¶1E, e efetivamente eu acho que a gente tem aqui duas coisas que são bem importantes e que se cruzam, né, nesse processo. A primeira delas tem a ver com o fato de que me parece que não é novidade para ninguém, de que o judiciário é um poder que entrega muito pouco, né? Acho que essa é uma premissa para tudo aquilo que eu venho a conversar nesses poucos minutos que eu vou ter aqui. Eh, o judiciário entrega pouco e em algum sentido a democracia brasileira tem entregue pouco e à medida que se entrega muito pouco, eu creio que o grande risco do que a gente vê hoje, talvez é aquilo que gere a nossa maior preocupação, é que a gente vai est entre dois tipos de compreensão ao fim desse dia que podem ser igualmente perigosas. a ideia de que nada vai ser feito e aí se termina em pizza e isso vai ter uma série de implicações.
¶2E uma ideia que é igualmente perigosa também, que significa dizer que a abertura de uma determinada investigação já significa que alguém é culpado, porque a gente não tá efetivamente discutindo se o ministro Morais é culpado disso ou se na semana que vem o ministro Mendonça é é culpado daquilo, né? Eu creio que o grande ponto é que a sociedade brasileira entrou numa quadra histórica que eu considero muito perigosa, em que há tanta ânsia por algo ser feito que se essa resposta não vem exatamente naquele formato que as pessoas esperam, ela não é uma resposta adequada. E talvez essa seja a minha grande preocupação. Na verdade, essa certamente é a minha grande preocupação para aquilo que tem acontecido, não só na na nas últimas semanas, mas ao longo dos últimos anos. Eh, acho a tua colocação excelente e acho que eh, de uma maneira ou de outra o Brasil hoje, eu não sei, eu sei que eu não tô em tela, mas eu acho que você tá me ouvindo, né?
¶3Eh, >> tô te ouvindo, tô te ouvindo. >> Anoticamente, eu recebi relatos de amigos de como o Brasil tá parado assistindo a essa sessão, né? Flávia, se você me permite a interrupção, eh eh eu faço esse comentário, vocês estão vendo o Magno deu uma levantada, ele já volta. Você sabe que eu acabo de receber esse comentário de um amigo meu paulistano, que tá no Rio de Janeiro nesse momento. Ele desceu de um prédio onde ele tava.
¶4O porteiro tava assistindo a a sessão do Supremo, atravessou a rua, entrou no Uber. O motorista do Uber tava assistindo a sessão do Supremo. Exatamente isso que você tá falando. >> E e é e por isso que eu valorizei na minha fala inicial a o discurso do Faquim e que eu acho que o ponto eh eu acho que de uma maneira muito ilustrativa, muito sem sem muito juridiqueis, embora usando nomes que as pessoas talvez desconheçam, né? eh fez a referência aos antecessores de cada ministro e e falou: "Olha, a gente pode ter divergência, a gente pode ter diferença, mas a gente precisa conseguir tratar disso tudo aqui nesse colegiado e tudo mais".
¶5Isso é uma coisa. Agora tem uma outra parte que é o debate. Eh, tem um um pedaço que é muito >> ah rasteiro mesmo de troca de acusações. Você fez isso, você é aquilo, você está sendo leviano. E tem uma parte que é regimental, procedimental, que é esse teu segundo temor, que é, olha, até onde nós vamos, até onde a gente tem que seguir o rigor da lei e que pode suscitar nas pessoas um temor ou uma sensação de que olha aí já eles estão enrolando, é enrolação, [risadas] né, para para livrar a cara de um ou para acusar o outro e etc.
¶6Como é delicado esse tipo de momento, né, Creomar, porque ao mesmo tempo que a gente não quer que seja feito de uma maneira pouco técnica, ao contrário, é o momento de institucionalizar o máximo. Eh, por outro lado, eh, quanto mais técnico for o debate, mais pode suscitar essa percepção de que tá sendo enrolado, que tá sendo uma enrolação. Como é que você tá entendendo o julgamento até aqui? Eh, tirando as partes do dos embates mais duros, o que que tá acontecendo ali politicamente e a percepção que as pessoas vão ter a partir daí? >> Ah, Flávio, eu acho que esse é um excelente ponto de partida.
