¶1Teologia da prosperidade é um desvio do calvinismo, porque é o calvinismo que, por crer na dupla predestinação, que diz que uma das características de quem vai para o céu é que você tem prosperidade econômica. A prosperidade econômica é um dos sinais de que você é eleito. O calvinismo, ele [limpando a garganta] é o pai da teologia da prosperidade. Foi ele que deu as raízes e as origens pra teologia da prosperidade. Calma que essa frase não é minha.
¶2Isso daqui foi dito pelo Arivaldo Ramos num podcast e publicado como corte no Instagram do pastor Eduardo Reis numa justificativa de post que ele mesmo fez Eduardo Reis dizendo mais ou menos a mesma coisa. O calvinismo é o responsável pela teologia da prosperidade ter aparecido ou algo mais ou menos nessa linha. O pastor Eduardo depois pode me corrigir se eu fiz uma representação ruim daquilo que eu disse numa crítica que ele faz as igrejas reformadas que apontam o erro de todo mundo, mas que tem também a sua própria bagagem de erros. Bom, esse vídeo aqui é para tentar mostrar o possível engano que tanto Ariovaldo quanto Eduardo Reis, quanto outras pessoas, Marilan Xui, por exemplo, cometem ao tentar associar prosperidade, teologia da prosperidade, capitalismo, calvinismo e protestantismo, muitas vezes com o nosso amigo Max Weber ocupando o centro do palco. Dito isso, eu preciso fazer um pequeno disclaimer.
¶3Adrivaldo Ramos é um teólogo que recebeu muitas críticas injustas, às vezes desproporcionais e foi muitas vezes julgado vítima até mesmo de difamação não verdadeira, inverídica. Eu não quero me alinhar aqueles que fazem do Ariovaldo algo que ele não é. é uma pessoa importante pra teologia brasileira, que com quem eu tenho divergências, que na minha opinião cometeu e comete equívocos como qualquer ser humano. Mas Arivaldo Ramos, e é o Ariovaldo Ramos, gente, que tá na thumbnail, não é outra pessoa que tem nome parecido, tá? Ariovaldo Ramos.
¶4OK. E eh ele ele tem os seus erros, as nossas divergências, mas eu faço esse vídeo discordando dele com profundo respeito pela história que ele possui, pelas coisas que ele fez pela igreja brasileira. E eu preciso fazer esse disclaimer, porque eu acredito que Ariovaldo em muitas oportunidades foi injustiçado na Igreja Evangélica Brasileira. Mas voltando pro nosso tema, será que o que Arovaldo diz e outras pessoas tantas dizem e são é tanta gente que vale a pena fazer a correção, se é que eu tô certo e eles errados, será que o que ele diz corresponde à realidade? É o calvinismo de fato o pai da teologia da prosperidade e seria a teologia da prosperidade um desvio daquilo que o calvinismo criou?
¶5Para responder a essa pergunta ou a essas perguntas, nós vamos passar nesse vídeo por vários capítulos. Então, vamos tentar deixar a coisa bastante didática. Primeiro a gente vai traçar a história da teologia da prosperidade segundo o que a academia nos conta, o que que é o consenso acadêmico sobre como a teologia da prosperidade surgiu. Depois disso, a gente vai tratar sobre o que faz a teologia da prosperidade, um desvio. E aqui a palavra desvio que o pastor Oriovaldo usa é uma palavra boa.
¶6Mas será que é um desvio do calvinismo ou é um desvio do cristianismo como um todo? Em outras palavras, o que faz da teologia da prosperidade diferente do cristianismo ortodoxo nos ajuda a entender a própria origem da teologia da prosperidade. Portanto, vamos tentar entender o que faz a teologia da prosperidade o merezia. No terceiro capítulo aqui desse vídeo, a gente vai ver a ligação entre calvinismo e capitalismo. Será que ela existe?
