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“Sala 4”, de Maria Werneck | O Livro da Cora, hoje com Pedro Doria

a tese

No quadro "O Livro da Cora", Pedro Doria inverte o papel e apresenta ele próprio um livro, "Sala 4", de Maria Werneck, reeditado pela Matinas sob demanda: o relato da prisão das mulheres do Partido Comunista após a Intentona de 1935, escrito por sua tia-avó, que dividiu cela com Olga Benário e Nise da Silveira.

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É conversa de recomendação literária, mas vale o registro de que "Sala 4" existe reeditado, como fonte de primeira mão sobre a repressão do Estado Novo e o caso Olga Benário.

O que foi dito

  • Doria explica o modelo da editora de Matinas Suzuki, impressão sob demanda para livros que precisam existir sem ter público de escala, com edição cuidadosa e sem estoque parado.
  • Revela o vínculo pessoal: Maria Werneck era irmã de sua avó e foi sua primeira guia literária, orientando as leituras de Monteiro Lobato e fazendo perguntas sobre cada livro; ele guarda a edição original de 1988 com dois autógrafos colhidos no lançamento, um deles de Luís Carlos Prestes, o “velhinho cabugento” que às vezes estava na sala dela.
  • O livro nasce como resposta: a biografia “Olga”, de Fernando Morais, publicada no ano anterior, havia desagradado profundamente o círculo dos ex-membros do Comitê Central, e a tia decidiu contar a própria versão.
  • “Sala 4” é o nome da cela onde ficaram juntas as mulheres presas após a tentativa de revolução comunista de 1935, entre elas Olga Benário, grávida, a própria Maria e Nise da Silveira.
  • O quadro familiar que Doria desenha é um retrato do país: o bisavô Justo Mendes de Morais, constituinte de 1934, jurista que recusou duas vezes o Supremo e era advogado de Getúlio, era liberal formado na geração de Rui Barbosa; a avó era liberal e advogada com atuação na OAB, a tia-avó comunista, e outro irmão integralista. Ele credita a essa formação liberal a exigência de que cada filho pensasse por conta própria, e Cora Rónai compara às irmãs Mitford na Inglaterra.
  • Doria afirma, contra a ideia corrente, que a ditadura do Estado Novo foi tão brutal quanto a militar, com o mesmo nível de tortura nos porões, e registra sem atenuar que aquelas pessoas tentaram derrubar pela força o regime instituído pela Constituição escrita pelo próprio pai de Maria.
  • A cena central do livro, que o fez chorar: como o pai era advogado de Getúlio, Maria tinha alguma ascendência junto aos carcereiros e conseguiu acompanhar Olga a um exame pré-natal; no caminho o camburão parou perto da Praia Vermelha, o policial mandou Maria descer, as duas entenderam o que ia acontecer, Olga disse que não adiantava resistir, elas se abraçaram e o veículo seguiu direto ao porto, onde Olga foi embarcada para a Alemanha das leis de Nuremberg, onde morreria.
  • Cora conta que seus pais se conheceram em grupo de estudos na casa de Nise da Silveira e narra a anedota dos gatos, em que a psiquiatra só passou a conversar depois de observar o que os gatos achavam dela; recomendam “Gatos, a Emoção de Lidar”, da própria Nise, e Cora a chama de “Lady Jung do Brasil”, fundadora da escola junguiana brasileira.
  • Os dois discutem por que aquela cela reunia tantas mulheres notáveis: Cora argumenta que eram mulheres que sentiram necessidade de agir integralmente como cidadãs numa época em que esperar-se-ia delas apenas a casa ou profissões restritas, e Doria concorda, observando que na família dele, por formação liberal à John Stuart Mill, essa restrição simplesmente não existia.
  • Fecha com a nota de que Maria Werneck morreu stalinista e brizolista, e com a explicação que ela dava ao sobrinho adolescente para a adesão ao getulismo: a orientação vinha do partido na União Soviética, e, acabados o partido e a URSS, não havia mais de onde viesse contraordem.

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