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Cora com conjuntivite e a escrita com IA | Pedro+Cora

¶1Qual era Rona? E de que falaremos hoje em Pedricora? >> De um monte de coisa, mas a gente começa com chatt. >> É, eu quero muito saber como é que você escreve sem olhar. Quero muito.

¶2Então vamos. Corá, me fala como é que é viver digitalmente sem enxergar e, portanto, sem poder ler. >> Cara, não é viver, é sobreviver, né? Mas olha aqui, a gente tem falado muito nas ameaças da da IA e nos problemas, mas vamos elogiar o que deve ser elogiado, louvar o que tem que ser louvado, porque olha, eu estou com essa conjuntivite viral. É uma coisa sinistra, não é um uma coisinha parecida com aquela com aquela conjuntiv bacteriana que a gente pega o tempo todo, pinga colita.

¶3Aham. duas ou três vezes e melhora. Isso aqui não melhora. Isso aqui leva séculos para melhorar. E isso aqui, a coisa mais complicada disso é que você não enxerga porque fica embaçado.

¶4É como se pusesse um fosco na frente. Então >> você não consegue ler e você não consegue escrever. E eu sou um animal que vive da escrita, >> da escrita, >> né? e da leitura, mas sobretudo ganho o meu dinheiro escrevendo. E como é que eu ia fazer essa semana se não fosse a Iá?

¶5Eu não tinha conseguido escrever a coluna. Então, >> e como é que foi? Eu eu eu não sei se eu conseguiria. >> Ah, mas foi foi um processo interessantíssimo. Foi um processo interessantíssimo, porque eu tava >> deixa, deixa, deixa, deixa eu te interromper porque isso é, é, é, é, e, e, e eu quero te ouvir, mas deixa eu expor aqui a coisa para para você.

¶6Eu vivo eu vivo isso aqui em casa, né? Porque a Lia, eh, minha mulher, ela usa muito inteligência artificial, ela trabalha muito, tem muito trabalho de escritório, de fazer contrato, fazer eh eh fazer propostas, tal. Quer dizer, a a vida dela não é de certa forma muito diferente da minha, no sentido de que ela tá o tempo todo processando dados e transformando esses dados em informação escrita. Só que a Lia é uma pessoa que é formada em em educação física, eh foi professora de yoga quase toda a vida, agora tá fazendo uma transição de professora de yoga para corretora de móveis. enquanto eu sou jornalista e fui jornalista toda vida e sigo sendo jornalista, escritor.

¶7Então o meu trabalho sempre foi escrever, o trabalho dela passou a ser escrever agora. E o interessante que eu acho é que ela na nossa, ela tem praticamente uma idade do anos mais nova do que eu. Eh, a vida dela é oral, Coran. Ela dita pro computador, ela dita pro celular, ela explica, o computador responde e ela e é e é eu acho fascinante porque eu acho fascinante para o seguinte, eu já tentei fazer isso, começar a ditar pro pro cloud, olha, faz isso, faz aquilo. Aí tem uma hora que eu não consigo organizar os meus pensamentos se eu não tiver escrevendo.

¶8>> Eu eu não tenho a capacidade de me organizar mentalmente se não for por escrito. Eu >> eu não sou capaz eu não sou capaz de falar as coisas. Eu não sei nem como é que eu faço isso aqui que a gente faz. >> Não, olha aqui. Olha aqui.

¶9A pessoa que eu primeiro conheci que ditava direto era Diná Silveira de Queiroz, a escritora. altura de muralha. >> Aham. Diná ditava os livros dela. Tinha um uma secretária que fazia, como é que se chamava aquela escrit?

¶10>> Eu eu lembro. Tinha aquele tinha aquela taquigrafia, né? >> Taquigrafia. Então ela tinha uma secretária que taquigrafava tudo que ela dizia. E ela >> ela ficava em pé e editava o livro.