¶7Como ela é? Em que termos ela se dá? E aqui vai entrar o nosso querido amigo Max Weber, que é o proponente mais famoso dessa ligação. Depois disso, os possíveis erros de fazer essa ligação ou ao fazer essa ligação, que que erros a gente pode cometer e onde eu acho que tem um engano aqui. E por último, no último capítulo da coisa, a gente vai fazer uma crítica aos reformados, porque se o pastor Eduardo Reis diz que os reformados falam muito dos outros e não falam dos seus próprios problemas, nesse vídeo aqui eu vou apontar alguns dos problemas históricos que os reformados têm, algumas das culpas históricas que recaem sobre as costas dos reformados, mas eu acredito que a origem da teologia da prosperidade não é um desses problemas.
¶8Eu vou fazer isso, mas primeiro eu preciso me apresentar. Meu nome é Víor Fontana. Eu esse aqui é o meu canal. Ele pode ser um pouco seu também. Para isso, basta que você se inscreva nesse nesse canal, ative as notificações, deixe seu like, deixe seu comentário.
¶9Tudo isso é muito útil. Se você gosta de Bíblia de Teologia, dá uma passadinha aqui na descrição, onde você vai encontrar links pros meus cursos além da bibliografia utilizada para fazer esse vídeo. Se eu tô dizendo que tem consenso acadêmico, é óbvio que eu tô colocando literatura para te ajudar nesse sentido, caso você queira se aprofundar, tá bom? Bom, então a gente começa com a história da teologia da prosperidade, que eu tenho vídeo já tratando dela, então eu não vou fazer uma explicação muito longa a respeito da teologia da prosperidade, senão dizer o seguinte: a teologia da prosperidade, segundo o que a academia traça, ela se inicia quando o pensamento esotérico do new thought americano, que é aquela coisa do pensamento positivo, fazer fazer as coisas se realizarem mais ou menos aqui, tô simplificando bastante. Quando esse tipo de pensamento esotérico é assimilado por uma linguagem evangélica de um camarada chamado IW Canyon, esse IW Canyon vai pegar essa ideia de que pensamentos positivos fazem as coisas acontecer na realidade e dar uma roupagem mais bíblica, mais evangélica a essa ideia, dizendo que as palavras concretizam no mundo material aquilo que já é verdade no mundo espiritual.
¶10Essa confecção de ideias nasce da fusão entre evangelicalismo americano e esoterismo. E por isso é tão importante a gente conhecer a verdadeira origem da teologia da prosperidade, porque mais do que uma heresia, ela é sincretismo religioso. Feita essa observação, Kenneth Hagen e outros proponentes de um movimento chamado Word of Faith, palavra de fé, vão pegar o que W Canion disse e transformar na teologia da prosperidade que a gente conhece hoje do Kenneth Copeland e das igrejas neopentecostais brasileiras. Essa é a origem da teologia da prosperidade, principalmente nas igrejas brancas e que chega aqui no Brasil. Existe uma outra trajetória dentro da teologia negra a partir de um camarada chamado Father Divine, tá?
¶11Que é [roncando] uma outra história dentro da igreja negra americana, mas que fica confinado nos movimentos negros. Se você quiser literatura técnica sobre o assunto, o trabalho de três mulheres é profundamente recomendável. Kate Bowler escreve um livro publicado pela Oxford University Press que chama Blessed ou Abençoado, que vai contar essa história de maneira um pouco mais fluida, com uma leitura talvez um pouco mais popular, embora seja um livro acadêmico publicado pela Oxford University Press. Nós temos também o trabalho da Ctherine Albanes. Ctherine Albanes, ela é uma historiadora das religiões americanas de maneira geral e vai tratar de da espiritualidade metafísica nos Estados Unidos.
¶12Do ponto de vista histórico, também recomendo a leitura, a publicação da Yale University Press, além dos artigos acadêmicos da Heather Curtis. Tudo isso vai tá aqui na descrição desse vídeo e para quem é meu aluno nos meus cursos vai ter um e-book só sobre essa trajetória da teologia da prosperidade que eu já tratei de maneira mais extensa em outros vídeos e tem um vídeo em particular que trata da anatomia da heresia da teologia da prosperidade, explicando essas origens, tá bom? Essas origens em particular, IW Kanyan e Kenneth Haagen, nenhum deles é calvinista, pelo contrário, são pessoas que se afastam da teologia calvinista. E, portanto, uma ligação direta entre a percepção de prosperidade do calvinismo e IW Kenon, Kenneth Hagen. E a história da teologia da prosperidade per carece de fontes primárias, pelo menos é o que a gente acaba vendo na literatura mais técnica a respeito de uma historiografia que tem te tratar das origens da teologia da prosperidade.
