a tese
Álvaro Borba recusa os elogios ao próprio texto e indica dois livros-reportagem como o melhor texto jornalístico brasileiro, "Chatô, o rei do Brasil", de Fernando Morais, e "Rota 66, a polícia que mata", de Caco Barcellos, argumentando que o formato sem áudio, vídeo ou infográfico é o que mais depende da escrita e ainda assim precisa informar com eficiência técnica.
aprofundar
não
como tema, talvez como leitura: o vídeo é indicação de livro com publicidade embutida, mas a defesa do livro-reportagem como o lugar onde texto e apuração se cobram ao mesmo tempo interessa a quem escreve, e "Chatô" é referência de peso sobre a formação da mídia brasileira.
O que foi dito
- Abre dizendo que não pode acreditar, na idade que tem, que já escreveu o seu melhor, e que os espectadores deveriam procurar modelos melhores de texto jornalístico do que ele.
- Define o livro-reportagem pelas duas exigências simultâneas: prender a atenção apoiado só nas palavras e obedecer a padrões técnicos de apuração e informação, o que não se cobra de qualquer texto.
- Sobre “Chatô”, destaca que a biografia de Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados, carrega dentro dela uma história social dos meios de comunicação no Brasil, com o autor rompendo a cronologia aqui e ali para voltar ao século XIX e mostrar como o país aprendeu a noticiar o próprio cotidiano.
- Inclui trecho de entrevista em que se discute a ambivalência de Chateaubriand: gângster, sim, mas o único Rembrandt do hemisfério sul está num museu aberto ao público porque ele extorquiu alguém, com a analogia de que há picareta bom e picareta ruim como há colesterol bom e ruim.
- Sobre “Rota 66”, elogia a estrutura narrativa como mais complexa que a de Morais: sem fio cronológico, com idas e voltas e reviravoltas construídas a partir de fatos reais, e usa como exemplo a cena, aparentemente gratuita, do rapaz forte que levanta um Fusca na saída da balada, cujo sentido só se revela páginas depois, na construção humana do personagem e na denúncia da violência policial.
- Traz Caco Barcellos em áudio dizendo que sabia estar diante de um sistema, um esquadrão da morte financiado pelo Estado brasileiro, que os relatos oficiais eram mentirosos e que, se não conseguisse fazer a denúncia com contundência, teria de abandonar a profissão.
- Brinca que o conselho dele à Globo é dar uma novela para Caco Barcellos escrever, porque ele emprega em livro-reportagem o recurso de série de ficção em que um evento do último episódio remete a outro perdido no primeiro.
- Faz publicidade de uma plataforma brasileira de streaming (a legenda grafa o nome como “fêmea”, grafia incerta), recomendando “A Professora de Piano”, filme francês de 2001, com o gracejo de uma nota nove numa escala invertida de dedos cortados.
- Encerra explicando que o vídeo testa um formato novo no estúdio montado em casa e que a série “txt” continua, e argumenta que o livro é barato proporcionalmente, já que “Chatô” dá 30 a 40 horas de leitura.