¶1Como é que alguém pensa em votar em Flávio Bolsonaro? A gente aqui não tá falando só sobre política, sobre plano de governo, preferências econômicas e ideológicas. É claro que são esses os assuntos que deveriam estar no debate, mas o que menos se discutiu nessa eleição foi o futuro que a gente quer pro país. Em termos concretos, a campanha eleitoral foi completamente abafada por crises institucionais, pelas tensões no STF e de uma forma muito central pelo escândalo do Banco Master. Um escândalo colossal do qual esse mesmo Flávio Bolsonaro tenta a todo custo e com sucessivas mentiras se descolar, fazer que não tem nada a ver, né?
¶2O que me assusta profundamente hoje é o nosso apagão de memória. A memória coletiva brasileira parece deletar episódios que deveriam entrar definitivamente nessa conta antes de qualquer pessoa digitar o número na urna. Que fique claro. Essa não é uma conversa em defesa do presidente Lula ou do atual governo. Esse é um posicionamento radical, mas civilizatório e inegociável contra qualquer Bolsonaro.
¶3Como foi que a gente esqueceu tão rápido o que que foram aqueles 4 anos? O pesadelo diário, a exaustão mental, o método de tirar o sossego da população a cada manhã com uma nova crise fabricada? Se a memória falha, é melhor a gente refrescar. Eu tenho calafrios só de ouvir nomes como Vintab, Ricardo Sales, Damares, ônix Lorenzone, mas a gente precisa lembrar o que foi aquele desfile de horrores. Sérgio Moro, esse mesmo, deixou o Ministério da Justiça acusando o Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal.
¶4O Vintraub, aquele da educação, publicou um post com personagem de Cebolinha ironizando o sotaque chinês, gerando inclusive uma investigação por racismo. E esses são alguns dos pequenos exemplos, isso, as bobagenzinhas que aconteciam todos os dias. Mas tem coisa muito pior. Ricardo Sales, na famosa reunião ministerial sugeriu aproveitar o foco da imprensa na pandemia numa tragédia para passar a boiada e afrouxar as regras ambientais. Damares Alves disse frases como Nino veste azul, menina veste rosa e foi acusada de atuar para impedir o aborto legal de uma menina, uma criança de 10 anos estuprada no Espírito Santo.
¶5Milton Ribeiro associou a homossexualidade a famílias desajustadas. Teve audácia de dizer que alunos com deficiência atrapalhavam os demais em sala de aula. Paulo Guedes, todo mundo lembra dele, né? reclamou que com o dólar barato empregada doméstica ia para Disney. Olha que horror.
¶6Chamou servidores públicos de parasitas e Roberto Alvin, que foi demitido da Secretaria de Cultura depois de usar uma estética nazista num discurso. O Ernesto Araújo acumulou atritos desastrosos com a China, que é o principal parceiro comercial do país, disse que se a política externa transformasse o Brasil num pária, que assim fosse. E foi o que aconteceu, a gente sabe. Ricardo Veles caiu na educação em 2019 depois de exigir que as escolas filmassem alunos cantando hino e lessem cartas com o slogan de campanha. E a corrupção, gente, vale lembrar que o próprio Ricardo Sales foi alvo de uma operação por facilitar a exportação ilegal de madeira.
¶7O Marcelo Álvaro Antônio foi indiciado no esquema de candidaturas laranjas do PSL, mas continuou lá no Ministério do Turismo. Ô X Lorenzone, me dá urticária, só de falar o nome, admitiu ter recebido caixa dois e acabou fechando um acordo com a PGR. Bento Albuquerque foi indiciado pela Polícia Federal no escândalo das joias sauditas e legais trazidas aí na comitiva do governo. As joias sauditas embolsadas pela família Bolsonaro. Sem contar a família, né?
¶8Carlos Bolsonaro operou o gabinete do ódio. Eduardo articulou nos Estados Unidos um tarifáço contra a nossa economia. E o Flávio foi o protagonista das rachadinhas, da compra de móveis em dinheiro vivo. Aliás, dinheiro vivo, todos mexeram. Repita tudo isso em voz alta.
¶9Esse foi o cotidiano do Brasil em 4 anos. Faça um exercício simples agora. Tente lembrar de cabeça, rápido, o nome de cinco ministros de Estado do atual governo. É difícil, não é? Eu sei por causa do trabalho, mas sabe porque a maioria das pessoas mal sabe o nome dos ministros hoje?
¶10Porque tá todo mundo tocando a vida. O país deixou de se refém daqueles sobressaltos diários, de ameaças de golpe via Twitter, de escândalos envolvendo o primeiro escalão do governo, como acontecia na gestão Bolsonaro. Você pode não gostar do governo atual, pode não gostar do Lula, tem o direito de achar que a economia não tá do jeito que você gostaria, que as falas do presidente são infelizes, pode mesmo achar que Lula foi corrupto, mas a innegável verdade é que nós voltamos a respirar. A política voltou a ser política e não uma ameaça constante à nossa sanidade. A dinâmica de ser uma jornalista independente é quase um relógio suíço da polarização.
¶11Na terça, alguém enche a minha caixa de mensagens dizendo: "Você me representa". Na quinta, a mesma pessoa reaparece revoltada, exigindo o meu cancelamento ou me acusando de fazer o jogo do outro lado. É muito cansativo, mas esse é o preço que se paga quando o seu compromisso é com a notícia e não com agradar essa ou aquela bolha. Ser jornalista independente no Brasil é viver sob esse fogo cruzado. Eu poderia ter cinco vezes mais seguidores se eu vestisse uma camisa, né, de uma das torcidas e focasse em bater de um lado só.
