a tese
Flávia Tavares, editora do Meio, argumenta que o discurso de Lula na ONU serviu ao duplo papel de presidente e candidato, mas que a eleição não se ganha ali: o trunfo real está na ofensiva contra as bets e na capacidade de falar com a mulher de classe C das grandes cidades, que ela identifica como a eleitora decisiva.
aprofundar
não
é análise eleitoral de conjuntura com validade curta; o dado que sobrevive ao ciclo é a caracterização da eleitora de classe C, religiosa e endividada por jogo, como fiel da balança, e a leitura das bets como pauta que atravessa moral religiosa e economia doméstica.
O que foi dito
- Contextualiza a cena diplomática: foi o décimo discurso de Lula naquele púlpito (o Brasil abre a Assembleia Geral por tradição), António Guterres falou antes encerrando seu segundo mandato e Trump falou depois, num arranjo que ela lê como despedida de uma era inteira de globalização.
- Chama de resiliência eleitoral sem precedentes o fato de Lula disputar o quarto mandato depois do impeachment da sucessora, do escândalo de corrupção do partido, de mais de um ano e meio de prisão e de um terceiro mandato que ela mesma avalia como aquém, mantendo piso em torno de 40% das intenções de voto; e observa que a sobrevivência do bolsonarismo se deve em boa medida ao próprio lulismo.
- Lê o uso que Lula fez de Arafat e Rabin, os líderes que mais se aproximaram da solução de dois Estados e que, nas palavras dele, foram derrotados pelo ódio, como recado duplo: a Trump, que logo depois fez discurso belicoso falando em aniquilar o Irã, e ao público brasileiro, insinuando que Flávio Bolsonaro não teria estatura de estadista.
- Aponta a quebra de tradição: presidentes costumam dar recados internos na ONU de forma velada, e Lula falou diretamente da eleição de 4 de outubro, citando os candidatos que “abusam” da liberdade de expressão para se associar a interesses estrangeiros e os “inimigos da democracia, internos e externos”, o que ela interpreta como pedido de vigilância internacional sobre o pleito, reforçado pelo parecer da Abin sobre risco de interferência americana.
- Sobre o episódio com Marco Rubio, é deliberadamente inconclusiva: Lula virou as costas ao secretário de Estado, e pode ter sido totalmente involuntário, dado o cerco de pessoas, ou totalmente intencional, sem como saber.
- O núcleo analítico é o eleitorado: as pesquisas, inclusive a do próprio Meio, indicam que decide a eleição a mulher de classe C das grandes cidades, muitas vezes religiosa, endividada (às vezes por dívida de jogo própria, do marido ou dos filhos), com medo da violência, mais conservadora que progressista sem ser reacionária.
- A prescrição é de método, não de pauta: Lula sabe falar com esse público quando se dedica, mas tem feito pouco, e o modelo citado é o vídeo sobre bets lançado pela campanha na semana anterior, em que ele reage naturalmente no meio das pessoas em vez de discursar de palanque sobre feminicídio.
- Avalia que Flávio Bolsonaro não tem como disputar esse eleitorado e que a ofensiva contra as bets é a melhor chance de Lula chegar a um segundo turno com comparação direta mais evidente.
- Fecha com peça publicitária das assinaturas do Meio, citando as entrevistas da edição de sábado com Rubens Glezer (FGV Direito SP) sobre reforma do Supremo, o artigo de Débora Bizarria comparando os cinco programas econômicos e a conversa com Priscila Cruz, do Todos pela Educação.