¶13Claro, oriovaldo, a Marilena ou qualquer outra pessoa pode eventualmente fazer um trabalho e demonstrar que não, que existe sim uma ligação desses proponentes iniciais da teologia da prosperidade, mais formal, uma ligação de dependência textual, talvez entre esses autores e o calvinismo no estado da arte, da historiografia, da teologia da prosperidade, essas obras que eu tô mencionando e colocando aqui na descrição, não é isso que a gente encontra. Tá? Então essa é a história oficial, vamos dizer assim, da teologia da prosperidade. Claro, se alguém conseguir traçar algum tipo de ligação formal entre calvinismo e esses autores, eu acho que rende inclusive publicação técnica, tá? Pelo menos pela revisão literária que eu tenho feito a respeito do assunto nos últimos anos.
¶14Aí isso se dá também porque quando a gente olha pra teologia da prosperidade tal qual ela é, o que a torna uma um desvio doutrinário do cristianismo ortodoxo não é o elemento soteriológico. Veja o argumento do Ariovaldo. Então aqui a gente já tá partindo pro capítulo dois. Falamos da história da teologia da prosperidade, agora vamos falar das heresias. O que faz a teologia da prosperidade ser herética além do sincretismo com o esoterismo norte-americano do século XIX, a escola do novo pensamento, escola do New Thought?
¶15Quais são as os elementos que fazem com que a teologia da prosperidade seja singular? E singular em algo que renega o cristianismo ortodoxo? Não está propriamente dito na soteriologia, que é a tese aqui do Ariovaldo Se eu a entendi corretamente. É na dupla predestinação, ou seja, que uns são predestinados pro céu, outros pro inferno. faz parte do contexto da soteriologia calvinista, que o na busca pelos sinais, e aqui eu já tô interpretando um pouco do Aquirovaldo disse, na busca pelos sinais de quem realmente é eleito, a prosperidade financeira indica que alguém foi predestinado pro céu.
¶16A ideia é mais ou menos a seguinte aqui, tá? que como você tem a predestinação, você sabe que Deus predestinou uns para salvação, outros para perdição. Essa é a dupla predestinação. Mas como saber qual é qual? Isso gera uma disposição psicológica para usar linguagem do Maxweber, tá?
¶17Isso gera uma disposição psicológica de um certo temor. Uai, como é que eu sei se eu sou predestinado mesmo? Eu vou buscar sinais. Um dos possíveis sinais é: se Deus me abençoou, então eu tenho dinheiro e então quem tem dinheiro é salvo. [roncando] Essa é a versão cursinho do Max Weber e não a versão ética protestante e o espírito do capitalismo do Max Weber, tá?
¶18Dizem por aí que um professor de cursinho, ele foi passear numa floresta e viu um bico um tanto achatado numa moita e logo concluiu: "Tem um pato naquela moita". Depois de um tempo, um biólogo foi lá fazendo a sua observação, esperou o animal sair da moita. Era um ornito rinco. Que que eu tô querendo dizer com essa história? Nem tudo que se parece é.
¶19E essa ideia a gente vai ver daqui a pouco mais em Max Weber de que a o sinal de que o cara é salvo é a prosperidade financeira não foi o que Max Weber disse. É o que parece que Max Weber disse, mas não é o que Max Weber disse. Mesmo que fosse a o processo de salvação, a soteriologia do Kenneth Hagen, a soteriologia do Tiel Osborne, a soteriologia do Kenneth Copeland, não é aquilo que essencialmente faz a teologia da prosperidade uma heresia. Em várias falas, esses caras apresentam uma soteriologia ortodoxa. O que faz a teologia da prosperidade se tornar uma heresia é a ideia de que por meio das suas palavras você é capaz de comandar Deus.