¶7Eu creio que tem duas coisas que são importantes que a gente precisa ter em mente eh nesse embate que se coloca hoje no Supremo Tribunal Federal de saída, eu creio que se trata eh menos de justiça e mais sobre poder e o futuro da Suprema Corte. Eu vou explicar. Não tô querendo dizer aqui que eh o ministro A não tá preocupado em justiça e o ministro B não tá preocupado em justiça. Muito potencialmente cada um deles tá preocupado com alguma versão de justiça que atenda os seus próprios interesses. Mas efetivamente o que a gente tem visto é um movimento que revela uma determinada insurgência, eu acho que esse é o é o melhor termo, de um grupo da Suprema Corte contra um grupo da Suprema Corte que até aqui deu as cartas naquilo que seria o jogo interno de interpretação de direito e o jogo institucional do trato com os outros poderes, que é basicamente o que a gente tá vendo aí, o grupo do ministro Gilmar Mendes contra o grupo do que hoje tá sendo liderado pelo ministro André Mendon.
¶8E porque eu acho que isso é importante dentro daquilo que eu analiso, tá? Eu trabalho, a turma que tá aqui já sabe, eu trabalho com análise de risco, identifico o padrão e traço o cenário. Basicamente a minha preocupação é é o que vai acontecer daqui a três casas e não o que tá acontecendo agora. Pensando na dinâmica de três casas, o que que a gente tem aqui? Se o movimento que foi construído pelo ministro Mendon.
¶9Não estou entrando na adjetivação ou na avaliação do movimento. O movimento é dele e ele que vai lidar com os custos em primeira instância e todo o resto da cidadania em segunda instância, porque é assim que acontece na democracia institucional, né? Se os movimentos dele forem bem-sucedidos, a gente vai ter em algum sentido, muito provavelmente que nos próximos 30 anos desta corte, ou 20 anos dessa corte, eu não sei se o André Mendonça vai ficar 30, né, pela questão da cronologia, todas as escolhas vão passar por ele, porque o cenário ideal é você ter uma vitória do Flávio Bolsonaro, você vai ter mais ou quatro ou cinco ou seis indicações, a gente vai ter que olhar, por exemplo, o Senado, o desenho institucional da política. Isso passa por ele em algum sentido. É como se André vir eh tem uma brincadeira que é uma propaganda que talvez o Pedro lembre que ele é mais meu contemporâneo.
¶10Você não vai lembrar que você não tava nem nesse plano ainda de existência, mas assim, eu sou você amanhã em algum sentido é Mendonça quer ser Gilmar amanhã. É, >> o dilema disso aí é que no meio do caminho a gente vai ter >> efetivamente eh, >> e o eh outros atores vão estar no jogo, né? E nesses atores em jogo, em determinado sentido, a gente tem uma dinâmica que me parece que é muito importante também, que é entender como esses atores jogam o jogo dentro da corte e como os atores jogam o jogo para fora da corte. E aí eu queria pegar só uma frasezinha que eu achei bem importante, apesar de não ser o cerne da pergunta, que é quando você fala da questão dos insultos, né? E aí tem um momento em que o Gilmar Mendes fala um negócio pro Mendonça e o Mendonça diz: "Você mente", né?
¶11E aí é uma pergunta sempre, é sempre interessante perguntar quem mente? Todo mundo, gente. Todo mundo mente. E políticos e atores institucionais normalmente mentem muito mais do que gente comum. >> Uhum.
¶12>> Né? Porque a mentira tem funcionalidade. Tem até, inclusive, um livro que foi muito bem escrito, que é meu, fazendo um jabá aqui bem rapidinho, mas só para quebrar e ficar bem humorado, eh, em que eu tenho um capítulo em que eu falo exatamente da mentira, né? O impacto da mentira na atividade política. Porque o que a gente tá vendo aqui é um julgamento político, uma sessão política com dentro de um recinto jurídico que marca também aquilo.
