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“Sala 4”, de Maria Werneck | O Livro da Cora, hoje com Pedro Doria

¶1Temos livro. Ah, essa pergunta hoje sou eu que faço. Pedro, temos livro? >> Temos livro. a gente tá fazendo uma, a gente vai fazer uma coisa diferente, excepcional, que dessa vez o livro Quem trouxe Sou eu.

¶2É, é esse livro aqui, sala 4 da Maria Vernec, editado, Cora, pela Matinas, >> do nosso amigo Matinas Suzuki, >> do nosso queridíssimo amigo eh Matinas Suzuki. O o Matinas fez uma editora, eh, ele tem uma sacada que eu acho fenomenal, que é o seguinte, eh, existem livros que precisam existir, mas não é tanta gente assim que os quer, mas eles precisam existir, eles não podem morrer. E então a impressão é sobre demanda. Você compra e aí o livro impresso entregue para você. Ele não precisa ficar com o estoque do livro.

¶3>> Print [roncando] on demand. >> Print on demand. eh, mas extremamente bem editado, muito cuidadoso, muito bonito. E e por e eu fiquei muito emocionado. Eh, uma pessoa com quem eu tava conversando me contou que o Matinas tinha publicado este livro aqui.

¶4Eh, e eu fiquei super emocionado, super mexido. Eu tenho também a edição original dele quando ele saiu em 1988. E a razão pela qual fiquei muito emocionado é o seguinte. Maria Vernec é minha tia avó. Eh, ela era irmã da minha avó e a vovó Silvia.

¶5A minha avó eu não conheci, ela morreu antes de eu nascer. Mas a tia Maria não só eu conheci como convivi com ela e e ela é uma das ela de certa forma é a minha primeira guia literária, >> porque eu eu pequeno tinha eu aprendi a ler nos Estados Unidos porque meu pai professor universitário, tava lá. Aí eu voltei um pouco atrapalhado com eu eu já sabia ler, mas eu nunca tinha lido em português. Eu falava português e e através do Monteiro Lobato, ela foi me recomendando, você vai primeiro ler esse, depois esse aí meu pai ia me levava pra casa dela. Eh, e a gente ficava, porque a tia Maria era professora de português e ela ficava me fazendo perguntas sobre o livro.

¶6o que que você achou dessa passagem daquela tal. Invariavelmente tinha um um velhinho, de vez em quando tinha um velhinho na no meio da sala dela, [suspirando] que é, eu vou mostrar depois para vocês, o livro tem dois autógrafos que eu peguei no dia do lançamento. É, o lançamento foi em 1988, o o ano da constituinte que a tia Maria me lançou esse livro e tinham duas pessoas lá eh dando autógrafos. Eu peguei das duas pessoas. A segunda pessoa era justamente esse velhinho muito cabugento, muito malumorado, que de vez em quando tava na sala da tia Maria, que era o cavaleiro da esperança, >> Luís Carlos Prestes.

¶7>> Luiz Carlos Prestes. >> Eu conheci. >> Você o conheceu? Eu conheci razoavelmente bem. >> Não, eu eu conheci não, eu conheci >> naquela coisa política, evidentemente, de [limpando a garganta] >> é >> de ser jornalista e tal.

¶8>> Malumorado confere. >> É. É. Pois é. [risadas] E e com nenhuma paciência, isso eu posso te falar, talvez você não tenha o percebido, não muito interessar em crianças.

¶9>> Ah, não, isso não notei, porque eu já tinha passado esse estágio e não era nem há pouco tempo, era bastante. >> Eh, esse livro foi, ele tem uma história que é a seguinte. O o Fernando Moraes tinha lançado um livro chamado Olga, que é uma biografia da Olga Benário, tipo, no ano anterior, eh, Olga Benar, evidentemente, mulher do Prestes, eh, que tava grávida, eh, quando foi extraditada eh pelo governo Getúlio Vargas paraa Alemanha nazista. A Olga era cidadã alemã e era judia. Eh, ela e a e a e a Elsa que a Elisa, que era uma outra companheira delas, ambas judias e alemãs, foram extraditadas e morreram.

¶10Eh, aga, se não me engano, morreu em Auschwitz. Eh, e e eu lembro que foi esse livro do Fernando Moraes, eh, essa biografia da Olga, foi um certo pandemôio eh dentro daquele mundo com o qual eu tive algum convívio, que era dos velhinhos, que tinham sido do Comitê Central do Partidão, porque ninguém gostou do do livro. Eh, e aí a tia Maria decidiu contar de certa forma a versão dela. Eh, ela, o que que é a sala quatro? Quando houve a intentona comunista em 1935, uma tentativa de revolução comunista absolutamente desastrada.