¶20E isso não vem da doutrina da salvação, isso vem do esoterismo. Isso vem da habilidade do IW Canon de colocar no texto bíblico uma distorção que faz com que você concretize nessa Terra coisas que são verdade já no mundo espiritual. a partir do momento que você dá ordem ao mundo espiritual, tornando assim você alguém que dá ordens a Deus e no limite alguém que se diviniza no sentido de concretizar coisas, de trazer coisas à existência. Coisas que não existem nesse mundo, passam a existir pela palavra de fé que você tem. E nesse sentido você se diviniza totalmente diferente do conceito de teoses ortodoxo antes que alguém eh levante essa hipótese, já que a gente tá falando de patos e ornitorincos, tá?
¶21Então, a divinização do ser humano num sentido de poder sobre a criação é o que torna a teologia da prosperidade herética. E é a partir daí que a gente consegue traçar na história do pensamento onde está o desvio. Esses caras podem eventualmente cometer heresias soteriológicas? Até podem, não é o que geralmente a gente observa. A gente observa outros tipos de heresias no meio da teologia da prosperidade.
¶22Tá? Feita essa observação, vamos pro terceiro capítulo, a ligação entre calvinismo e capitalismo, que supostamente estaria aqui em Max Weber e o espírito do capitalismo. Marilena Xi, veja que assim, não são pessoas quaisquer que fazem essa confusão. O professor de Cursinho faz uma confusão bastante rudimentar. Essa construção que o Ariovaldo fez, que Marilena faz, são construções mais sofisticadas, ainda assim que confundem aquilo que Weber diz de fato, tá?
¶23Mas são pessoas sofisticadas, com intelecto sofisticado, que estão fazendo essa confusão. Então, presta atenção para você entender o que Weber realmente disse, tá? Em primeiro lugar, a ligação não é única e exclusivamente entre calvinismo e capitalismo. Tanto que o nome do livro ética protestante e o espírito do capitalismo, que Marilena inclusive chega a confundir e chamar de o calvinismo e o espírito do capitalismo. Não é uma confusão aceitável, mas revela que a gente tá esquecendo de ler o primeiro capítulo da segunda parte da ética protestante ou o quarto capítulo, se você quiser.
¶24São cinco capítulos divididos em duas partes. Três capítulos na primeira parte, dois capítulos na segunda parte de ética protestante espírito do capitalismo. Essa edição em particular é a edição que já conta com as adições da segunda edição, da edição de 1920, tá? Então tem duas edições ética, Proteção do Espírito do capitalismo, uma ali do começo do século XX e uma edição final em 1920 que você vai encontrar as adições de Weber nessa segunda edição entre colchetes. Nessa tradução aqui, uma edição do Antônio Flávio Pier, tá bom?
¶25Veja só, nessa nesse quarto capítulo ou no primeiro capítulo da segunda parte da ética protestante e espírito do capitalismo, o que que o Weber vai mostrar? Que o protestantismo tem uma Lebens furang. Que que é uma Lebens furang? É uma conduta de vida, não confundir com um estilo de vida. Lebens Fang é um conceito do Weber para definir um jeito de conduzir as minhas decisões a partir de um conjunto de ideias.
¶26Então, existe um conjunto de ideias que toma conta eh da minha percepção de mundo e que gera um determinado tipo de conduta de tomada de decisões paraa vida, de decisões importantes pra vida. Leben furung, a palavra fur é bem parecida com fir, que é um líder ou um condutor. E por isso Lebensung é a conduta da vida. Então, como alguém conduz a vida? E a grande hipótese que Weber vai trabalhar é a hipótese que a conduta asética de vida protestante [limpando a garganta] gera um ambiente propício pro crescimento do capitalismo moderno, um tipo específico de capitalismo, inclusive.
¶27Como que isso funciona? E funciona não só com o calvinismo, ele vai trabalhar aqui no livro o metodismo, inclusive vai dizer que a palavra método é muito muito sugestiva pra gente falar de uma conduta de vida. É algo metódico. É maneira como alguém conduz a vida a partir de um corpo de ideias. É um metodismo.