¶11E eu admirava isso porque para mim falar nunca foi particularmente difícil, mas escrever são 500. Ah, e eu nunca consegui raciocinar sem ser por escrito também, mas essa semana eu não tinha como escrever. Não estou conseguindo. Ponto. Eu consigo fazer algumas mensagens no WhatsApp porque eu tenho um aquele negocinho de escrever aquele teclado que você puxa o dedo para cá e para lá em vez de digitar as teclas.

¶12Uhum. >> Então isso isso é mais fácil de escrever do que você ter que procurar tecla por tecla. Mas é só, eu tô tendo que usar, quando eu olho alguma coisa no computador, eu aumento 150 a tela, aí não fica um caos também. Enfim, eu estou completamente privada dessa função de leitura e escrita também. Mas aí eu tava bem desesperada.

¶13terça-feira de noite no meu quarto, não, eu ainda não tinha, inclusive noção de que essa coisa ia demorar tanto tempo e e que ia piorar tanto. E aí eu tava deitada e peguei meu telefone e comecei a conversar com o chat. Eu digo: "Olha, eu preciso escrever uma coluna amanhã e eu tô pensando em escrever sobre esse problema do fim do mundo, das que desse alarme que tá suando." E aí ele disse: "Ah, vamos escrever juntos". Eu digo, "Vamos embora". E aí o que eu fiz foi o seguinte, eu ditava um parágrafo, a minha forma de escrever é a seguinte: eu vou escrevendo, eu mais ou menos começo com um parágrafo na cabeça, depois eu leio e vou adiante, né?

¶14Aquela coisa, ou a gente vai direto, mas é muito leitura e releitura, leitura e releitura, porque eu sou uma pessoa que catamilho. Eu não sou como você, >> né? Você escreve com os 10 dedos, então você chega >> com dedos e com olho na tela. >> É, o teu texto tá mais pronto na tua cabeça do que o meu. Eu >> eu não sei, eu não sei o que que acontece na minha cabeça, não, porque não é que meu texto esteja pronto na cabeça.

¶15Eu não tenho um texto na cabeça, mas eu tenho, obviamente, porque eu sento e escrevo. >> Pois é. Eu eu tenho que olhar para os meus dedos, então eu vou pensando à medida que o texto vai se formando. Então eu fiz esse primeiro parágrafo, o chat escreveu e aí disse: "Olha, eu digo, repete o que que eu disse". Aí ele repetia o que eu falei.

¶16Eu digo, o que que dá para melhorar? Aí disse: "Não, aqui você pode melhorar isso aqui, tirar essa palavra". Ah, põe aquela ali. E foi esse processo. A gente fazia um parágrafo, ele corrigia aquele parágrafo, eu fazia um segundo parágrafo.

¶17Aí ele me lia os dois parágrafos. Foi muito demorado por isso, porque eu também não conseguia imaginar cada parágrafo solto, né? Então, no fim do texto tava uma África, porque todo o fim do texto ele tinha que ler tudo desde o começo. Aí eu pedia para ler de novo em alguns casos, mas consegui. Consegui, >> conseguiu.

¶18>> Foi foi uma uma coisa e pedi informações para ele. Eu disse: "Olha aqui, quem foi mesmo? O Dário Amodei escreveu, mas quem mais concordou? o Sama Altman, o Ilon Musko, ele ele foi complementando essas informações. Então, é possível escrever com ele e a coluna ficar com a minha voz.

¶19>> É, não, eu super acho que deve ser mesmo possível. Eu eh eu eu t eu enquanto você tava falando, eu tava pensando em como que é o meu processo de escrita e eu me toquei. Engraçado que eu nunca penso sobre isso. Eu me toquei que tem uma parte do meu processo de escrita, talvez seja parecido com você, que tem uma certa música, cer, sabe? Sim, >> tem um ritmo.