¶11E e quem tava no Comitê Central foi todo mundo preso, quem tava no comando. Eh, eram em grande parte homens, mas tinha um pequeno grupo de mulheres que, como não eram tantas assim, ficaram todas presas na mesma cela. A sala quatro. >> Sala quatro. >> E a tia Maria era uma dessas mulheres presas.

¶12O meu bisavô, o pai dela era deputado federal. Eh, o o justo justo [limpando a garganta] Mendes de Moraes, ele tinha sido constituinte em 1934, na Constituição de 1934 era deputado federal, era advogado também, era um jurista importante, recusou duas vezes convir para ser ministro do Supremo, eh, e era advogado. Essas coisas de Brasil são loucas. que o velho Justo, o meu bisavô, pai da tia Maria, pai da minha avó, era o advogado do Getúlio. Então e e são essas coisas malucas.

¶13E ele era um liberal. >> Isso é tipo o suco de Brasil, né? >> Não é completamente. O velho justo era um liberal, minha avó era liberal, tinha Maria era comunista. Eh, eh, e e elas tinham o tio Luís, que era outro irmão, eh, outro dos meus tios avó, acho que era integralista.

¶14Imaginei, [risadas] >> era uma coisa assim. Tinha, tinha, era uma, >> parece a coisa daquelas irmãs Mitfort na Inglaterra, né? Lembra desse caso? Ess essas irmãs que foram famosas, eram contemporâneas do Churchill e escreviam bem, uma, uma delas é uma escritora extraordinária e elas eram aquelas influenciadoras daqueles anos, só que uma era casada com um nazista, tomou chá com Hitler, [risadas] a outra era comunista, >> a outra eram quatro Mfords na a Nancy Midford escreveu uns livros maravilhosos. Eh, o, >> e a irmã dela também, a irmã dela que herdou um dos castelos e e virou uma dessas inglesas que cultiva porcos e e flores e não sei mais o quê, também escreveu um livro muito bom.

¶15Acho tinha um talento na família, mas cada uma com uma ideologia diferente. >> É o o o velho justo que que de certa forma criou meu pai também. Eh, meu pai passou boa parte da adolescência morando não com os pais dele, mas com o o avô que era o velho justo. Ele morava numa casa em Copacabana, na Souza Lima, a uma quadra da praia, uma casa grande. É, daquelas casas normandas, né, que eram muito comuns aqui no Rio de Janeiro.

¶16Ainda tem duas, [limpando a garganta] eu acho, eh, uma em Panema, uma no Leblon. >> Eu cheguei a pegar algumas dessas. >> É, é. E eh o o Ver justo, como era um velho liberal ali daquela geração formada com o Rui Barbosa, né? Eh eh >> vamos abrir um parênteses.

¶17Esse velho deveria ter 50 anos quando começou a se chamar de velho. >> Nessa, nessa é possível, Clara. E eh e que é minha idade, né? Eu tenho 51 de >> mas naquela, mas hoje nós não somos mais, nós não consumimos a velice da mesma forma, né? Verdade.

¶18>> Naquela, naquela época a pessoa chegava a cidade, ela se apresentava como um animal severo. >> Isso, >> de pancenê, >> é isso. >> Cest, não sei acho quê, coisa da qual, felizmente nós estamos livres. Mas enfim, >> mas o eh e como ele era um um liberal, eh essa coisa de que os filhos fossem desde cedo criados para pensar cada um com a sua própria cabeça, deu nessa bagunça ideológica da família que tinha de tudo. >> Acontece, né?

¶19>> E eh era uma coisa muito e e eu fui criada assim, tá? Por causa disso era uma coisa, essa essa importância da independência intelectual de que cada um tem que você não herda dos seus pais a sua ideologia, você é apresentado desde cedo a uma vastidão de leituras. É, me aconteceu isso também >> para você fazer a sua cabeça, para você chegar aos seus valores. Eh, eu fui criado dessa forma e isso é uma coisa que eu devo a esse meu bisavô que eu não conheci, eh, mas que é uma presença que é muito engraçada, né? Eu trato ele com essa intimidade, o velho justo, porque eu passei literalmente a vida ouvindo não, que o velho justo falava nessas horas tal coisa, tal outra coisa, tal, que era o pai da tia Maria.