¶28Olha só que coisa curiosa. Ele vai falar do metodismo, ele vai falar dos anabatistas. Todos eles em alguma medida produzem esse Lebens Fang, mas ele vai optar por trabalhar primordialmente com o calvinismo, porque o calvinismo aparenta ser o modelo ideal mais coerente de uma conduta de vida as. Que que é a tal conduta de vida acética? A conduta de vida acética é uma conduta de vida que ela coloca sob controle do exercício racional os impulsos por prazer ou por uma vida de gozo.
¶29Então, a asquese ou a assese ou uma vida asica, ela vai ordenar racionalmente como você conduz a sua vida. Então, de um lado, você tem uma ideia muito forte de vocação ou de profissão ou de trabalho e de rigidez nesse trabalho que faz parte da sua conduta de vida. Isso é quase espiritual. Na verdade, isso é espiritual. O que o Weber vai argumentar tanto no capítulo 4 quanto no capítulo 5 ou capítulos 1 e dois da segunda parte da ética protestante é que essa profissão, essa vocação acabam fazendo parte dos sinais.
¶30Olha a palavra aqui que o Ariovaldo usou. Ele não falou do Weber. Eu tô supondo que a fonte que ele tá usando para falar o que ele fala é Weber, tá? Ele fala da sinalização da eleição, que ser rico sinalizaria que você é eleito. É bem verdade que na contribuição que o Ariovaldo faz lá naquele naquele podcast, ele disse que isso é uma uma parte menor do calvinismo.
¶31Eu vou mostrar que não é uma parte do calvinismo, tá? Essa ideia de sinalização é o que o Weber vai argumentar que faz parte do processo de santificação do crente no mundo. Como [roncando] que você sabe que o crente é de fato crente? Bom, no período medieval, muitas vezes ele ia pro mosteiro e criava-se ali uma diferenciação entre o crente que busca santificação de fato e o crente que talvez tenha que passar por pelo purgatório, alguma coisa do gênero. Como o protestantismo não é uma religião de retirar-se do mundo, mas estar no mundo, existem outras marcas de santificação.
¶32Uma delas é levar a sério a sua vocação, é levar a sério a sua beruf, a sua vocação, sua profissão, a sua vocação. É trabalhar para valer. Quer saber se o crente é crente mesmo, ele leva a sério a vocação dele. Isso é um sinal de que ele tá buscando a santificação. Essa é a teoria aí do Weber, tá?
¶33Isso faz parte da asquese, isso faz parte da do da sese dele, faz parte do processo de santificação do crente. É um sinal de que ele é crente de fato. E se existia um ranking espiritual na Idade Média entre aquele que iria pro monastério e aquele que era fazia parte da vida secular, no caso da do capitalismo moderno, aquele que trabalha para valer também é considerado mais santo, segundo o Weber. De outro lado, a asquese ela disciplina o consumo. você não se deixa levar por qualquer ímpeto ou desejo de consumir.
¶34E portanto, e portanto, ao fazer isso, ao ter uma disciplina grande de vocação e uma disciplina grande de poupança, o que que acaba acontecendo para pessoas que estão dentro do capitalismo moderno? Essas pessoas acabam muitas vezes, em muitos casos, acumulando mais bens materiais. Entretanto, isso não é exclusivo do calvinismo, como eu pretendo mostrar aqui no próprio Weber, ele vai dizer o seguinte, página de número 89 aqui dessa dessa edição, tá? É na página 87, gente, não é na página 89. Por isso que eu não tava achando.
¶35Errei aqui. Tudo bem. Vamos dizer assim, ó. Os portadores históricos do protestantismo asético são essencialmente de quatro espécies: o calvinismo, o pietismo, metodismo e as seitas nascidas no movimento anabatista. Nenhum desses movimentos se achava absolutamente isolado dos outros, nem mesmo era rigorosa a sua separação das igrejas protestantes não as.
