a tese
Pedro Doria sustenta que a eleição de 2026 será decidida por uma eleitora específica, mulher de classe C, católica, chefe de domicílio no Sudeste, que saiu do voto em Lula sem migrar para Flávio Bolsonaro, e que nenhuma das duas campanhas está indo falar com ela.
aprofundar
talvez
o valor está na parte metodológica (a metanálise Kalla e Broockman e o experimento de 2022 sobre que tipo de peça move indeciso), útil para pensar persuasão em geral; o resto é análise eleitoral de conjuntura com dois blocos de venda de assinatura.
O que foi dito
- Abre com o contraste de agenda: Lula entregando camisa do Corinthians a Zohran Mamdani em Nova York enquanto Flávio fazia motocarreata de 15 km em Natal, e a eleitora decisiva em casa em Guarulhos, Duque de Caxias ou Contagem.
- Compara a Quaest da mesma semana de 2022 com a de agora, mesmo método domiciliar: Lula caiu de 44% para 37%, Bolsonaro tinha 34% e Flávio tem 33%, ou seja, o filho não herdou nenhum voto perdido pelo petista, e os indecisos subiram de 5% para 8%.
- Detalha os recortes: entre mulheres, indecisos mais brancos e nulos foram de 12% para 20%; no Sudeste, de 10% para 21%; na faixa de 2 a 5 salários, de 9% para 18%; entre quem tem ensino médio, Lula caiu de 42% para 30%.
- Desenha o perfil com dados do Instituto Locomotiva de Renato Meirelles: mais da metade dos lares da classe C é chefiada por mulheres (era um quarto no início do século), quase metade trabalha por conta própria, e ainda 22 horas semanais de trabalho doméstico.
- Marca a variável religiosa: a evangélica já se decidiu (Flávio subiu oito pontos entre evangélicos na última semana), e a disputa está na católica indecisa ou disposta a anular, fatia que quase dobrou desde 2022, de 9% para 17%.
- Lista as preocupações dela: violência em primeiro, preço da comida (sete em dez mulheres relatam alta no mês), e a novidade da corrupção, que saltou de 11% para 20% entre mulheres depois do caso Banco Master, com a avaliação negativa do governo entre elas subindo de 33% para 39% em sete dias.
- Mostra o descasamento da campanha de Lula pela biblioteca pública de anúncios da Meta: mais de 2 milhões de reais na semana, um quarto em peças dirigidas só a mulheres, e as duas mais caras falam de Bolsa Família e Farmácia Popular, ou seja, falam com quem já vota nele.
- Acrescenta que, nas pesquisas do Locomotiva, quase metade dessas mulheres responde “eu mesma” à pergunta sobre quem vai realizar seus sonhos, contra percentual ínfimo para o governo federal, e cita Washington Quaquá dizendo que Flávio vai ao supermercado enquanto Lula fala de terras raras.
- Concede que Flávio acerta na televisão, com programa gravado em casa da Bahia, tema de dívida e juros, bordão e presença de Michelle Bolsonaro, mas nota que o corpo do candidato não vai às periferias e que ele chamou o Bolsa Família de migalha em Joinville um dia depois do reajuste.
- Traz a literatura empírica contra o instinto dos marqueteiros: a metanálise de 49 experimentos de Joshua Kalla e David Broockman encontra efeito médio zero da persuasão de campanha em eleição geral.
- Contrapõe o que funciona: estudo de 2002 em Juiz de Fora mostrando que quem mudou de voto mudou conversando com vizinha e parente, e experimento de Frederico Batista Pereira com Felipe Nunes na véspera do primeiro turno de 2022, em que o vídeo de ataque a Bolsonaro não moveu indeciso algum enquanto o vídeo em que Lula olha para a câmera e diz que aquele voto decide a eleição moveu 12 pontos.
- Conclui que a reta final de Lula está concentrada justamente no ataque pelo Banco Master, o tipo de peça que a evidência diz não funcionar, e que a única conversa parecida com a vida dela foi uma entrevista à rádio Tupi com Isabela Benito.
- Alerta que a Quaest errou Bolsonaro por cinco pontos em 2022 porque o eleitor que decide tarde foi para a direita, e que hoje Lula é mais rejeitado que Flávio na classe C (57% contra 53%).
- Intercala duas peças longas de assinatura, com o dado de que esta é a eleição de menor interesse popular desde 1989 e que 42% veem os dois grupos como igualmente corruptos.