¶13O Pedro disse isso da última vez que eu vi. Eu achei muito bom, ficou na minha cabeça, que é o esgotamento das soluções institucionais dadas pela Constituição de 88. O STF, conforme desenhado e pensado em 88, talvez tenha chegado no seu esgaro. E aí vem um ponto, não importa para mim, tá? Importa muito pouco o que vai acontecer com o Moraes, importa muito pouco o que vai acontecer com Mendonça, importa muito pouco o que vai acontecer com Gmarne.
¶14O que importa de verdade é que em 2027 o STF não será o tribunal que foi em 2023, né? E aqui eu creio que a gente tem um elemento muito, muito crítico, porque se a gente tem um STF que no papel é um guardião da institucionalidade e esse STF passa por um processo de degradação da sua legitimidade junto à população, caindo para uma avaliação que seja muito próxima do Congresso Nacional hoje, por exemplo, significa dizer o quê? que não importando se ganha para o planalto A, B, C, D, E ou F, efetivamente se abre um espaço para um desequilíbrio institucional em que a gente já tem as seguintes características que eu acho que são importantes. Uma presidência com cada vez menos poder, porque a gente tem uma sequência de presidências ruins da Dilma para cá e aí para ninguém ficar chateado, todas são muito ruins, tem de sal e tem de doce. que aí você não precisa me xingar, porque eu tô falando do seu do seu político de estimação que você tem uma fotinha 3x4 na carteira.
¶15Isso aí é problema teu. Pode fazer a tua escolha. Todas são muito ruins do ponto de vista de preservação das prerrogativas constitucionais. A gente tem um Congresso que se recusa a ser congresso, que significa dizer o quê? Congresso não quer aprovar, discutir, pautar leis.
¶16O Congresso quer ser o que o PRP era na velha república, né? oligarquia regional, tendo um pedaço do orçamento e fazendo obrinha lá no seu curralhinho eleitoral para partir daí ganhar poder. E a gente vai ter como o fechamento dessa tríade que é trágica pro Brasil, que talvez a gente tenha se acostumado a pensar, será um STF sem legitimidade. E aí um STF sem legitimidade significa dizer o quê, gente? Que o tribunal vai amarelar na hora que tiver que tomar decisões.
¶17E aí eu vou falar especificamente uma que me afeta muito é que o tribunal não amarelou. O tribunal nunca amarelou em definir quem era o campeão brasileiro de 87. Isso me prejudica profundamente, porque ele deu título pro Esport Clube do Recife. Com todo respeito a quem é torcedor do Sport Clube do Recife. Mas a gente tem aí como exemplo Craço, né, de 88 para cá se acostumou à ideia de que o STF ia resolver tudo, né?
¶18E essa ideia não vai mais acontecer porque o judiciário se negou a fazer uma reforma por dentro e agora ele vai receber uma reforma por fora e não necessariamente é boa para o país. >> Noiciário político não se fala em outra coisa que não essa crise do STF, né? No meio a gente faz essa cobertura completa sim, mas vamos além. Nas edições de sábado de setembro, nosso time foi atrás de quem estuda o Supremo. Entrevistamos alguns dos maiores juristas e pesquisadores do país para analisar essa crise, para explicar essa crise.
¶19Não é opinião [música] de mesa de bar, é contexto, é informação. Foi assim com Rubens Gler da FGV Direito [música] SP sobre urgência de uma reforma na corte. tá lá na nossa edição mais recente, mas o STF não pode abafar todo o resto. Por isso, trouxemos entrevistas e artigos sobre os [música] outros temas que também preocupam o brasileiro nessa eleição, como economia, como educação. A Débora Bizarria, por exemplo, escreveu um artigo comparando os cinco programas de governo na economia.
¶20A Priscila Cruz do Todos pela Educação bateu um papo com a gente sobre o que cada presidenciável propõe nesse campo. São os temas que o noticiário do dia a dia deixa passar, mas a gente não. Se você quer acompanhar essa eleição com esse [música] nível de profundidade, qualidade de análise, assina o meio premium e receba a edição de sábado. Toda semana vai fazer diferença [música] para você entender no que tá botando.