a tese
Palestra de Sarah Paine sobre terminação de guerras: entrar é fácil, sair é difícil, e sair nos termos desejados é mais difícil ainda; o critério de vitória não é ganhar batalhas, e sim alcançar o objetivo político pelo qual se luta, distinguindo objetivos limitados de ilimitados.
aprofundar
talvez
é a melhor aula de método analítico da semana, com um vocabulário transferível (ponto culminante, objetivo limitado e ilimitado, valor do objeto) que serve para pensar qualquer conflito, inclusive polêmica eclesiástica, mas não toca teologia.
O que foi dito
- Usa a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) como caso modelo de terminação bem feita, apesar de a Rússia superar o Japão em território, população, base industrial, exército e marinha.
- Reconstrói o conflito: a recusa russa a trocar esferas de influência (Coreia para o Japão, Manchúria para a Rússia), o ataque a Port Arthur para neutralizar a frota que ameaçava as linhas marítimas japonesas, e o custo de imobilizar um quarto dos exércitos japoneses no cerco.
- Apresenta o vocabulário de Clausewitz que estrutura a análise: ponto culminante do ataque (operacional, de uma batalha ou campanha) e ponto culminante da vitória (da guerra inteira); ir além de qualquer um deles assume custos maiores que o benefício, e um sinal típico de que se passou do ponto é a intervenção de um terceiro.
- Aplica o conceito a Port Arthur: o general Nogi perde cerca de 45 mil homens em assaltos frontais até tomar a colina de 203 metros, de onde observadores corrigem o tiro da artilharia de sítio e afundam a frota em três dias; ela expõe o argumento e o contra-argumento sobre qual seria o ponto culminante, como exercício de método.
- Oferece cinco candidatos a ponto culminante da vitória japonesa e defende cada um: a implosão interna russa (Domingo Sangrento e a revolução de 1905), a batalha de Mukden, a falência financeira russa, a batalha naval de Tsushima e a tomada de Sacalina como moeda de troca.
- Usa a imagem clausewitziana do frasco de Bolonha, que serve de martelo mas estilhaça ao menor arranhão interno, para o problema de avaliar se o inimigo vai endurecer ou quebrar: Putin errou sobre a Ucrânia, e Nicolau II quebrou.
- Mostra que o Japão planejou a saída antes de começar: recrutou Theodore Roosevelt como mediador por meio de dois ex-alunos de Harvard, e Yamagata argumentou que o inimigo nunca pediria paz sem invasão de Moscou ou São Petersburgo, o que era inviável, logo era hora de chamar o bombeiro americano.
- Contrapõe a Guerra do Golfo de 1991 como outro caso de sucesso, com objetivo limitado explicitado na diretriz de segurança nacional 54 de Bush pai, 392 mortes na coalizão contra 20 a 35 mil iraquianas, e mais de 50 bilhões de dólares pagos pelos aliados.
- Analisa a Coreia como caso de ponto culminante ultrapassado duas vezes: por Kim Il-sung, que transformou guerra civil em guerra regional ao provocar a intervenção americana, e pelos Estados Unidos, que depois de Inchon trocaram o objetivo limitado pelo ilimitado e trouxeram a China para a guerra, contrariando o princípio de que o objetivo político sempre subordina o militar.
- Junta a isso o conceito de terreno mortal, de Sun Tzu: objetivo ilimitado significa aniquilação do regime adversário, logo o adversário luta até a morte, como fizeram os norte-vietnamitas e como fazem os ucranianos.
- Primeira patologia, a guerra regional que vira global: a Revolução Americana puxando França, Espanha e Holanda; a Primeira Guerra, em que nem dentro de cada aliança os objetivos coincidiam; e o Japão que, depois da Manchúria, tentou tomar a China inteira, colocou os chineses em terreno mortal e acabou atacando Pearl Harbor.
- Segunda patologia, a insurgência como estratégia de negação de vitória, inventada por Washington e repetida contra os Estados Unidos no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, sustentada pelo conceito de valor do objeto: para quem vive no teatro é existencial, para quem intervém de longe, não; e em sociedades mosaico como o Iraque, sem identidade nacional comum, não se constroem instituições estatais.