Nathan e James, do Digital Gnosis, passam doze horas revisando o vídeo em que Joe Schmid expõe as razões de teologia natural da sua conversão ao catolicismo e concluem que nenhum desses argumentos foi de fato o motor da conversão: ela veio dos milagres e do círculo social católico, e a teologia natural foi reconstruída depois para dar coerência à decisão. A crítica de fundo é metodológica: o que eles apelidam de "teologia natural schmidiana" espalha um princípio de indiferença sobre possibilidades imaginadas para deprimir a probabilidade do naturalismo, mas nunca aplica o mesmo padrão ao teísmo, que recebe sempre razões divinas ad hoc classificadas como "não implausíveis".
talvez
porque a tese metodológica central (aplicar princípio de indiferença sobre possibilidades imaginadas só do lado naturalista e liberar razões divinas ad hoc do outro) é a objeção mais séria já levantada contra o caso cumulativo de Schmid e interessa diretamente a quem discute molinismo e providência, mas são doze horas com muita digressão, deboche e psicologia de botequim, de modo que o proveito está em ir direto aos blocos de harmonia psicofísica, ajuste fino e teísmo cético, pulando o resto.
O que foi dito
- A live abre com enquadramento sociológico: Schmid cresceu católico e estudou em escola católica onde leu Tomás de Aquino, escondeu dos pais por cerca de dez anos que havia perdido a fé, formou-se em filosofia da religião sob Paul Draper em Purdue e depois em Princeton, e cita como influências decisivas Joshua Rasmussen, Cameron Bertuzzi e Ethan Muse (grafia incerta), sem nenhum diálogo comparável com céticos, o que os apresentadores leem como bolha intelectual reforçada pela indústria de mídia católica (Pints with Aquinas contratado pela Daily Wire, Trent Horn em tempo integral).
- A primeira hora ataca a noção de “probabilidade intrínseca” que Schmid herda de Draper: James nega que exista probabilidade atribuível antes de toda evidência empírica e chama o recurso de imitação da estética do rigor científico, sem nenhum número efetivamente calculado; Nathan lê a Stanford Encyclopedia sobre “a priori” para mostrar uso impróprio do termo.
- Sobre o critério de simplicidade (uniformidade espacial contra “mancha anômala”, lei do inverso do quadrado contra expoente 2,00000129), James responde que a preferência por uniformidade vem das teorias físicas vigentes (invariância de Lorentz, modelo padrão) e não de uma intuição a priori, observa que a compressibilidade de uma descrição depende da linguagem escolhida, e lembra os casos históricos que desmentem o critério: John Dalton, que postulou a água como monóxido de hidrogênio por ser mais simples e porque “Deus prefere a simplicidade”, e Paul Feyerabend, que em Contra o método mostra que o modelo geocêntrico da Igreja era o mais simples à época e que Galileu avançava com argumentos a priori duvidosos sobre o funcionamento dos telescópios.
- Segue a crítica ao teísmo “puro” (mente fundamental ilimitada em poder, conhecimento e bondade) como explanatoriamente inerte: simples só enquanto vazio, exige hipóteses ad hoc sobre intenções divinas assim que toca qualquer fenômeno concreto; o argumento dos “limites arbitrários” de Rasmussen é rejeitado como ontologia da ausência (propriedades negativas não pedem explicação), Nathan questiona a inteligibilidade de uma mente desencarnada e atemporal, cita a objeção de David Bentley Hart no Substack (o demiurgo explica mais que o Deus sem limites), e observa a ironia de que o quadro dualista de Schmid é incompatível com o hilemorfismo tomista que um convertido ao catolicismo deveria assumir.