¶36Então, o próprio Weber vai admitir que a asquese tá presente nos quatro movimentos. O que ele vai argumentar é que o calvinismo apresenta a vertente mais coerente para tratar desse assunto. Coerente no seguinte sentido. A coerência entre ideia e Lebens Fhang é mais fácil de ser demonstrada. A ideia e a conduta de vida são mais facilmente percebidas dentro do calvinismo, tá?
¶37Então ele vai dizer mais ou menos o seguinte, ó. Rastrear aqueles estímulos psicológicos criados pela fé religiosa e pela prática de um viver religioso que davam a direção da conduta de vida da Lebens Fung e mantinha o indivíduo ligado nela. é o objetivo dele. Então, o que que ele quer fazer? Ele quer rastrear estímulos psicológicos que davam direção à conduta de vida e mantinham um indivíduo ligado nela.
¶38Em outras palavras, o calvinismo não apresenta nada explícito que diga assim: "Quem é rico vai pro céu". Não tem nenhum texto teológico ou dogmático do calvinismo que diga que quem é rico vai pro céu. O que existe, na verdade são estímulos psicológicos que levam a pessoa a concluir isso. E a obra do Max Weber é tentar rastrear isso. Mas não apenas no calvinismo, em todo movimento protestante.
¶39É mais fácil no calvinismo porque teoricamente ele é mais coerente. Então, perceba o seguinte, o que seriam as marcas? O que seriam os sinais de que o cara é eleito? A busca pela santificação. Parte dessa busca por santificação está trabalhar para valer e não se deixar seduzir por qualquer tipo de consumo.
¶40Você acaba poupando. É isso que é sinal. Segundo o próprio Weber, eventualmente algumas dessas pessoas que trabalham muito e poupam muito acabam ficando ricas, mas mesmo Weber assume que não são todas. Entretanto, é muito curioso que aqui na página e 4, na página 159, o Weber menciona o John Wesley para fundamentar esse tipo de raciocínio. John Wesley, que não era calvinista.
¶41Olha só o que diz John Wesley. Temo que onde quer que a riqueza tenha aumentado, na mesma medida haja decrescido a essência da religião. Por isso, não vejo como seja possível, pela natureza das coisas, que qualquer reavivamento da verdadeira religião possa ser de longa duração. religião com efeito deve necessariamente gerar seja laboriosidade, seja frugalidade. E estas não podem originar senão riqueza.
¶42Qual que é o argumento de Wesley aqui? Qual que é o argumento de Wesley aqui? Que o reavivamento gera a gente mais santa. Sendo mais santa, ela trabalha mais e ela vai ter uma vida mais frugal e, portanto, ela vai ficar rica. Só que o problema é que quando ela fica rica, ela se esquece de Deus.
¶43E, portanto, todo o reavivamento é de curta duração. É isso que o Wesley tá dizendo. E o Weber tá pegando Wesley para fundamentar aquilo que ele observa no protestantismo dessa relação de assese, tanto paraa produtividade maior quanto para maior poupança, gerando, portanto, riqueza. E a percepção de que essa riqueza, no fim do dia acaba se tornando um problema pro coração humano. Agora, quando o Weber faz essa observação a respeito do Wesley, ele diz que essa observação também é feita por teólogos calvinistas.
¶44Em outras palavras, nenhum calvinista, ou pelo menos nenhum dos principais calvinistas acredita que a riqueza em si mesma é uma virtude de salvação. Wesley não crê nisso, calvinistas não creem nisso. O livro ética protestante e não ética calvinista. Weber tá falando dos protestantes, não apenas dos calvinistas. Inclusive, para fundamentar aquela ideia que gera uma conduta de vida, uma Lebens fung, e ele usa Wesley, que notadamente não é um calvinista.
¶45Então, às vezes, a gente precisa prestar atenção na nuance do que a gente lê e num livro para entender mais ou menos para onde o fluxo argumentativo tá indo. Mais que isso, será que Weber tava certo? Será que a leitura de Weber é uma leitura adequada da realidade? Então agora que a gente já sabe que o argumento do Weber não é calvinista acreditava que o rico ia pro céu, mas protestantes acreditavam que era necessário uma espécie de sinalização de que a pessoa era salva. E essa sinalização era vida em santidade.