¶20>> Olha aqui, eu quero saber onde a gente consegue esse livro. >> Você consegue pela Matinas e é só entrar no site da Matinas. Bom, a gente deixar um >> Isso vai tá vai tá na a gente bota. >> E isso aqui é história de o que que foi ser preso como comunista no Estado Novo. Eh, as pessoas às vezes têm uma uma ideia educada de que a a Get a ditadura do Getúlio foi light e pesada foi a ditadura militar.

¶21Foi a mesma coisa. são exatamente iguais, >> com o mesmo nível de tortura no nos porões, com o mesmo nível de sofrimento. Eh, veja, essas pessoas aqui tentaram fazer uma revolução comunista no Brasil, tentaram derrubar o regime eh implantado pela Constituição escrita pelo pai dela eh entre outras pessoas. Eh, elas cometeram um crime. Várias delas, não foi o caso da tia Maria, não foi o caso das mulheres, várias delas foram foram bárbaramente torturadas.

¶22Agora, a cena mais comovente nesse livro, a primeira vez que eu li, eh, eu comecei a ler, eu comecei a chorar. Eh, a tia Maria, por que o pai dela era advogado, Dr. Getúlio, porque o pai dela eh tinha sido deputado a essa altura já cao, né, no Estado Novo, ela tinha uma certa ascendência dentro da célula das mulheres. Então, a pessoa que tinha interlocução com os carcereiros e tudo mais, era a tia Maria. E e tava todo mundo muito preocupado.

¶23A Olga tava grávida, a a Olga Benar, mulher do Prestávida. Tava todo mundo muito preocupado com o que que o Getúlio, com o que que o governo ia fazer com ela. Existia o medo de que decidissem deportá-la por ela não ser uma cidadã brasileira. E e num determinado momento chega eh a um sujeito, fala: "A gente vai levar Olga". é pro exame pré-natal.

¶24Ela ia pro Gafreguini, que era um hospital, ainda é um hospital eh eh importante, era um hospital maternidade referência na época. E e aí decidem que a Olga só sai se acompanhada da tia Maria. Eh, e e na negociação ali com um diretor do presídio, eh, OK, entram as duas no camburão, imagina num camburão, alga grávida, barrigão, entram as duas na parte trás do camburão e elas vão até onde hoje fica a UFRJ e o Pinel ali na entrada da Praia Vermelha. >> Sim. Eh, elas vão até aquela região ali.

¶25Eh, aí o carro para, o camburão para e a parte de trás é aberta. Eh, o policial armado se vira e fala pra tia Maria que ela tem que descer. Aí ela diz: "Eu não vou descer. O que que tá acontecendo?" Eh, e elas entendem o que que vai acontecer. Aí a Olga se vira para minha tia e fala: "Eh, tu não adianta resistir, vou fazer o quê?" Eh, não adianta, >> coitadas, >> as duas eh se abraçam apertadas, a tia Maria salta do camburão e e o camburão vai direto pro porto, onde a Olga é embarcada num navio e e despachada paraa Alemanha, onde Adolf Hitler já onde as leis de Nuremberg já existiam.

¶26Adolf Hitler já governava e ela morre. Eh, é, é uma história, olha, eh, é uma cela em que tava a Olga, tia Maria, Nise da Silveira, várias mulheres que as pessoas >> conhece doutora Nise? Meus pais se conheceram na casa do Dra. Nise. Ah, >> num grupo de estudo da Dra.

¶27Que que eles achavam dos gatos? E sobretudo que os gatos achavam e eles eles quando a Dra. Nise não estava vendo, às vezes tiravam os gatos da cadeira, o que era uma ofensa mortal naquela casa, né? [risadas] >> Conversar com ela uma vez e [suspirando] e ela tava de poucas palavras, sabe? Eu não queria falar.

¶28E eu tô lá e aí tô vem um gato, vem outro e é eu com gato. Pronto. Quando ela viu isso, ela começou a falar. [roncando] >> É, >> eu disse: "Ah, você tava querendo ver como é que eu entendia com os gatos". >> Ela diz: "Não, eu tava querendo ver o que que eles achavam de você.

¶29[risadas] >> O fato de eu me entender com com os gatos era irrelevante. O que contava era a opinião dos gatos. E eu só tinha a concordar. >> O o o Mário era igualzinho ao marido dela, né? Mário Magalhense.

