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Lula e Flávio se esqueceram dela | Ponto de Partida

¶1As duas campanhas falam com ela pela televisão. Nenhuma das duas foi conversar com ela. Segunda-feira em Nova York, Lula entregou uma camisa do Corinthians ao prefeito da cidade, Zoran Mandani. No mesmo dia, Flávio Bolsonaro fazia uma motocarreata de 15 km pelas ruas de Natal. E a mulher que vai decidir essa eleição, ela tava em casa em Guarúlios, em Duque de Caxias, em Contagem.

¶2Ela votou em Lula em 2022, não quer um Bolsonaro de volta. E há 12 dias da eleição ainda não se resolveu. Quem é essa mulher em cujas mãos tá o destino do Brasil e por nenhum dos dois tá indo atrás dela? Vamos começar pelo número. Tem uma comparação que pouca gente faz.

¶3A quest foi a campo entre 17 e 20 de setembro de 2022 e voltou a campo exatamente na mesma semana desse ano. Mesmo instituto, mesmo método, entrevista na casa das pessoas. Em 2022, nessa semana, Lula tinha 44%, hoje tem 37, sete pontos a menos. Aí você pensa, foram pro Flávio, né? Não foram.

¶4Bolsonaro tinha 34 naquela semana, Flávio tem 33. O filho não herdou um único voto que Lula perdeu. Os indecisos, que eram 5%, agora são 8%. Parece pouco, não é? Numa eleição em que as pesquisas mostram empatado o segundo turno, três pontos indecisos são eleição.

¶5Então, quem é essa gente? A quest corta por segmento. Entre as mulheres, quem tá indeciso diz que vai anular foi de 12 para 20%. No Sudeste de 10 para 21. Na faixa de 2 a cinco salários mínimos, a classe C de 9 para 18.

¶6Entre quem tem ensino médio, Lula caiu de 42 para 30. Deixa eu ser claro aqui. Entre as mulheres, quem saiu para indeciso, para branco, para nulo, foram eleitoras de Lula. Na classe C, os dois perderam. O filho perdeu mais do que o pai.

¶7Bolsonaro tinha 40 nessa faixa, Flávio tem 33. Então, de quem que a gente está falando? de uma mulher que mora numa grande cidade do Sudeste. E o Renato Meireres do Instituto Locomotiva, que passou a vida sentado na sala dessas casas, ele ajuda a desenhar o rosto dela. Na classe C, mais de metade dos lares é chefeada por mulheres.

¶8No começo do século era um quarto. Quase metade dos que trabalham é por conta própria. É mei, é bico, é a sacoleira que manda as fotos das blusinhas novas que trouxe da China pelo WhatsApp. Ela ainda faz 22 horas por dia, por semana de trabalho de casa. Os filhos ficam com a avó, com a vizinha.

¶9E quando pede para ela se definir, a primeira coisa que ela diz é: "Sou mãe". E olha que detalhe, é católica. A evangélica não tá. A evangélica já se decidiu. O PT passou 4 anos reclamando de evangélicos.

¶10Elas já entenderam que não são benquistas. Só na última semana a Flávia subiu oito pontos entre evangélicos. Entre os católicos. Quem tá indeciso ou vai anular, quase dobrou desde 2022, de 9 para 17. É ali que tá essa eleição.

¶11E o que tira o sono dela? A violência vem primeiro disparada. Aí vem o preço. Sete em cada 10 mulheres dizem que a comida subiu no último mês. Entre os homens, seis em 10.

¶12E uma coisa nova, tá? Corrupção. Em agosto, só 11% das mulheres diziam que era sua maior preocupação. Hoje são 20. O banco master chegou na sala de casa e tem um número que devia acender a luz vermelha no Palácio do Planalto nesse momento.

¶13Em uma semana, a avaliação negativa do governo entre as mulheres saltou de 33 para 39. Seis pontos em 7 dias. Agora vem comigo. O que que a campanha de Lula fez nessas duas semanas? Três comícios no Sul.

¶14Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis. É a região onde ele tem menos voto, 30%. Na cidade de São Paulo não fez nenhum. Seis dias de trabalho no Planalto, isso é inevitável. Três dias em Nova York na ONU.

¶15Não é só agenda. Eu abri a biblioteca de anúncios da meta Instagram e Facebook, que é pública. O TC é obriga que seja pública. Na última semana a campanha de Lula gastou mais de R$ 2 milhões deais em anúncios. Normal.

