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Lula fala na ONU sobre soberania, mas restrição às bets pode ser seu trunfo eleitoral | Cá Entre Nós

¶1O presidente Lula abriu a Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira e discursou naquele púlpito pela déma vez. O Brasil sempre abre a assembleia geral. É tradição diplomática que eu já expliquei aqui em outro vídeo. Se Lula não se reeleger em outubro, esse terá sido seu último discurso. O português Antônio Guterres, que falou logo antes, fez seu último discurso porque seu segundo mandato de secretário geral da ONU tá chegando ao fim.

¶2E logo depois de Lula, falou Donald Trump, consolidando um tom de despedida de uma era inteira de globalização e de uma intenção de paz, ainda que mais retórica do que prática. Mas Lula ainda pode se reeleger. Ele enfrenta o que talvez seja sua eleição mais difícil, mas demonstra uma resiliência eleitoral absolutamente sem precedentes na história do Brasil. Porque vamos combinar que a gente fala muito da resiliência da família Bolsonaro, que tem uma pandemia pessimamente mal gerida, tentou um golpe de estado, tem o patriarca preso e não para de ver o seu nome envolvido em escândalos. Só que, primeiramente, essa sobrevivência e a mera existência do bolsonarismo se deve, em boa medida ao próprio lulismo.

¶3E segundamente, o presidente Lula tá tentando seu quarto mandato depois de sua sucessora ter passado por um impeachment, seu partido ter protagonizado um enorme escândalo de corrupção, ele próprio ter ficado preso mais de um ano e meio e o seu terceiro mandato ter deixado muito a desejar. E Lula segue aí com um piso de coisa de 40% das intenções de voto num país que já mudou muito em vários sentidos. De qualquer forma, Lula foi a ONU investido de um de seus maiores desejos desde sempre. Inscreveu seu nome entre líderes relevantes aos olhos do mundo. Ele fez um discurso hoje que entregou a noção de que somente estadistas podem ocupar aquele púlpito e que quando o fazem clamam por paz e não por guerra.

¶4usou para isso o exemplo de Arafá e Rabim, os líderes palestino e israelense que mais se aproximaram de uma solução de dois estados pro conflito e que nas palavras de Lula, foram derrotados pelo ódio. Esse recado foi para Donald Trump, que confirmou mereceu ouvi-lo ao fazer um discurso absolutamente belicoso logo em seguida falando em aniquilar o Irã e coisas desse tipo. E foi também ao público brasileiro numa insinuação até que sutil de que Flávio Bolsonaro não teria estatura para ocupar aquele lugar como um estadista. Lula ainda falaria no fim de seu discurso diretamente sobre a eleição de 4 de outubro e isso quebrou a tradição. presidentes sempre usaram esse discurso na ONU para dar recados ao público interno, mesmo porque as outras nações prestam mais atenção mesmo à fala do presidente dos Estados Unidos e dos líderes de seus próprios países ou de países com quem estejam em conflito direto.

¶5A atenção sobre Lula passou a ser um pouco maior depois que ele emergiu do 8 de janeiro como o líder de centroesquerda que venceu uma tentativa de golpe da extrema direita. Neste ano, a atenção também tem a ver com a forma como o Lula lida com Trump e as ameaças de ingerência que ele faz no Brasil. Talvez por isso e certamente por querer faturar alguns dividendos eleitorais com um assunto que já se mostrou proveitoso no passado, Lula escolheu falar sem rodeios. Sem precisar mencionar Trump. Ele falou que o Brasil vai às urnas, abre aspas, num pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão, sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.

¶6Fecha aspas. Lula ainda acrescentou que o Brasil não permitirá, abre aspas, que os inimigos da democracia internos e externos atentem contra a vontade popular. Fecha aspas. Existe nesse trecho da fala de Lula um recado paraa comunidade internacional para que todos fiquem de olho no que pode vir a acontecer na eleição. Se a gente pensar que até a ABIM, a agência de inteligência brasileira, andou emitindo parecer sobre esse risco de interferência dos Estados Unidos, ali também tem um recado a Trump de que ele não tá lidando com uma república de bananas, por mais bananeira que pareça brotar cada dia por todo lado.

