro relator do caso Master não era André Mendonça, era Tofoli.
¶8E Tofoli começou a tomar decisões como ministro do Supremo que atrapalhavam investigação, que podiam, diz a Polícia Federal, até invalidar provas, melar todo o processo. De repente algo aconteceu. O Supremo declarou apoio a Tofol nas suspeitas que haviam sobre o seu envolvimento com Master. [suspirando] e tirou dele a relatoria. Apoiou, mas tirou.
¶9Nós não sabíamos em detalhe o que havia acontecido ali. A gente tinha muitas suspeitas. Agora, graças à revista Piauí, nós sabemos muito desse raciocínio aqui vem direto da repórter Ana Paula Costa da Piauí, que falou no Foro de Teresina e ela junta umas peças que são importantes. A Polícia Federal encaminhou um relatório sobre Tofle ao Supremo que mostrava em detalhes quão profundamente ele estava envolvido. Entendam isso porque é importante.
¶10A família Barce de Morais ganhou mais dinheiro de Vorcaro do que a família Tofol, pelo menos até aqui. É isso. Agora, nós sabemos que Tofolle tomou como ministro decisões que beneficiaram VCAR diretamente. Não foi assim com Alexandre, tá? Há indícios, mas ainda não há provas, de que Alexandre compartilhou com Vorcaro dados sigilosos da investigação da Polícia Federal sobre ele.
¶11É possível que ele tenha interferido com alguns órgãos em favor dele de Vorcaro. Ainda não temos prova, mas sabemos que recebeu dinheiro. Se esse dinheiro é suborno em troca de algum serviço, precisa ser provado. É para isso que serve a investigação, que o Supremo talvez abra amanhã. Com Tofol não é assim.
¶12Com Toófoli é pior, porque com Toófoli sabemos que entrou dinheiro ligado ao máster nos seus negócios, a indícios de que há um fundo com dinheiro para ele fora do Brasil e sabemos que decisões que ele tomou beneficiaram o banqueiro. O caso de Alexandre é muito, muito, muito grave e o caso de Tofoly consegue ser ainda mais grave. O Supremo sabe de todas essas acusações contra Tofol, pelo menos desde março, todos os ministros. Nós nós aprendemos nos últimos dias. Então, vem cá, vamos retomar esse fio.
¶13André Mendonça, o ministro que quer investigar de um lado contra os ministros que querem esconder do outro. Então, por que que Mendonça escolheu a véspera do 7 de setembro, o dia do principal evento bolsonarista, para de repente tornar público o relatório da Polícia Federal contra Alexandre? Ele sabe há meses que o caso de Tof é pior do que o de Alexandre, mas escolheu o olho do furacão da eleição presidencial no momento em que Flávio Bolsonaro poderia mais se aproveitar disso para tornar pública a investigação da PF contra Alexandre. Ciente, plenamente ciente de que por ter sido relator do caso do golpe de estado, Alexandre é também o inimigo número um do bolsonarismo. Se o ministro quisesse escolher o melhor momento para causar dano à campanha de Lula e beneficiar Flávio, escolheria justamente aquele momento.
¶14Olha, quanto mais você mergulha nessa história, mais difícil é escolher um mocinho bandido, tá? Aliás, vem cá. Onde é que tem dinheiro privado no máster? Será que tem? Eu sou Pedro Dói, editor do meio.
¶15Essa eleição, ela é aquela com menor interesse da população desde 1989. Quer ver um número da pesquisa Meio Ideia que a gente publicou na semana passada? 42% dos brasileiros acham que o grupo de Lula e o grupo de Flávio são igualmente corruptos. Quase metade do Brasil. Quase ninguém vota em corrupção.
¶16Quase ninguém acha que um dos dois vai mudar radicalmente o país. Esse desinteresse afeta todas as empresas de jornalismo, inclusive o meio. Em geral, o que sustenta empresas como a nossa são os anos de eleição. É quando muitos pagam para assinar para entender o que tá acontecendo. Nesse ano não tá acontecendo.
¶17E pro jornalismo que não faz torcida é pior. As pessoas preferem o jornalismo que lhes diz o que desejam ouvir, que apoiam a sua torcida. Não é o que fazemos e não é o que faremos. A gente quer entender quem é o brasileiro, o que ele pensa, o que mobiliza para votar. Temos comentaristas à minha direita, temos comentaristas à minha esquerda e centristas como eu.
¶18Se o jornalismo do meio é importante para você, assina. Sim, eu sei. O ano tá difícil, mas é o valor de um shoper por mês. Esse ano, esse ano a gente precisa como nunca dessas assinaturas, porque elas não estão vindo. E esse aqui, esse é o ponto de partida.