¶20Eu, na verdade, eu tô pensando as as palavras e o ritmo das palavras e o ritmo das frases, uma encadinhaando outra. Tem um tão quer eu acabei fazendo um pentâmetro eâmetro, né? Mas eh >> mas a gente tem uma cadência é é o o que o Shakespe escrever assim, né, no tan t, >> né, to be or not to be, that is the question, né? Né? Eh, eh, e, e, e, eu não sei exatamente qual é o ritmo, não sei se eu saberia fazer qual o ritmo da minha cabeça, das minhas frases.

¶21Como sei que você escrever inversa é mais óbvio. Eh, mas tem um ritmo. Eu tenho certeza que todas as minhas colunas, todos os meus textos têm um mesmo ritmo que se repete. Aliás, você gravou no outro dia um vídeo que eu gostei tanto, parecia música, o das palavras indígenas, aquilo, aquilo. Ah, bonito aquilo é é >> sensacional.

¶22Ficou muito, você fez muito bem aquilo. >> Eu tô, sabe, fazendo essas séries de vídeos. Eh, eu eu eu ando muito abatido com o Brasil e e e abatido, sabe, com com um clima de ódio que se instaurou, entendeu? De a gente essencialmente, eu eu eu odeio quando as pessoas começam, ah, falsa equivalência e tudo mais. E eu entendo porque o Lula não vai tentar um golpe de estado.

¶23O Lula jamais tentou um golpe de estado. E Jair Bolsonaro tentou um golpe de estado. Então é diferente. Eu sei que é diferente, mas tem uma hora ali quando você fala paraas torcidas de ambos os lados que a maneira como elas se odeiam é igual, sabe? É uma coisa de eh a direita não pode existir, essa direita não pode existir, as pessoas de direita não podem existir, isso tem que ser exterminado.

¶24É muito parecido com a maneira, com a coisa do Bolsonaro. A esquerda a gente vai levar pra Ponta da Praia. tem um tem uma afeto, uma emoção ali e cada vez mais a gente vê as coisas eh o o diabo da política identitária. E aí eu não tô falando só da política identitária de esquerda, porque a política do bolsonarista é identitária também. é aquela coisa de você se envolve, você entende a sua personalidade como eh uma identidade e você tem uma tribo e e a outra tribo precisa ser eliminada.

¶25É como se você tivesse numa disputa de eh como se você tivesse numa disputa existencial. A a a vitória do outro ou a existência do outro é uma ameaça à sua existência. Eh, e isso me deixa numa bad assim, sabe? Numa bad trip horrorosa. >> Eu sei.

¶26É um é um nível de ódio com que a gente não consegue lidar. >> E e é um recontar da história do Brasil pelos dois que é transformar a história do Brasil numa história trágica, entendeu? Nós somos eh frutos de um genocídio, nós somos frutos de um extermínio, nós somos frutos deores. >> A Mary foi absolutamente destroçada, >> atacada, porque escreveu um livro sobre mestiçagem. >> E é uma história falsa.

¶27Cora, Cora, sabe uma coisa que se você sair na rua, uma verdade histórica a respeito do Brasil, que se você sair na rua disser trucidado pela esquerda. A população branca do Brasil não é fruto de uma elite branca malvada que vem do Brasil colônia. A população branca do Brasil é fruto de europeu pobre que veio no século X, final do século XIX, início do século XX, com uma mão na frente, uma outra trás. >> Italianos, todos >> italianos, alemães, judeus acho que nazitas, portugueses, espanhóis, eh japoneses também. muito, >> entendeu?

¶28Várias ondas migratórias de principalmente gente branca, lembra japoneses, principalmente gente europeia, gente muito pobre, muito ferrada. A população branca brasileira é branca por causa desse pessoal. A elite do império, a elite da colônia era toda mistiça, era toda de pele escura. Você pega retrato de visconde, de barão do império, eles eram todos cabocos, eles eram todos mulatos. a elite colonial horrorosa, bá bá, entendeu?