¶7Esse recado se expressou também no momento em que Marco Rúbio, secretário de Estado dos Estados Unidos, que capitaneia essa ofensiva norte-americana contra o Brasil, tentou abordar Lula e o brasileiro lhe virou as costas. Pode ter sido 100% involuntário, porque Lula estava cercado de uma dezena de pessoas e pode perfeitamente não ter visto Rúbio ali, mas pode ter sido 100% intencional. Jamais saberemos. Agora, a fala de Lula tem um recado também ao eleitor brasileiro. Esse recado vai ser eficiente?

¶8Esse eleitor que ouvir a mensagem é quem precisa de atenção agora? E o que Lula ainda tem na manga para conquistar os votos de que precisa e sair do sufoco nas pesquisas? Vamos pensar mais um pouquinho juntos. Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do meio.

¶9A gente tá quase chegando ao primeiro turno da eleição. Vai coincidir com o aniversário de 10 anos do meio, sabia? Sim, faz 10 anos que o meio existe e se sustenta praticamente só com as assinaturas de quem topa pagar uma quantia baixinha para receber muito conteúdo de qualidade e para apoiar um jornalismo plural que tem vozes mais de centroesquerda, puramente de centro e mais à direita. vozes que não se rendem à militância, que seria bem mais fácil para agradar o algoritmo. Inclusive, se você ainda não assina, esse é um pedido que eu te faço.

¶10Assine o meio. São apenas R$ 15 por mês e fazem toda a diferença pra gente. [música] [música] tá entre nós, a essa altura já tá mais do que qualificado por tudo que é pesquisa, inclusive pela nossa a meio ideia, que quem vai decidir a eleição é a mulher de classe C das grandes cidades. Essa mulher é multifacetada, embora tenha uma parcela expressiva delas que é religiosa. Ela tá ralando muito para pagar conta, às vezes para cobrir dívida de jogo sua, ou do marido ou dos filhos.

¶11Ela tem medo que algum dos seus não volte para casa por conta da violência. Algumas, a maioria é mais conservadora do que progressista, mas não tem necessariamente um reacionarismo exagerado ali. A vida real é bem mais complexa do que um preto no branco do bem contra o mal, né? Lula precisa falar com elas. faz isso muito bem quando se dedica a isso, mas tem feito pouco.

¶12Não é falar sobre feminicídio do alto de um palanque só. É se misturar ali com elas, ouvi-las, reagir naturalmente ao que houve, como fez no vídeo sobre Bets, que sua campanha soltou na semana passada. Flávio Bolsonaro não sabe fazer isso, nem poderia. As suas agendas não convencem a maioria das mulheres. Lula tem nessa estratégia a sua melhor chance.

¶13A ofensiva contra as betes deve cumprir um papel grande nela. Isso quer dizer que ele não devia ir a ONU? Não. Ele precisava estar lá tanto como presidente da República quanto como candidato para alertar outros líderes do que entende ser um risco a democracia brasileira. Agora, na sua volta ele precisa calibrar a agenda e o discurso e focar nesse público que pode garantir um respiro a sua campanha, pode garantir um segundo turno em que a comparação direta com Flávio vai ficar mais evidente e talvez garantir mais uns discursos na ONU, se é que ela vai sequer existir nessa nova era que Trump inaugurou lá em 2016 e restreou em 2024.

¶14No noticiário político não se fala em outra coisa que não essa crise do STF, né? No meio a gente faz essa cobertura completa, sim, mas vamos além. Nas edições de sábado de setembro, o nosso time foi atrás de quem estuda o Supremo. Entrevistamos alguns dos maiores juristas e pesquisadores do país [música] para analisar essa crise, para explicar essa crise. Não é opinião de mesa de bar, é contexto, é informação.

¶15Foi assim com Rubens Glzer da FGV Direito SP sobre urgência de uma reforma na corte. tá lá na nossa edição mais recente, mas o STF não pode abafar todo o resto. Por isso, trouxemos entrevistas e artigos sobre os outros temas que também preocupam o brasileiro [música] nessa eleição, como economia, como educação. A Débora Bizarria, por exemplo, escreveu um artigo comparando os cinco programas de governo na economia. A Priscila Cruz, do Todos pela Educação, bateu um papo com a gente sobre o que cada presidenciável propõe nesse campo.

¶16São os temas que o noticiário do dia a dia deixa passar, mas a gente não. Se você quer acompanhar essa eleição com [música] esse nível de profundidade, qualidade de análise, assina o meio premium e receba a edição de sábado, toda semana. vai [música] fazer diferença para você entender no que tá botando. >> [música]