¶46E a vida em santidade promovia trabalho duro e frugalidade. E ocasionalmente isso gerava riqueza. Mas a riqueza em si mesmo é um problema. Essa é a tese do Weber. Não é que quem é eleito tem que ser rico por causa da predestinação, tá?
¶47Agora que a gente já sabe isso, hã, eu queria ler um parágrafo com vocês aqui da ética protestante que diz respeito à metodologia do Weber. E isso é muito importante aqui. Ele vai dizer o seguinte: [roncando] "E só podemos fazê-lo, aquele plano de rastrear as ideias, lembra? Só podemos fazê-lo apresentando as ideias religiosas com a consistência lógica de um tipo ideal que só raramente se deixa encontrar na realidade histórica. Presta atenção.
¶48Weber tá montando um tipo ideal de protestante. Não é o protestante da história factual. O protestante da história factual às vezes tem essa Leben Singang, às vezes não. O protestante da vida real às vezes tem essa conduta de vida, às vezes não. Às vezes ele é influenciado por essa ideia calvinista e protestante, às vezes ele é influenciado por outras ideias.
¶49Então ele precisa de um tipo ideal. E o que ele vai fazer não é olhar pra teologia do povo. Você já vai ver para quem que ele vai olhar aqui. E esse parágrafo metodológico na página 90 é complicado, mas super importante pra gente entender o que que o Weber tá fazendo, tá? O o Weber ele vai chegar e falar assim, ó.
¶50Precisamente por causa da impossibilidade de traçar limites nítidos na realidade histórica. Nossa única esperança ao pesquisar as mais coerentes de suas formas é atinar com os seus efeitos mais específicos. Então, o que que o Weber vai fazer? O Weber vai tratar a especificidade das subclamadas do protestantismo, porque é por meio dessas especificidades que ele busca traçar quais eram as ideias originais que geravam determinados sentimentos religiosos, tá? Na prática, que que isso significa?
¶51Ele tá tentando estudar o sentimento religioso do povo calvinista, do povo protestante, a partir de um tipo ideal, de um tipo ideal de protestante que tem um tipo de comportamento específico baseado em ideias específicas. Eu vou na especificidade das ideias para tentar entender como o povo se como o povo crê, como o povo vive. E para formular esse tipo ideal, no caso calvinista, ele vai recorrer a um calvinista em especial, que é um camarada chamado Richard Baxter. Ele vai olhar pro calvinismo a partir da lente do que Richard Baxter escreveu. Então, no lugar de fazer pesquisa sociológica com o povo para ver o que o povo pensa, ele tem mais ou menos uma noção do que o povo pensa a partir da sua experiência anedótica.
¶52E ele vai procurar correspondência entre o que o povo pensa e as tomadas de decisão desse povo e as ideias específicas de um autor específico que parece mais coerente no que diz respeito à tradução das suas ideias para o Lebens Furang. E ele escolhe Richard Baxter para isso. É uma escolha arbitrária em dois níveis. Em primeiro lugar, é uma escolha arbitrária, porque existe um salto. É Richard Baxter o representante mais adequado do calvinismo?
¶53Por que e quais os critérios? Segundo, existe um salto entre o que Richard Baxter pensa e o que o povo pensa e o que o povo pensa de fato. Entretanto, até na descrição de Richard Baxter, Max Weber vai notar e vai escrever aqui no livro o seguinte, que a riqueza não é um sinal de eleição por si só, porque o rico que não trabalha não pode ser salvo. [roncando] O trabalho é a sese é a santidade, é a ética da vocação, a ética da profissão. É, mas o rico que não trabalha não é eleito não.
¶54O rico que gasta os seus bens, gasta o seu dinheiro de modo desvairado. Nani não, tá? Então, Weber, ele não é tão sólido assim ao demonstrar que calvinismo e riqueza andam lado a lado. O que ele tá tentando demonstrar e o fez com algum sucesso é que existe uma ética protestante de trabalho e de poupança que propicia o crescimento do capitalismo moderno, que autoriza e até santifica em algum aspecto o lucro. Weber tava certo.