¶19Vamos, vamos voltar a uma pergunta aqui que eu fiz lá no começo. Dinheiro público, dinheiro privado, quanto era o que dentro do master? Porque veja, o Mar era um banco privado do Daniel Vorcaro e dos sócios dele. Lucro dele dos sócios, risco dele dos sócios. É assim que o capitalismo funciona, assim que tem de ser.
¶20Só que o dinheiro que entrava não era dele, vinha dos fundos de pensão dos governos estaduais. E aí, cara, para nessa frase só um segundo comigo, porque ela é muito mais importante do que parece, tá? Fundo de pensão de governo estadual é a aposentadoria do servidor público. É o dinheiro do professor da rede estadual, do policial militar, da enfermeira, do fiscal, do gari. Gente que trabalhou 30 anos e tem ali naquele fundo tudo que juntou na vida.
¶21Era esse dinheiro que tava indo pro banco master. Quando um banco privado quebra, o prejuízo deveria ser do dono e de quem apostou nele. Aqui não. Aqui o dinheiro era do servidor estadual. E como é que se traz um dinheiro desses para dentro do seu banco?
¶22Porque todo banqueiro quer, né? É muito dinheiro. Veja, quem decide onde o fundo de pensão de um estado aplica, não é um investidor anônimo na bolsa, é um diretor nomeado. E quem nomeia é o governador. Então Vorcaro pagou governadores.
¶23Quem deu permissão a um sujeito como Vorcaro para ter um banco. No governo Michel Temer, ele foi lá pedir. Elan Goldfarn era o presidente do Banco Central, negou. Não tinha condição de um cara daqueles ser dono de banco. Aí Roberto Campos Neto assumiu o BC.
¶24Por quê? Por que que ele deixou? Não sabemos. Mas não foi no governo Bolsonaro com Roberto Campos Neto que Vorcaro pode ter um banco. Ali ele ganhou a permissão de ser banqueiro.
¶25E foi Gabriel Galipulo entrar no comando do BC que o master foi fechado. Por caro pagou a governadores para trazer o dinheiro, pagou a juízes para protegê-lo, pagou dentro de órgãos públicos para que criassem facilidades, pagou a parlamentares para facilitar a vida dele em Brasília com regras e leis e pagou a quem pôde entre os bolsonaristas e a quem pôde entre os petistas para que não importasse quem ganhasse a eleição, não importasse quem estivesse sentado na cadeira da presidência, houvesse sempre alguém lá dentro em condições de beneficiá-lo. Olha, olha o que que isso tudo quer dizer, gente. Ele, ele não escolheu um lado. Escolhe um lado é arriscado, porque o lado pode perder.
¶26Ele comprou quem deu nos dois. Tinha mais gente topando num lado do que no outro, mas quem topou ganhou alguma coisa. Agora vamos para aquele fio da abertura. Eu disse a você que quanto mais a gente mergulha nessa história, mais difícil fica escolher um mocinho, um bandido. É verdade.
¶27Mas eu também não quero que você saia daqui com a conclusão fácil, que a conclusão errada, a de que são todos iguais e tanto faz, porque não é isso. [suspirando] A diferença entre as pessoas continua existindo e ela importa. Tofol tomou decisões como ministro do Supremo que beneficiaram banqueiro. Sobre Alexandre, há indícios, há dinheiro e precisa investigar. Não é a mesma coisa.
¶28E Flávio Bolsonaro ganhou tanto dinheiro quanto para Alexandre de Moraes. É muito grave que um homem desses esteja a centímetros da presidência da República. O que não existe aí dentro é um time completamente limpo. E não existe porque havia um comprador usando dinheiro de aposentado, comprando todos os times ao mesmo tempo onde desce para comprar. [suspirando] Repara que essa frase é diferente de são todos iguais.
¶29São todos iguais. Desliga a gente, né? Desliga o cidadão, manda ele para casa. Essa frase aqui devia ligar, porque é disso que se trata a sessão que começa amanhã. Amanhã não se decide quem é o mocinho.
¶30Não é essa pergunta. A pergunta de amanhã é se essa república ainda tem dentro dela algum tipo de mecanismo capaz de investigar si mesma. O Supremo Tribunal Federal nunca autorizou a investigação de um ministro seu, nunca em toda a sua história. Se autorizar é a primeira vez e a prova de que o sistema ainda reage quando é apertado. se não autorizar sabendo que se sabe desde março.
¶31Então, aqueles 42% de brasileiros que acham que é tudo a mesma coisa, deixam de estar dando uma opinião sobre a política, passam a estar constatando um fato sobre o país. Elas estão se aproximando as eleições e aqui no meio você acompanha com dados de verdade, sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússolas. É a nossa pesquisa independente [música] registrada no TSE, feita todo mês em parceria com o Instituto Ideia.
¶32[música] Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por [música] classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. Esse tipo de leitura, até [música] pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá disponível para quem assina o meio premium. Em um ano como esse, olha, vale o ouro. [música] e receba mais esse material exclusivo.