¶29Os bandeirantes, esses genocidas, as mães dos bandeirantes eram todas indígenas. Aquela coisa de meu Deus do céu, vocês não entendem o que que é a história do Brasil, vocês não entendem a formação desse povo. Sim, houve escravidão. Eh, sim, houve muita morte. Eh, sim, era terrível para mulheres o século X, o século XVI era terrível para mulheres, mas era terrível para mulheres na África, era terrível para mulheres na Europa, era terrível para mulheres, >> era terrível para mulheres ponto em qualquer lugar, né?

¶30Na China ele na China eles amarravam os pés >> para ficar miúdo >> nas moças de elite. Quer dizer, você era criança, os teus pés eram amarrados e você passava o resto da vida com os pés totalmente incapacitadas, não conseguia andar. Tinha >> uma coisa horrorosa, porque uma mulher bonita tinha que ser uma mulher com sapato 31. >> É, tinha que tinha que ter pés pequenos, tinha f lotos. Não, troço e o o o mundo foi civilizando graças ao Iluminismo, entendeu?

¶31Graças a >> estava longe de se civilizar. Mas você sabe que eu acho que há uma diferença >> entre a violência online da esquerda e a violência online da direita. A esquerda quer destruir reputações, a direita te xinga pessoalmente e a destruição de reputação dói mais e é mais grave do que a pessoa xingar você. >> A, eu acho que depende. Algumas das nossas colegas, a direita tem uma das formas eh o o as duas as duas matilhas são muito muito mais agressivas com mulheres do que com homens.

¶32as duas >> são >> eh mas a direita faz uma coisa com nossos colegas jornalistas eh de produção de imagem falsa, de sexo explícito, esse tipo de coisa, é muito agressivo. Isso a esquerda não faz. Eh, isso a matriha de esquerda não faz. a matri de esquerda vai na Agora veja, eh, muita gente de esquerda ameaçando de estupro, ameaçando de, eh, entendeu, de violência sexual também. Eh, mas não tem essa produção e distribuição de imagens.

¶33Agora, sim, tem a coisa da destruição da reputação. Você quer destruir a maneira como a pessoa faz a vida. Você quer a demissão da pessoa, você quer e destruir a Isso é uma coisa que a esquerda faz e e a direita não faz. >> São agressividades diferentes. Mas eu não eu eu recebi cinco ameaças de morte eh de de direita eh eh desde o a eleição do Bolsonaro.

¶34Esse ano eu recebi a primeira ameaça de morte de gente de esquerda. Eh, eu eu ainda tenho impressão agora eu tenho nós temos uma colega que eu considero uma das melhores repórteres desse Brasil hoje, de longe, eh, que ela diz que para ela é pau a pau e ela nunca viu muita diferença eh na agressividade da esquerda e na agressividade da direita. Mas eu tô falando tudo isso, Cara, pelo seguinte, você tá falando desse meu vídeo eh sobre a presença do tupi no nosso vocabulário. A lógica desses vídeos que eu tô fazendo no meu Instagram, eu acho que tá dando certo, tá tocando, eh, tô tentando lembrar das pessoas o que que a gente tem em comum. Eu eu tô tentando lembrar as pessoas de que ser brasileiro é legal, tem é é essa a mistura faz da gente um povo interessante, sabe?

¶35É, a mistura é legal. A, a mistura não é uma violência, >> é ótima. Eu, ó, sabe quando eu me dei conta disso? >> Porque a gente nasceu na mistura. Nós estamos acostumados a ir pra rua e encontrar um povo inteiramente diferente na rua.

¶36Uma pessoa não tem nada de parecido com a outra. Cada pessoa >> é outra pessoa, tem uma cor diferente, tem um cabelo diferente, uma cara diferente, um jeito diferente. Aí eu fui passar, sei lá, duas semanas com a minha mãe em Gotemburgo ou uma semana, 10 dias, sei lá, num campeonato mundial de natação na Suécia. E eu tava sentada na na praça tomando café com ela e me dei conta de que a não mistura é muito tediosa, porque passavam aqueles suecos lindos pra gente. Parece tudo gente saída de uma passarela de moda, porque é gente magra, alta, com aquele nariz empinado, louros dos olhos azuis, todos os clichês que você possa juntar tão ali.

