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CACO BARCELLOS E FERNANDO MORAIS ENTRAM NUM BAR

¶1Eu não costumo falar de improviso porque eu não me saio muito bem em geral, não. Em compensação, o meu texto tende a ser elogiado. Eu tô dizendo isso sem modéstia ou sem falta modéstia, porque é um fato. Vocês fazem elogios muito generosos, mas fazem, fazem nessa caixa de comentários. E aí eu fico aqui pensando, né, qual é a maneira correta de reagir a esses elogios tão efusivos, tão bondosos que vocês fazem.

¶2Não posso me deixar levar de maneira alguma, né? É, sendo bem realista e bem sincero num caso desses, eu acho que a postura mais adequada é saber que, ok, tá legal, tá agradando, mas ainda tem muito para melhorar. Eu não posso nessa idade acreditar que eu já escrevi o meu melhor. Ainda não, né? Então, que bom que vocês gostam do que eu escrevo.

¶3Mas será que é para mim que vocês deveriam estar olhando se vocês querem um bom modelo de texto jornalístico? Eu acho que não. E eu vou oferecer aqui duas alternativas bem melhores que esse que vos fala. Antes da indicação dos dois títulos que seguem, uma breve ressalva. Algumas pessoas podem considerar as opiniões que eu vou emitir aqui meio envelhecidas.

¶4Lá vão as opiniões polêmicas. Onde poderá ser encontrado o melhor texto aplicado ao jornalismo, ao ofício de informar? Será que vai ser nessa ou naquela mídia, na televisão, no rádio, no jornal, no site? onde, olha, não é uma discussão fácil, mas tem um formato que eu preciso citar, o livro reportagem. Livro reportagem não tem áudio, livro reportagem não tem vídeo, livro reportagem raramente tem fotografia ou infográfico.

¶5E quanto menos desses recursos esses produtos tiverem, mais apoiados no texto eles estão. Então a gente tá falando de uma modalidade textual que se caracteriza por duas coisas. Primeiro porque ela tem a necessidade de manter a atenção do leitor presa naquelas palavras. Segundo, porque é uma modalidade textual que além de manter a atenção presa, precisa necessária e obrigatoriamente seguir determinados padrões técnicos do jornalismo. Precisa ser eficiente na hora de informar, não é qualquer texto que tem essa segunda característica.

¶6Então, se a gente quiser saber onde tá o melhor texto jornalístico do Brasil, a gente precisa encontrar um ou outro bom livro reportagem. E aqui eu escolho mencionar dois que tem estilos muito distintos, mas que representam dois profissionais de ponta. O primeiro livro reportagem aqui tem que ser Chatô, o rei do Brasil, do Fernando Moraes. O Fernando tem um dos melhores, se não o melhor texto dedicado a informar o público brasileiro. E esse livro é a mais absoluta prova disso.

¶7Enchatou o rei do Brasil, o Fernando Morais, conta pra gente a história de vida do Assis Chatobrian, o fundador dos diários associados. Mas ao usar o fio condutor dessa biografia, ele resgata toda a formação da mídia hegemônica brasileira. É uma verdadeira aula daquilo que as faculdades de jornalismo chamariam de história social dos meios de comunicação. E ela tá introjetada dentro dessa biografia. De maneira que ele vai preservar a cronologia ao longo de todas as páginas, mas aqui e ali ele vai se dar o direito de voltar no tempo, talvez até o século XIX, para contar exatamente como o Brasil aprendeu a noticiar o seu próprio cotidiano.

¶8Eu queria poder dizer que no Brasil não se pratica jornalismo profissional sem a leitura de Chatô, o rei do Brasil. Ah, como eu queria poder dizer isso, meus amigos. Mas seria mentira. E sabe por que que eu queria poder dizer isso? Primeiro porque eu queria que todo jornalista tivesse o prazer dessa leitura, sentisse o que eu senti quando eu toquei nessas páginas pela primeira vez.