¶161/4arto disso foi para peças mostradas só mulheres. Que peças? A que mais recebeu dinheiro fala do aumento do Bolsa Família. A segunda do Farmácia Popular, ou seja, quando a campanha fala com a mulher, fala com a que já recebe o Bolsa Família. E essa, essa já vota em Lula, não é ela indecisa.

¶17E tem pior, tá? Paraa mulher que se vira Bolsa Família não é conquista de governo, é o mínimo. Nas pesquisas do Meirelles, quando você pergunta quem vai realizar os sonhos dela, quase metade bate no peito e responde: "Eu mesma". O governo federal: "%. Quem disse melhor foi o Washington Quaquá, vice-presidente do PT em público.

¶18Enquanto o Flávio vai ao supermercado falar da vida real, Lula fala de terras raras. E o Flávio na televisão ele acerta. O primeiro programa dele foi gravado numa casa de Bahia. Fala de dívida, de juros, tem até bordão. Lá em casa quem manda são elas.

¶19Michele Bolsonaro entrou na propaganda. É só que o corpo do candidato não foi junto. Nessas duas semanas, Flávio fez motocarreada em Juiz de Fora, Boa Vista. Belém, Juazeiro do Norte, Vitória da Conquista, Joinville, Natal, periferia de São Paulo do Rio de Belo Horizonte, nenhuma. E no palanque de Joenville, um dia depois do reajuste, chamou o Bolsa Família de Migalha.

¶20Os anúncios dele que não escolhem sexo chegam na chegam na prática um público de três homens para cada mulher, tá? Pois é. Um fala com ela na TV e manda o dinheiro dos anúncios para quem já é dele. O outro fala com ela na TV e vai fazer motocarreata no Nordeste. Nove em cada 10 brasileiros da classe C dizem que político não houve gente como eles.

¶21As duas campanhas estão confirmando e ela, a mulher que vai decidir nosso destino, ela decide tarde. Em agosto, a Quest perguntou quando o eleitor bate o martelo. 21% das mulheres disseram só na última semana. Entre os homens, 16. E no painel da locomotiva que acompanhou eleitores semana a semana, as mulheres estão entre os que mais mudam de ideia.

¶22Faltam 12 dias. Mas então o que que funciona para conquistar o voto dela? Vem comigo. Uma pista não é comício. Eu sou Pedro Dória, editor do meio.

¶23Olha, você acabou de ouvir que nove em cada 10 brasileiros da classe C acham que político não houve gente como eles. Pois é. Ouvir dar trabalho, ouvir custa caro, é pesquisa de campo, é gente perguntando, é sentar e escutar a resposta que às vezes a gente não quer ouvir. É o que a gente faz na meia ideia, a nossa pesquisa, de onde saem os números que eu trago aqui toda semana. E olha, eu vou ser honesto com você sobre o nosso negócio.

¶24O que sustenta empresas como a nossa são os anos de eleição. É quando as pessoas assinam para entender o que que tá acontecendo. Nesse ano não tá acontecendo. Essa eleição com menor interesse da população desde 1989. E pro jornalismo que não faz torcida é pior.

¶25As pessoas preferem quem lhes diz o que desejam ouvir. Não é o que a gente faz, não é o que a gente vai fazer. A gente abre a planilha, seja de quem for, temos comentaristas à minha direita, comentaristas à minha esquerda e centristas como eu. Se o jornalismo do meio é importante para você, assina. Sim, eu sei.

¶26O ano tá difícil, tá difícil para todo mundo, mas é o valor de um shop por mês. E esse ano, esse ano a gente precisa como nunca. Esse aqui, esse é o ponto de partida. [música] A campanha de Lula até percebeu que tinha um problema com esse grupo em geral e essa mulher em particular. Só demorou a entender qual.

¶27No dia 10, o governo, enfim, acabou com a taxa das blusinhas. No dia 14 Lula sancionou crédito do BN10 para motorista de aplicativo comprar o próprio carro. Chegou meio tarde, né? Durante do anos, o governo taxou o estoque da sacoleira e tentou enquadrar o motorista de aplicativo num regime com piso e NSS obrigatório. Eles foram pra rua contra.