¶30Eh, mesma coisa com gatos. Mas enfim. Eh, >> ah, só mais um. Ela tem um livro, já que a gente tá falando de livro, ela tem um lindo livro que esse da Dra. Nice da Silveira chamado Gatos, a emoção de lidar.

¶31É um belo livro sobre gatos. Eu tenho um parte, mas enfim, tem edição dele, inclusive. Ele não é um livro que tá fora de mercado, tá em mercado. >> É, é assim como Bárbara de Odora era Lady Shakespeare no Brasil, eh, Dra. Nise era Lady Jung no Brasil, né?

¶32É a fundadora da Escola yungiana Brasileira. >> Eh, é uma é uma, olha, não tem uma mulher que não estava naquela cela que não era uma mulher brilhante. É, é, é, era um time, mas eu >> formidavelmente sofisticador. >> Eu vou te dizer o seguinte, eu acho que isso se explica inclusive, porque naquela época o papel da mulher não era se meter em política. Naquela época o papel da mulher ainda era ser dona de casa.

¶33Ou no máximo dessas profissões que eram aceitas para as mulheres, enfermeira, professora, secretária, telefonista. É, é que é que na >> eu acho que paraa mulher embarcar numa trajetória dessas de eu eu acho que não foi isso. Eh, >> eu acho que é um sentimento diferente. Eu acho que que havia eram mulheres diferentes nesse sentido de >> É, mas eu eu acho a a na minha família eh na família do meu pai, na minha família paterna, eh esse meu bisavô não tinha isso. Minha avó era advogada, Maria era advogada de formação.

¶34Eh, >> mas havia muitas, >> Dra. Nise era psiquiatra, né? >> Não, mas havia muitas advogadas formadas, mas não era usual a mulher agir politicamente. >> É, pois é, mas é isso que eu tô falando. Na família do meu pai, isso não existia.

¶35todo mundo agia politicamente e e com a cabeça John Stuart Mill do meu bisavô, eh, não havia essa tipo, eh, minha tia avó tentou fazer uma revolução, eh, a irmã dela, minha avó, era uma advogada que tinha importância dentro da OAB. Eh, eh, a as mulheres na família não tinham essa coisa de o papel da mulher era cuidar dos filhos. Não existia isso. E nenhuma delas era eh eh era isso. Todas elas, era um dos motivos meu pai morava mais na casa do meu e do meu bisavô do que dos pais dele.

¶36É porque os pais dele trabalhavam eh isso nos anos 50. Então, [risadas] e eu acho, eh, você tem razão, que essa era a norma, é que essas mulheres comunistas, elas todas cumpriam a norma, eram todas de outro mundo. >> Pois é, mas é por isso que eu quero dizer que é explicável que elas tivessem juntas ali, porque elas eram mulheres que sentiam uma necessidade de ir além. >> Sim, com certeza. L era permitido e do que se esperava delas.

¶37Claro, não com ela ela elas tiveram coragem de sair da zona de conforto, da zona de desconforto, se você quiser, porque não era nada confortável esse papel, mas elas foram mulheres, >> é, >> que sentiram a necessidade de agir integralmente como cidadãs. É isso. >> Não, você tem você tem você tem toda a razão. Eh, mas é uma é uma geração admirável de mulheres, todas com ensino superior, todas agindo com a própria cabeça e naquela maluquice que foram os anos 30, né? Eh, >> que se seguiram pela a maluquice dos anos 40, >> que por sua vez foram seguidos pela maluquice dos anos 50.

¶38Nós tivemos algum momento nesse país em que não foi uma maluquí? Eh, Maria morreu estalinista. Ela morreu estalinista. >> Bom, >> e como todos os estalinistas brasileiros, brisolista, né? Claro, faz sentido >> que é aquela coisa de eu [roncando] eu adolescente ainda perguntei para ela, mas mas A Maria me explica essa ida pro getulismo, tipo, é porque eh, isso aqui é o pior momento da vida de todos eles, de todos.

¶39Isso aqui, esse período da prisão, que foram anos de prisão, isso é o pior momento da vida de todos eles. Todos viraram jetulistas e ao fim estavam brisolistas. Porque porque o brolismo é a a continuação do jetulismo, né? >> Sí, síndrome de Estocolmo. >> Eh, não foi orientação do partido na União Soviética.

¶40E como o partido acabou e a União Soviética acabou e não havendo mais só um lugar de onde venha uma contraordem, assim fica sendo, né? [risadas] [suspirando] >> Eh, é uma, eu eu super recomendo, é uma, é um livro pequeno, eh, e vamos atrás. M.