¶37Aí primeiro passa uma mulher, assim, caraca, que espetáculo aí passa um homem e diz: "Meu Deus, é um viking" e por aí vai. >> Bem, é literalmente um viking, né? >> É literalmente um viking, sim. Claro. Só falta aqueles chifrinhos que, aliás, eles nunca usaram.

¶38nunca usaram. Exatamente. Mas >> é tipo, são eles, >> são eles, né? Aí, mas te digo que depois de 5 ou 10 minutos disso, você começa a sentir uma falta louca de gente diferente. Gente, cadê o pessoal que não saiu da passarela de moda?

¶39Cadê o pessoal que tava ali na esquina? Cadê cadê cadê a gente? Cadê gente de verdade no meio desses deuses e manequins e modelos e criaturas que desceram do Olímpo, sabe? Porque não tinha ninguém com menos 1,80. E então você começa a sentir diferença até nisso.

¶40Você di, não, mas isso é chato. E você começa a entender porque que nos sonhos de toda a menina loura é um cara de olhos escuros. que ele sabe >> moreno dos olhos escuros, todo mundo fica fascinado pelo oposto, mas eu eu ali me dei conta disso. Engraçado, porque eu tive na Coreia e tive no Japão e tive na China, onde você tem uma uniformidade absoluta visual, mas como você tá no Oriente e como você tá na China ou como você tá na Coreia ou como você tá no Cambója, que você de uma certa maneira se preparou para encontrar um tipo só. Você tá no Oriente, então você nunca sente essa sensação das pessoas iguais, porque você tá entre pessoas diferentes, você parte desse princípio desde do começo.

¶41>> Uhum. >> Na Suécia, de repente, você tá entre gente ocidental, >> tá? E aí contemplando a você mesmo, a você que é uma pessoa de origem europeia, ocidental, enfim, você chega à conclusão que is é igualmente monótono, esquisito, que é pior do que que a nossa mistura é uma maravilha. Eu quando voltei dessa viagem de Gotemburgo, aí eu ia aqui para Ipanema, olhava as pessoas diz: "Ah, isso que é legal, que país bom". Meu, >> você sabe que eu, você tá falando, ah, você que é de origem, é que você é escenazita.

¶42Eh, >> eu não sou nem de origem, quer dizer, sou de origem europea, as carnasitas são europeus, mas >> é é o o o o DNA é igual de sefaradita, né? É mais parecido com o Cfaradita. Você sabe que tem esses estudos, né? DNA, acho que nas Itíitas é mais parecido com de cefaraditas do que com de qualquer europeu, >> né? Não sabia disso >> não.

¶43Você acha que você é europeia e e tudo mais, porque a per de fato ficou branca, mas mas o seu o seu DNA é todo levantino, todo levante. >> Você sabe que um dia eu fiz um aquele 23 and me de pesquisa genética >> deu 99% as quenazit. 99,9% acho que nós eu tava louca para ter uns ciganos lá ligados no meio do caminho. >> Davestade deu a mesma coisa. >> Foi.

¶44Ele é a única pessoa que eu conheço que tem o DD exatamente igual ao meu. >> É, mas mas eh tem uns estudos recentes, o último paper é um paper de 2013. Eh, o o código genético mais parecido que existe, o grupo fora do mundo esquerazita, o o grupo humano com código genético mais parecido com os asquinazitas são os sefaraditas e os misraim. Ah, que coisa curiosa. >> Tipo, é o mesmo povo.

¶45>> É o mesmo povo. Mas olha, quando quando eu >> É que a gente a gente dá muito valor pra cor da pele e a gente acha que é isso que faz a diferença, não é? Os Mraim parecem árabes, você parece uma leste europeia e, no entanto, o povo Vamos só, >> cara. Eu eu quando eu tô na Hungria, quando eu quando eu tô ali naquela Europa central, eu digo: "Ah, OK". Sabe?