¶9em segundo lugar, porque é um excelente treinamento textual, duas boas razões, mas tem uma terceira, lembre-se, é uma aula de história social dos meios de comunicação. E esse é um tópico muito importante para qualquer um que queira escrever bem. Você precisa ter as técnicas textuais à sua disposição, sem dúvida. Mas também é importante conhecer a história dos meios através dos quais os textos foram distribuídos, né? E é interessante, é legal.

¶10>> Olha, a gente chamar o chatô de gangster, eu toda vez que rola isso, porque ele foi um gangster, >> mas chamar ele só de gangster, você esquece o seguinte, o único Rambran que existe no hemisfério sul tá aqui do outro lado da vida. >> Isso porque ele estorqueou alguém. >> Ele estorqueou alguém. Isso. >> Mas não deixou, mas não deixou o Rambran pros filhos dele, deixou para nós.

¶11>> Deixou para nós. >> A cozinheira, a cozinheira da sua casa pode ver Rambran de graça aqui uma vez por semana. >> Eu costumo dizer que picareta existe picareta que nem colesterol. >> É. >> E tem colesterol bom e colesterol ruim.

¶12>> Exatamente. Exatamente. >> Tem o LTE, tem picareta bom e picareta ruim. >> Mas é exatamente isso que eu quero falar. Uma figura monumental.

¶13E monumental também é o meu esforço para inserir dois livros no radar da sua disputada atenção, né? Dois livros, já falei de chatô, tem mais um pela frente. Indicar dois livros no YouTube, que é uma rede social, já é bastante pretencioso, né? Mas eu vou ainda além. É, que tal se a gente indicasse uns filmes cabeçudos também?

¶14Estima-se que todos os dias estreiem 60 jogos de videogame, algo entre 20 e 30 filmes e pelo menos 10 séries de TV, das quais oito não passarão do quarto episódio. com tanto conteúdo, em tanta tela, com tanto entretenimento, com tanta estreia, seria ótimo, né, se houvesse uma plataforma em que toda estreia um clássico. E esse é mais ou menos o conceito da fêmea, a plataforma de streaming brasileira com uma seleção que gringa nenhuma tem. Dia desses entrou lá assim como se não fosse nada a professora de piano. Filme francês de 2001, premiadíssimo por ocasião da estreia.

¶15Durante anos, esse filme foi meio difícil de encontrar aqui no Brasil, agora tá lá. E é um filme interessantíssimo, de uma moralidade meio cinzenta, filme tenso que quando não quebra o tabu, corta na carne. Professora de piano, disponível na fíica, vale um de 10 dedos cortados. numa escala invertida, porque afinal de contas zero dedos cortados é muito melhor do que 10. O que significa que, na verdade, esse filme acaba de receber aqui a nota nove numa escala que é confusa, claro, mas que é a prova de spoilers.

¶16É o meu jeitinho de honrar a assinatura da fêmea, que é a prova de arrependimentos. Usa o meu cupom Pix Árvor e vai no passe anual, R$ 99,90, R$ 100 de desconto. Eu deixo aqui o meu incentivo para que você compare esse valor com aquele que você anda pagando pelas plataformas gringas, cheias de superheróis e explosões. Nada contra as explosões. Gosto muito delas, inclusive.

¶17Mas que se explodam, né? Minha segunda indicação é Rota 66, a polícia que mata do Caco Barcelos. Na Globo não tem para ninguém, esse é o cara. É a melhor apuração dentro do grupo Globo combinada com fundamentos textuais de fazer inveja a muita gente por aí. E o Caco Barcelos consegue estruturar a narrativa dele de uma maneira diferente da do Fernando Moraes, talvez até mais sofisticada, não necessariamente melhor, tá?

¶18não é uma comparação deselegante, mais sofisticada, no sentido de mais complexa, porque não há um fio cronológico, uma biografia, ele pode ir e voltar e até proporcionar determinados plot twists, o que é impressionante com quem tá lidando com fatos reais, tão reais quanto a realidade pode ser meio crua. Pô, olha o nome do livro. >> Eu sabia já que era um sistema, né? é um esquadrão da morte financiado pela sociedade brasileira, pelo Estado brasileiro. Eu queria fazer uma denúncia com essa contundência.