¶12A gente vê isso o tempo todo. Mas a minha régua, gente, é outra. Eu tenho um olhar crítico para todo o espectro político, o que significa que é natural que a maioria das críticas recaiam sobre quem está no poder. Mas essa vigilância com o governo atual jamais me fez ou fará fechar os olhos pro horror absoluto que foi a direita bolsonarista no governo. Então, por mais que eu tente analisar o cenário com distanciamento, eu juro que eu sofro para encontrar respostas que expliquem porque as pessoas continuam votando em gente assim.
¶13A dedução mais simplista é cravar que o eleitor vota no sujeito porque é igual a ele. Sim, tem uma parcela que espelha esse malcaratismo, a gente sabe, mas o buraco é muito mais embaixo. Tem o antipetismo visceral, tem sobretudo uma desconexão da esquerda com a realidade. Por exemplo, a gente tem uma geração de jovens que cresceu sob governos de esquerda e carrega o desgaste dessa experiência. jovens que querem empreender, que buscam flexibilidade no mundo digital, por exemplo.
¶14Enquanto isso, a esquerda erra o diagnóstico e passou esse mandato inteiro, praticamente pregando CLT dos anos 1940 como única salvação, ignorando que não querer um emprego formal padrão é o desejo de muitos. O discurso do Lula mudou agora na campanha, o que é positivo, mas o bolsonarismo sequestrou essa pauta da autonomia e entregou junto com aquele seu pacote autoritário. Mas veja, entender a sociologia do voto não apaga os crimes de quem se beneficia dele. E é aqui que a gente volta para falar do Flávio Bolsonaro e essa tentativa desesperada de posar de moderado. Ele mente o tempo todo.
¶15atuação dele no escândalo do Banco Master é um estudo sobre caso e sobre um caso de dissimulação. A estratégia dele que foi do desconhecimento totalmente cínico, a negação absoluta, ele passou meses tentando se desvencilhar do banqueiro Daniel Vorcaro. Antes do Vorcaro ser preso, o Flávio ia a rádio dizer que o caso do master causava nojo e era um problema da esquerda, ignorando que os governos aliados como Rio de Janeiro, Amazonas perderam fundos previdenciários do banco. Quando o Intercept vazou mensagens mostrando o Flávio negociando 134 milhões com Vorcaro pro filme Dark Horse, A cinebiografia do Jairo Bolsonaro, a primeira reação do senador foi dar uma gargalhada na cara da imprensa, chamar a repórter de militante e dizer, claro, que era tudo mentira. Horas depois, quando ele foi encorralado pelos fatos, gravou um vídeo admitindo a relação, mas jurando que não havia irregularidade, apenas um filho buscando patrocínio.
¶16A mentira não para em pé, claro. Banco Master deixou um rombo estimado em 8 bilhões no BRB, envolve dinheiro de aposentadoria do INSS à suspeitas de desvio de emendas parlamentares. Mais grave ainda, Polícia Federal, que já documentou o Flávio, voando no jatinho do ex-banqueiro, investiga-se os 12 milhões de dólares injetados na produtora foram desviados para bancar a vida de luxo do seu irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A gente vai esquecer disso, não vai falar disso. Flávio prometeu transparência e prestação de contas, entregou uma perícia terceirizada, fajuta, que sequer teve acesso aos aos gastos nos Estados Unidos, onde ocorreram 70% das despesas do filme.
¶17Ele mente para limpar a barra da família, mente para enganar a justiça, mente para se manter no poder. Vamos falar num português claro. Flávio Bolsonaro ignorou sinais óbvios da falência do banco e, na véspera da prisão do Vorcaro, mandou uma mensagem dizendo: "Estou e estarei contigo sempre". É diante dessa máquina profissional de mentiras e fraudes que a gente precisa se perguntar com toda seriedade. Gente, é exatamente esse tipo de gente que queremos cogitar para comandar no nosso país?
¶18É esse tipo de gente que a gente vai ter durante os próximos 4 anos. Não é só ele, é o que vem no pacote. É uma cambada de gente que vai ocupar ministérios, cargos públicos, que vai aparelhar o STF. Gente que não tem caráter, gente que mente, gente que faz qualquer coisa para est no poder. Agora, pessoal, eu tenho aquela dica éta para domingo que vem, aquela data 4 de outubro, só uma das mais importantes do ano pro Brasil, sabe?
¶19Olha, a partir das 17 horas, o meio acompanhar a apuração das eleições ao vivo no YouTube. A equipe do meio, mais convidados que incluem jornalistas, cientistas, analistas políticos vão analisar os resultados conforme eles forem chegando, com leituras diferentes, pautando a conversa e, claro, sem torcida. Então, depois de votar, ainda ficou com coração acelerado, pensando no resultado desse primeiro turno, não precisa sofrer sozinho, tá? Vem sofrer com a gente. Vem pra live do meio.
¶20>> 1989. Desde então, nunca uma eleição presidencial despertou tão pouco interesse no brasileiro quanto essa também, né? Segundo nossa pesquisa Meia Ideia, 42% dos brasileiros vem os grupos de Lula e Flávio Bolsonaro como igualmente corruptos, quase metade do país. O resultado é cansaço, desesperança e muita gente simplesmente deixando de prestar atenção. Mas a gente está remando contra corrente.
¶21O meio acompanha pesquisas, entrevista especialistas, debate pontos de vista e mantém ativa uma produção que inclui newsletters, programas ao vivo, podcasts, documentários e análises para tentar entender o país que vai sair dessa eleição. Olha, sem escolher candidato por você, tá? Sem transformar jornalismo em torcida. Mas um jornalismo que se recusa a entrar na torcida também precisa de quem acredite nele. Assine o meio premium.
¶22São R$ 15 por mês para apoiar o meio a continuar fazendo esse trabalho todos os dias. [música] เฮ