¶46Tipo, é como se eu tivesse andando na rua ali do lado. Mas >> agora eu vou te dar, >> ó, só só terminar de te contar esse negócio 23. Eu gastei um dinheiro antes na época era muito caro. >> Sem dod, >> eu adopter sempre, né? Das coisas.

¶47>> Não aguento. Tenho que fazer. custava vários, sei lá, $2. Era caro, era caro. >> É, não era?

¶48>> E aí eu comentei, cheguei em casa com isso, digo: "Ah, que droga, né? Gastei esse dinheiro para descobrir que eu sou 99,9%". Aí, mas por que que gastou isso tudo? Eu podia ter te dito isso de graça. >> Agora, qual era?

¶49Sabe qual o outro povo que tem o DNA completamente igual? Hum. >> Palestinos. >> É mesmo. >> Palestinos têm sangue mais igual dos judeus do que dos.

¶50>> Mas é é aquele pedaço ali. >> O levante é todo mundo dali. É todo mundo dali. É todo mundo do levante. É 10.000 anos.

¶51Eh, judeu europeu, palestino é igual a árabe. E e não, não, o povo o povo é o povo de Canaã. São os cananeus que se buifurcaram em dois povos. Eh, eh, um, um desses dois povos que eram samaritanos foram convertidos ao islã na invasão árabe. Mas os árabes eram os invasores, esses que foram convertidos ao islã é a turma que nós chamamos de palestinos hoje.

¶52>> Os que não se converteram ao islã é a turma que nós chamamos, chamamos de judeus hoje, mas essencialmente o mesmo povo. >> É isso mesmo. Não. E você vê que coisa curiosa >> que quando você pega os iranianos, eles são diferentes do resto. >> Não, eles são persos.

¶53>> Eles são persos. >> É outro povo uniforme faz 10. >> É, >> é homogêneo para caramba. >> Como os afegãos. >> Eh, e, e, e você vê, eu sou eu sou de família velha brasileira, né?

¶54A maior parte dos meus sobrenomes já tavam aqui no a a maior parte dos meus sobrenomes já estavam aqui no no século X, nos 1500. E diferentemente do de você, o meu 23 me eh vai para todo lado. >> Ah, eu adorei. >> Passei por todos os continentes. >> Isso é muito divertido, né?

¶55passeia por todos os continentes, uma mistureba de tudo quanto é pedaço da África, do Norte, o Moro do Sul Preto. Eh, agora o o lado europeu é fundamentalmente ibérico italiano. Eh, tem um pedaço relevante de asiático, que não é asiático, é tupi, né? Eh, é que os tupis são aparecem nesses códigos genéticos como asiático. Olha, >> eh, eram os deuses astronautas ou o que que aconteceu com a Terra?

¶56Enfim, tem uma coisa esquisita, né? >> Deuses astronautas não são não. Sou estupis mesmo, Clara. e comil gente literalmente. Eh, mas essa coisa do embranquecimento porque, eh, eu tenho uma noção muito clara por conta de retrato de família de quão rápido você embranquece.

¶57Eh, meu pai é moreno. Minha mãe, a mãe da minha mãe era era de tinha pais portugueses. Dos, dos meus bisavós, eu tenho do um casal de bisavós que eram portugueses. Todo o resto é brasileiro de séculos, mas tem esses bisavós que são os avós da minha mãe que eram portugueses. Eh, e e minha mãe era loura e eh e muito branca, né?

¶58tinha uma pegada vigor ali no quer dizer pelo lado do meu avó dela era Judinha, mas eh e e dita, né? Mas materna uma pegada meio visigótica e meus irmãos são louros. Eu fui eh, eu tenho filho de olho verde porque minha mulher eh, mãe dele também tinha tinha uma coisa alemã lá na família, tal. Eh, e meu pai era percebido como preto nos Estados Unidos. É, é muito louco, né?