¶19Se eu não conseguir, eu tenho que abandonar essa profissão, porque os relatos oficiais eram são mentirosos. Eu sabia que eram mentirosos. E todo dia eu evitava a mentira apurando muito, mas muita gente que não tinham, sei lá, vontade ou coragem ou ou alguns até preguiça, simplesmente reproduziam os relatos. do comando da Polícia Militar, aliás, você é obrigado a reproduzir, né, todos os lados da história. E alguns encerravam o seu trabalho apenas no relato que legitimavam todos esses extermínios, né?

¶20Isso é algo que tem que ser feito. >> Então, lá pelas tantas, o Caco Barcelos para de contar a história dessa polícia que mata e vem com um papo aí sobre um jovem muito forte que na saída da balada um dia levantou lá um um Fusca com os próprios músculos, um cara muito fortão e tal. E ele narra assim extensa, detalhada, candândidamente esse momento em que esse jovem foi celebrado, deu esse show aí na saída da balada. E você fica até sem entender porquê onde é que ele quer chegar com isso. E aí páginas e páginas depois você vai compreender porque aquela demonstração de força e aquela celebração era tão importante, não só paraa narrativa a respeito da violência policial, que é a razão de ser do livro, mas também pra construção humana desse personagem.

¶21Veja, certamente que é muito mais fácil fazer isso quando você tá lidando com a ficção e tem direito a inventar os próprios fatos. Não é o caso de um livro reportagem. E é por isso que o texto do Caco Barcelos é tão impressionante. O que me dá vontade de dar um conselho pra Globo, né? E que conselho que eu tenho para dar pra Globo.

¶22Contrate o grande Álvaro Borba para dar conselhos. Eunério por isso. Não, não, não é isso, meus amigos. Não é isso. Meu conselho pra Globo é dá uma novela pro Caco Barcelos escrever.

¶23O cara conseguiu num livro reportagem empreender um recurso típico dessas séries de ficção, Netflix, etc e tal, em que um evento do último episódio faz referência a um outro perdido no primeiro e dá aquele momento eureca na audiência, sabe? É esse tipo de texto e eu imagino que ele tem o que precisa para escrever ficção, não é qualquer um, né? E essas são as palavras de um fã entusiasmado, meus amigos. Texto é um assunto muito gostoso, né? Um meta assunto, poderia ser chamado de meta assunto até esses dias, mas o nome meta ficou meio queimado em função dos hábitos esquisitos do Marcos Zuckerberg e da insistência de bilhões e bilhões de dólares dele no metaverso, uma versão downgrade do Second Life, um downgrade do qual a gente não precisa porque a nossa relação parasocial tá indo muito bem, né?

¶24Eu tô gostando da sua companhia. E aí, para terminar, eu quero dizer que se for do seu interesse adquirir uma cópia de um desses dois livros, Chatô, o rei do Brasil ou Rota 66, tem os links que acompanham esse vídeo. Comprando por ali, você me ajuda a continuar esse trabalho e a melhorar o meu texto. E se você achar que tá caro, proporcionalmente tá barato, né? Se comparar, se você achar que é caro o livro, pô, para para pensar, chatou o rei do Brasil.

¶25é umas 30, 40 horas de leitura. Quanto você pagaria num jogo de 40 horas de narrativa? Pois é, então, se for parar para pensar, uma relação super vantajosa, porque por essa grana é muita informação, é muito conteúdo e é muito entretenimento também. Por fim, preciso endereçar é o formato desse vídeo, né, um pouquinho diferente daquele que você tá habituado a ver nesse canal. Eu sei, mas calma.

¶26Esse é um experimento para usar alguma das possibilidades desse espacinho que eu montei aqui em casa. Então, a série txt que você conhece e gosta, eu espero, continua, mas a gente vai ver novos formatos experimentando, né, com o que der para fazer aqui. Ah, é? E eu queria dizer que, independentemente do formato, do estúdio ou da TVzinha, a última palavra será sempre a mesma. Valeu,