¶55Em algumas coisas, com certeza. Em outras coisas, falta solidez. Existem saltos lógicos aqui no livro. Veja só, não é porque o Ariovaldo Ramos disse que o Eduardo Reis pode falar e agora é verdade. E não é porque o Max Weber disse que o Ariovaldo Ramos pode falar.
¶56E agora é verdade, já que Max Weber disse, o trabalho do Weber pode ter lacunas e efetivamente tem. paraa época em que foi escrito com os recursos que ele dispunha. É um trabalho que mudou a sociologia moderna. é um trabalho extraordinário, mas não torna isso daqui automaticamente verdade em todas as suas conclusões. E, portanto, prosperidade econômica não é intrinsecamente um sinal da eleição, nem mesmo na leitura do Weber.
¶57Nem mesmo na leitura do Weber, se é que a leitura do Weber está correta. Agora, se o protestantismo criou um tipo de espírito do capitalismo que nos Estados Unidos propiciou uma cama mais segura para de repente surgir a teologia da prosperidade e encontrar aderentes. Essa seria talvez uma tese um pouco mais nuançada e equilibrada, uma hipótese um pouco mais interessante e que talvez encontraria um pouco mais de sustentação na realidade. Ainda assim é de se perguntar por então que a teologia da prosperidade não pega, não cola nos ambientes covinistas reformados? Se seria mais propício para que ela aparecesse por causa da dupla predestinação ou do calvinismo?
¶58Fica a pergunta para uma investigação. Por que que ela não cola nos ambientes calvinistes reformados? Talvez porque ela tenha surgido em outro contexto e o seu principal, a sua principal ideia formadora, como diz o consenso acadêmico, seja o sincretismo com a escola de novo pensamento, que pouco tem a ver com o calvinismo. Dito isso, eu preciso dizer o seguinte, o calvinismo tem os seus boss históricos, sim, para resolver. A teologia da prosperidade pode não ser um deles, mas nós temos na história do do calvinismo necessidade de lembrar do apartide na África do Sul, da caça às bruxas na Escócia, na Nova Inglaterra, da perseguição dos quakers, das escolas indígenas no Canadá.
¶59Então, a gente tem esqueletos no armário que geralmente o pessoal guarda muito bem guardado no armário e que a gente poderia assim eh eh observar com maior cuidado e admitir que existem erros. Não tem erro só no jardim do vizinho. A única questão é que a teologia da prosperidade ela, se alguém quer afirmar que ela é calvinista, precisa aí fazer conexões das fontes históricas adequadas para isso. [suspirando] Dito isso, você pode ler Ética Protestante Espírito do capitalismo. É um livro muito bom, desde que você leia com olhar crítico.
¶60Eu recomendo talvez o Peter Gosh para você ler acompanhando, que é para mim um dos grandes intérpretes deste livro aqui, tá bom? Vídeo difícil hoje, mas para mim um vídeo para deixar mais claro que existe uma confusão. Sim, tem um bico de pato aí, tem um bico aí que é teologia da prosperidade e gente rica conversam bem. Ah, tem outro bico aqui. Calvinismo.
¶61Na sua história teve um marcador de santificação que envolvia eventualmente ganhar dinheiro. Olha só, tem bico e tem bico. Um é pato, outro ornitorinco. Um pouco tem a ver com o outro. Um é uma ave, o que significa dizer que é também um dinossauro que não afunda por causa do óleo em suas penas.
¶62e voa um algumas de suas espécies são migratórias, chama pato. Outro é um mamífero que estranhamente bota ovo e tem rabo de castor. Eventualmente quando você vira um calvinismo que não afirma grandes coisas a respeito da riqueza, quem sabe é um calvinismo sem bico e, portanto, um castor e não um ornitorinco. É isso, tá bom? Esse era o meu recado para hoje.
¶63Espero que as partes envolvidas tenham se sentido respeitadas. Foi sempre a minha intenção, tá bom? Eu vou ficando por aqui. Até a próxima.