a tese
Pedro Doria e Cora Rónai partem da conjuntivite viral que a deixou sem conseguir ler ou escrever, e do fato de ela ter produzido a coluna da semana ditando para uma IA, para chegar a uma discussão longa sobre ódio político, mestiçagem e identidade brasileira.
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talvez
e por dois motivos distintos: o relato de escrita assistida por ditado é o registro mais concreto que apareceu no radar sobre IA como prótese, e a tese sobre mestiçagem e formação do Brasil merece checagem contra a bibliografia, sobretudo o excurso sobre cananeus, samaritanos e palestinos, que passa longe do consenso.
O que foi dito
- Cora Rónai descreve o quadro: conjuntivite viral que embaça a visão por semanas, impedindo leitura e escrita, e abre dizendo que, depois de tanto falar das ameaças da IA, é hora de louvar o que merece louvor, porque sem ela não teria escrito a coluna.
- Detalha o método que inventou na cama, pelo celular: ditava um parágrafo, pedia que o assistente repetisse, perguntava o que dava para melhorar, aceitava ou recusava as sugestões, e ao fim de cada parágrafo mandava reler tudo desde o começo, porque não conseguia imaginar os parágrafos soltos. Usou também para checar quem havia assinado o alerta que era tema da coluna (Dario Amodei, Sam Altman, Elon Musk) e conclui que o texto saiu com a voz dela.
- Doria compara com a mulher, que veio da educação física e do ioga para o mercado imobiliário e trabalha oralmente, ditando para o computador, enquanto ele não consegue organizar o pensamento sem escrever, e Cora Rónai lembra que Dinah Silveira de Queiroz ditava seus livros a uma secretária taquígrafa, em pé.
- Ambos reconhecem que escrevem por ritmo antes de por ideia, com Doria dizendo que seus textos repetem uma mesma cadência, quase um pentâmetro, e citando “to be or not to be” como o padrão audível.
- Doria explica por que anda abatido e o que está fazendo no Instagram (a série de vídeos sobre o tupi no vocabulário brasileiro): recusa a falsa equivalência entre os dois lados, porque Lula nunca tentou golpe e Jair Bolsonaro tentou, mas sustenta que as duas torcidas se odeiam do mesmo jeito, numa política identitária em que a existência do outro é lida como ameaça existencial.
- Os dois divergem sobre o formato da violência online: Cora Rónai diz que a esquerda destrói reputações e a direita xinga, e que destruir reputação é pior, enquanto Doria aponta que a direita produz imagem falsa de sexo explícito contra jornalistas mulheres, coisa que a esquerda não faz, e relata cinco ameaças de morte vindas da direita desde 2018 e a primeira vinda da esquerda neste ano. Ambos registram que as duas matilhas são mais agressivas com mulheres.
- O núcleo histórico do programa é a tese de Doria sobre a formação do Brasil, alinhada ao livro de Mary del Priore sobre mestiçagem que a levou a ser atacada: a população branca brasileira não descende de uma elite colonial, descende de europeus pobres que chegaram entre o fim do século XIX e o início do XX, enquanto a elite do império era mestiça e as mães dos bandeirantes eram indígenas, de modo que os 40% de brancos são fenômeno republicano, posterior à escravidão.
- Ele usa a própria família como demonstração de quão rápido ocorre o embranquecimento (o pai, percebido como negro nos Estados Unidos e como branco no Brasil por ser professor de classe média, tios-bisavós negros com o rosto dele, e um filho de olhos verdes), concluindo que no Brasil a cor da pele é lida como característica de classe.
- O trecho mais discutível é o excurso genético: partindo do teste de ancestralidade dela, 99,9% asquenaze, afirmam que asquenazes, sefarditas e mizrahim são geneticamente o mesmo povo, e Doria acrescenta a tese de que judeus e palestinos descendem dos cananeus, bifurcados entre os que se converteram ao islã na invasão árabe e os que não, afirmação forte demais para o apoio que ele oferece ali.
- Fecham com o elogio da mistura: Cora Rónai conta que descobriu isso em Gotemburgo, cansada em dez minutos da uniformidade sueca, e Doria cita a observação de Alberto da Costa e Silva de que só na África e no Brasil se vê gente dormindo em cima de muro, além do peixe com farofa, prato tupi anterior aos portugueses, para dizer que a mistura está nos hábitos e na língua, e que o momento atual é uma rejeição do melhor que o país tem.