¶28O Meeres conta de uma mulher que explicou porque não queria a carteira assinada. Não era preguiça. Claro que não. É que com o carteiro ela não escolheu horário de ser mãe. Ela não despreza o estado.

¶29Que a escola posto de saúde, juro mais baixo, ela só não quer ser salva. Um eleitor que ele ouviu resumiu numa frase só: "O meu partido é o da fila que anda." Tá? Então como é que chega nela? Aqui a ciência política contraria o instinto de todo o político brasileiro, tá? Nos Estados Unidos, pesquisadores testam campanha como se testa remédio, sorteiam eleitores, metade recebe o cabo eleitoral da porta, o telefonema, o folheto, o anúncio, a outra metade não.

¶30Depois comparam o voto dos dois grupos. Dois cientistas políticos, o Joshua Cala e o David Brookman, juntaram 49 experimentos assim. Em eleição geral, o efeito médio sobre o voto foi zero. E com isso, os estudos acham efeito pequeno, que somem em poucos dias. Serve para animar quem já tá convencido.

¶31No fim das contas, a história é a seguinte, é pregar para quem já tá convertido. Mas tem uma conversa que não muda voto, não é do cabo eleitoral, é do vizinho. Em 2002, três cientistas políticos acompanharam eleitoras de Juiz de Fora, a mesma cidade da motocicarata ali do Flávio. E durante a campanha inteira eles fizeram esse acompanhamento. Quem mudou de voto, mudou conversando no bairro com a vizinha, com a parente.

¶32A onda que levou Lula ao Planalto passou de conversa em conversa. E tem um experimento mais útil, tá? Uma semana antes do primeiro turno de 2022, Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes, o responsável pela Quest, mostraram vídeos de campanha a 1500 eleitores que não votavam nem em Lula, nem em Bolsonaro. O vídeo que atacava Bolsonaro entre os indecisos não mexeu um traço. O vídeo em que Lula olhava pra Câmara e dizia que o voto daquela pessoa decidia a eleição, 12 pontos, medido na hora, tá?

¶33E boa parte da reta final de Lula tá no ataque a Flávio pelo Banco Master. Justamente o vídeo que não funciona. Tem um momento dessa campanha que chegou bem perto disso. Na sexta, Lula passou amanhã na rádio Tupi, no programa da Isabela Benito aqui no Rio de Janeiro. Falou de feminicídio, de quem lava louça em casa, de preço da comida, da escala 6 por1.

¶34Não falou em terras raras. foi a conversa mais parecida com a vida dela que ele teve nessa campanha. Uma em 12 dias precisava ser todo dia. Só que o fio de chance não é só do Lula. Cá entre nós, em 2022, nessa mesma semana, a quest acertou quase em cheio o voto de Lula e errou de Bolsonaro por cinco pontos.

¶35O eleitor que decidiu tarde foi pra direita. E na classe C hoje, Lula é mais rejeitado que Flávio. 57 contra 53. Se Flávio descer do trio elétrico e sentar na sala dela, pode levar. Se continuar chamando o Bolsa Família de Migalha, aí não leva.

¶36Faltam 12 dias. As duas campanhas t dinheiro, tempo de televisão, marqueteiro. O que nenhuma fez é o mais barato. Bater na porta, sentar, ouvir. No fim é disso que uma democracia é feita.

¶37de quem pede o voto e até quem vota. Não, o contrário. Quem chegar primeiro na sala dela leva o Brasil. 1989. Desde então, nunca uma eleição presidencial despertou tão pouco interesse no brasileiro quanto essa também, né?

¶38Segundo nossa pesquisa, Meia Ideia, 42% dos brasileiros vem os grupos de Lula e Flávio Bolsonaro como igualmente corruptos, quase metade do país. O resultado é cansaço, desesperança e muita gente simplesmente deixando de prestar atenção. Mas a gente tá remando contra corrente. O meio acompanha pesquisas, entrevista especialistas, debate pontos de vista e mantém ativa uma produção que inclui newsletters, programas ao vivo, podcasts, documentários e análises para tentar entender o país que vai sair dessa eleição. Olha, sem escolher candidato por você, tá?

¶39Sem transformar jornalismo em torcida. Mas um jornalismo que se recusa a entrar na torcida também precisa de quem acredite nele. Assine o meio premium. São R$ 15 por mês para apoiar [música] o meio a continuar fazendo esse trabalho todos os dias. >> [música]