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TEOLOGIA DA PROSPERIDADE COMEÇOU NO CALVINISMO???

a tese

Victor Fontana refuta a tese, atribuída a Ariovaldo Ramos e repetida por Eduardo Reis e Marilena Chauí, de que o calvinismo é o pai da teologia da prosperidade, mostrando que a historiografia da prosperidade aponta para o sincretismo com o Novo Pensamento norte-americano e que Max Weber nunca disse que a riqueza é sinal de eleição.

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talvez

É boa aula de leitura de fonte, mostrando a diferença entre o Weber de cursinho e o Weber do texto, com bibliografia aproveitável, e serve de exemplo metodológico do que o Bruno costuma cobrar em trabalho acadêmico, embora o tema em si (defesa do calvinismo numa polêmica brasileira) fique fora dos seus interesses.

O que foi dito

  • Abre com o clipe de Ariovaldo Ramos afirmando que a teologia da prosperidade é desvio do calvinismo porque a dupla predestinação faria da prosperidade econômica sinal de eleição, e faz questão de registrar respeito pela história dele na igreja brasileira e pelas críticas injustas que ele já recebeu.
  • Reconstrói a origem da prosperidade conforme o consenso acadêmico: o esoterismo do New Thought é assimilado em linguagem evangélica por E. W. Kenyon, para quem as palavras concretizam no mundo material o que já é verdade no espiritual, e daí passa a Kenneth Hagin e ao movimento Word of Faith, chegando a Kenneth Copeland e ao neopentecostalismo brasileiro, com trajetória paralela e confinada na igreja negra a partir de Father Divine.
  • Indica a bibliografia: Kate Bowler (Blessed, Oxford University Press), Catherine Albanese, sobre a espiritualidade metafísica americana (Yale University Press), e os artigos de Heather Curtis, observando que nem Kenyon nem Hagin eram calvinistas e que não há fonte primária ligando o calvinismo a eles.
  • Argumenta que o que torna a prosperidade herética não é a soteriologia, muitas vezes ortodoxa nesses pregadores, mas a ideia de que por suas palavras o fiel comanda Deus e se diviniza, algo vindo do esoterismo e distinto da teose ortodoxa; logo, o desvio não se rastreia à doutrina calvinista da salvação.
  • Passa a Weber com a imagem do bico achatado que o professor de cursinho toma por pato e que o biólogo descobre ser ornitorrinco, e lembra que o livro se chama A ética protestante e o espírito do capitalismo, não do calvinismo, e que Chauí chega a trocar o título.
  • Explica os conceitos: Lebensführung é conduta de vida, não estilo de vida, e a hipótese de Weber é que a conduta ascética protestante (disciplina racional dos impulsos, seriedade na vocação, Beruf, e disciplina no consumo) cria ambiente propício ao capitalismo moderno; cita a página em que Weber lista quatro portadores do protestantismo ascético, calvinismo, pietismo, metodismo e seitas anabatistas, e explica que ele privilegia o calvinismo apenas por ser o caso mais coerente entre ideia e conduta.
  • Mostra que o sinal de eleição, em Weber, é a busca de santificação expressa em trabalho e frugalidade, que apenas ocasionalmente produz riqueza, e que Weber recorre justamente a John Wesley, não calvinista, no trecho em que este teme que a religião gere laboriosidade e frugalidade, estas gerem riqueza e a riqueza corroa a religião, de modo que todo reavivamento seja curto.
  • Expõe a fragilidade metodológica do livro: Weber constrói um tipo ideal que raramente se acha na história factual e elege Richard Baxter como representante do calvinismo, escolha arbitrária em dois níveis (por que Baxter, e que salto vai de Baxter ao que o povo de fato pensava); acrescenta que, mesmo em Baxter, o rico que não trabalha ou que gasta desvairadamente não é eleito, e recomenda ler o livro com Peter Ghosh ao lado.
  • Concede uma hipótese mais nuançada, a de que o espírito do capitalismo protestante teria criado nos Estados Unidos um terreno favorável à recepção da prosperidade, e devolve a pergunta: se a causa fosse a dupla predestinação, por que a prosperidade não pega em ambiente reformado; encerra listando os esqueletos históricos que os reformados deveriam encarar (apartheid na África do Sul, caça às bruxas na Escócia e na Nova Inglaterra, perseguição aos quacres, escolas indígenas no Canadá), sem que a prosperidade seja um deles.

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