¶59Eh, meu pai nos Estados Unidos era percebido como preto. Eh, preto claro, mas preto, porque nos Estados Unidos é aquela coisa, né? É. >> Eh, botou um pouco de melanina, você já é. Aqui no Brasil é aquela coisa, se ele fosse mais pobre e se vestisse de maneira pobre, ele seria mais preto.

¶60Como ele é de classe média alta e professor doutor, aí ele é branco. >> Ele é branco. >> Que o Brasil o o olha pra cor de pele com uma característica de classe, né? Eh, agora o o os as fotos, o meu pai tem fotos de tios bisavós meus que são homens pretos e são a minha cara, só que são pretos. >> Eh, e eu tenho >> e eu tenho filho com olho verde, entende?

¶61É, é, é essa coisa do embranquecimento, quatro gerações resolve. Esse esse resolve, evidentemente, entre aspas, mas é só paraente como esse negócio engana. Então, é por isso que a gente tem 40 e poucos por da população brasileira branca. E e aí criou-se esse mito de que é uma herança colonial e não não é uma coisa da república. Foi república o império no finalzinho do império, mas essencialmente república que trouxe um bando de europeu eh para cá.

¶62E e são essas pessoas que chegaram no final do século XIX para cá, que fizeram com que o Brasil se tornasse um país com 40%, 42% da população branca. Não, não é quem tava aqui antes, não é, não é a o nosso passado escravagista, não é nosso passado colonial, porque isso aconteceu depois da escravidão. A gente era um país caboclo e mulato. E é isso que eu eu não li ainda o livro da Mary, mas é claro que é essa história que a Mary conta, porque essa é a história de verdade do Brasil. E e e a gente negar a mistiçagem é negar a nossa natureza, negar que tipo de povo nós somos.

¶63Porque a gente não é povo, não é não é misturado só no nosso sangue, a gente é misturado na nossa língua, a gente é misturado eh a gente é misturado nos nossos hábitos. Eu lembro de uma vez eu entrevistando Alberto Costa Silva. Alberto da Costa Silva era embaixador. Você obviamente sabe quem era. Tô falando.

¶64>> Extraordinário, cultíssimo, brilhante. >> Gostava muito. >> Era o diplomata brasileiro mais apaixonado que o África. Mais apaixonado. Ele, ele é o maior historiador brasileiro do século XX de África.

¶65Ele escreveu vários livros espetaculares. Eh, o meu favorito é um chamado Amanilho Libambo. >> Eh, >> tem as padelança também, não? >> Tem as padelança também e tal. Ele tem um um a história, ele tem uma biografia também de de um eh eh de um traficante de escravos.

¶66Então ele tem vários e eh enfim, uma vez eu tava entrevistando ele para uma para uma coisa qualquer sobre história e ele falou uma coisa tão bonita que ele se virou: "Olha, eu sou diplomata, eu morei em todos os continentes, eu vivi em tudo quanto é Tem um lugar do mundo que eu já vi gente dormindo em cima do muro, tipo deitar em cima de um muro e conseguir dormir na África e no Brasil. São os únicos lugares no mundo em que as pessoas dormem do muro, tipo, tira uma cesta em cima do muro. Eh, a gente é melhorada até nos hábitos, a invenção dos nossos hábitos, entendeu? E é tipo, outro dia a gente tava comendo e eu eu fiz pras crianças eh no fim de semana peixe e com farofa e tava todo mundo comendo. Ah, comida brasileira, né?

¶67Não, gente, vocês estão comendo isso aqui um típico prato tupi. Peixe com farofa. Você pensa nisso como uma coisa absolutamente brasileira, né? Olha, já comiam peixe com farofa quando os portugueses chegaram aqui. E a gente continua comendo hoje e achando a coisa mais natural do mundo.

¶68Peixe com farofa. >> Entendeu? Que é farinha de mandioca, né? Estourada ali na panela. Mas a eh >> a identidade do país é muito complexa, né?