- O bloco mais longo trata da harmonia psicofísica, o argumento que Schmid diz ter pesado mais, ancorado em Brian Cutter e Dustin Crummett: os apresentadores acusam Schmid de nunca especificar o conhecimento de fundo K, de pressupor um teatro cartesiano de qualia incompatível com o fisicalismo de identidade, de cometer erro estatístico ao esquecer que a classe dos mapeamentos complexos é muito maior que a dos simples, e de tornar incoerentes os “mundos hedonicamente invertidos” assim que ele mesmo rejeita o epifenomenalismo; ao problema da vingança (por que Deus teria harmonia perfeita entre vontade e mundo) Schmid responde com a perfeição divina, que eles tratam como rótulo retórico sem conteúdo.
- Na harmonia nomológica, Schmid distingue humeanismo, teoria dos poderes causais e leis governantes; os apresentadores sustentam que só a terceira gera o problema alegado, tratam como incoerente o cenário de bósons com poder de interagir com partículas inexistentes (comparam com constantes de acoplamento zero na teoria quântica de campos), e classificam como gish gallop acadêmico a maneira de Schmid despachar o humeanismo empilhando referências (John Hawthorne, David Wallace, Aaron Segal, grafia incerta) em vez de argumentar.
- No ajuste fino, Schmid usa a estimativa de Luke Barnes de 1 em 10^136 e a analogia de Philip Goff dos setenta seises seguidos, e acrescenta o ajuste fino para “descobribilidade” de Robin Collins (a razão bárion-fóton maximizando a intensidade da radiação cósmica de fundo que permitiu descobrir o Big Bang), apoiado em posts de Matthew Adelstein (Bentham’s Bulldog) e Dustin Crummett; a réplica é que 90 das 136 ordens de grandeza vêm apenas da constante cosmológica, que é um parâmetro de ignorância mal restringido, e James monta um caso cumulativo naturalista (leis mais profundas, outras formas de vida, parâmetros mal definidos, multiverso restrito) que derruba o número para algo entre 10^20 e 10^30, além de zombar da citação de Adelstein, que por admissão própria não tem física de ensino médio.
- Nas objeções internas (formas de vida exóticas, universo quase todo vazio, “electrons in love”, ou seja, Deus podendo parear consciência com elétrons por outras leis psicofísicas), os apresentadores mostram Schmid empurrando fatos para dentro ou para fora do conhecimento de fundo conforme a conveniência do argumento, e acham ad hoc a lista de razões “não desprezíveis” que ele atribui a Deus para criar espaço vazio (sensação de precariedade, humildade profunda, oportunidade de colonização interestelar).
- O argumento da contingência é despachado rápido: a analogia das esferas brilhantes na floresta (Rasmussen) e a defesa do princípio de razão suficiente por Alexander Pruss e Robert Koons via cérebros de Boltzmann são rejeitadas porque Schmid nunca define o que é explicação nem distingue explicação causal de explicação epistêmica, e o passo final (o ser necessário deve ser ilimitado em poder e bondade, pois qualquer corte seria arbitrário) é tratado como postular muito mais do que o fenômeno exige, já que bastaria o poder mínimo de produzir um estado quântico instável.
- As últimas horas cobrem beleza (a partir da marca de 5h35 do vídeo de Schmid, com a resposta de Pruss ao problema da feiura pela analogia das mãos mal pintadas em Woman with a Parasol, de Monet, e a tese do véu epistêmico segundo a qual beleza excessiva tornaria Deus óbvio demais) e o problema do mal, onde os apresentadores listam males separáveis que Schmid não trata um a um (dor crônica, câncer infantil, predação animal, terremotos, aborto espontâneo em um terço das gestações) e consideram ininteligível a alegação dele, no teísmo cético moderado ilustrado pelo xadrez quadridimensional de Brian Cutter, de que razões desconhecidas para permitir e para impedir o mal ocupam regiões não triviais e não sobrepostas do espaço de probabilidade sem se cancelarem; fecham apontando o círculo de referências estreito de Schmid (Rasmussen, Pruss, Koons, Cutter e posts de Adelstein e Amos Wollen, sem nenhum enfrentamento de Graham Oppy) e prometem tratar dos milagres no próximo Bad Apologetics.