¶69É muito interessante isso, porque você vê, eu sou filha de um cara da Hungria, cuja família, o que você sabe, esteve na Hungria e na Alemanha por ali o tempo todo. A tinha uma senhora da Itália, mas de família húngara. Portanto, aquele me que você viu e eu me sinto muito brasileira. O Brasil falou mais alto do que do que essas identidades, >> claro, >> que me formaram. Porque a gente, diferentemente da maior parte dos que recebem imigrantes, a gente desenvolveu uma cultura, por a gente misturar, a gente desenvolveu uma cultura muito sedutor pro estrangeiro que chega se tornar brasileiro.

¶70A gente é muito receptivo. Então, o estrangeiro, a gente conhece franceses, mas imagina franceses que moram em Santa Teresa, esse tipo de coisa. Eh, o o o suíço que não sei o quê, o o italiano que não sei se das quantas, o angolano que você que tá lá na Lapa, as pessoas vão virando brasileiras em 10 anos já é brasileiro, já tem hábitos brasileiros, já tá fazendo coisa de carioca, de paulistano, de eh a maior parte dos países em que pros quais estrangeiros vão, você é convidado a viver na colônia do seu povo. Aí o bairro dos italianos, o bairro dos judeus, o bairro >> no Brasil não tem isso. >> Nos nos Estados Unidos se misturar rápido.

¶71>> Nos Estados Unidos eles celebram isso, eles fazem >> sim. Italian American, Irani Irish American. É. >> E eles se chamam mel. Eles não são mel.

¶72Mel somos nós. >> Não, nós somos. Nós somos. É aqui que derrete e vira tudo. Você é carioca, agora?

¶73>> Eu sou. >> Você é absolutamente carioca. >> Sou. >> Eh, você é a típica mulher da zona sul do Rio de Janeiro. >> A sua voz é a voz da da típica mulher da zona sul do Rio de Janeiro.

¶74Não, eu tô falando sério. Na imprensa o valor que você tem, o peso que você tem é essa voz feminina do Rio de Janeiro, entendeu? é dessa mulher culta, educada, tudo mais, com as suas opiniões, mas você chega numa sala em Copacabana com mulheres da sua idade um pouco mais novas, 10, 15 anos mais novas e e as conversas serão os ambientes que a gente frequenta também, né? Eh, e e você é absolutamente carioca. Sou mesmo.

¶75Eu sei disso. >> Porque no Brasil a gente fora, a gente sempre é trazido para dentro. E e aí, tipo, só para amarrar, é por isso que eu fico muito triste com esse momento que a gente e me abate mesmo fisicamente esse momento que a gente tá vivendo, porque é uma rejeição de quem somos. É mesmo >> uma rejeição do melhor que a gente tem. >> É isso mesmo.

¶76>> Mas a gente se vê na terça, né? >> A gente se vê, quer dizer, eu não sei se eu vou ver, mas na terça eu estarei aqui. Entrou até a terça-feira quando? >> 1989. Desde então, nunca uma eleição presidencial despertou tão pouco interesse no brasileiro quanto essa também, né?

¶77Segundo nossa pesquisa Meia Ideia, 42% dos brasileiros vem os grupos de Lula e Flávio Bolsonaro como igualmente corruptos, quase metade do país. O resultado é cansaço, desesperança e muita gente simplesmente deixando de prestar atenção. Mas a gente está remando contra corrente. O meio acompanha pesquisas, entrevista especialistas, debate pontos de vista e mantém ativa uma produção que inclui newsletters, programas ao vivo, podcasts, documentários e análises para tentar entender o país que vai sair dessa eleição. Olha, sem escolher candidato por você, tá?

¶78Sem transformar jornalismo em torcida. Mas um jornalismo que se recusa a entrar na torcida também precisa de quem acredite nele. Assine o meio premium. São R$ 15 por mês para apoiar o meio a continuar fazendo esse trabalho todos os dias. เ