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É possível antecipar o futuro? Entrevista com Jéssica Leite | Diálogos

¶1É possível antecipar o futuro. Nós estradamos. Bom, essa é a proposta dos estudos de futuro e fores previsão, né, que é um campo de pesquisa de atuação que emprega metodologias estruturadas e com dois objetivos. Primeiro é potencializar o pensamento antecipatório, né, e gerar informações estratégicas a partir dele, né, que é o segundo. Mas para conversar sobre esse tema, o diálogos que recebe hoje a Jéssica Leite.

¶2A Jéssica é futurista, advogada e doutora em estudos marítimos. Ela foi também colaboradora da última edição da Inteligência, que é naturalmente o que atistade melhor e mais importante no currículo dela, com um artigo que se chama Como será o amanhã? As quatro dimensões dos estudos de futuros e de for. Seja muito bem-vinda, Jéssica, ao Diálogos com a inteligência. >> Muito obrigada.

¶3>> Vamos descobrir o que que é o futurismo aí, né? >> Vamos sim, vamos juntos nessa jornada. [música] >> [música] >> No seu artigo você apresenta os estudos de futuro e for. >> Pode explicar o que que é esse campo teórico e como é que ele apareceu? >> Posso sim.

¶4Bem, estudos de futuros e foresites. Eh, primeiro eu já vou começar dizendo que tem vários nomes pro campo, tá? é um campo que vem aí amadurecendo desde a década de 50, 1950, com alguns autores. Eh, na França temos alguns nomes e depois vai crescendo também ali nos Estados Unidos. Eh, e a ideia desse campo é a gente tentar mapear a possibilidade de futuro, especialmente para gerar informação estratégica, né?

¶5Então, parte-se do lugar de que a incerteza é a certeza que temos. Então, a gente não tenta prever nada nesse campo, né? a gente tenta mapear aquilo que tá acontecendo, entendendo que o futuro já dá sinais, né? Eh, então ele nasce nesse contexto de entender que o futuro não é algo dado, não é algo determinista, né? E que a gente precisa então olhar para ele com certa pluralidade e realmente com esse querer mapear, explorar possibilidades.

¶6Então, uma um campo interdisciplinar, né, transdisciplinar, >> como eu gosto de falar, né? Eh, e aí ele começa a se fortalecer, né, e se desenhar ali mais no contexto de planejamento estratégico, tanto de governo quanto de empresa, né? Primeiramente, a gente tem a Rand, né, dos Estados Unidos, ela que trabalha com defesa, que começa a pensar instrumentos, ferramentas mesmo de pesquisa para tentar mapear como que o mundo ali vai se apresentar, né, naquele contexto que eles pensavam, precisavam pensar fora da caixa. Eh, e ali na range então começa a nascer os cenários, que é o método mais conhecido, disseminado do campo. É, e também uma ferramenta muito famosa que é o Delf, que trabalha com a tentativa de construir um consenso, trazendo especialistas e perguntando a eles: "O que que você acha que pode acontecer daqui a tantos anos?

¶7Qual a probabilidade de ocorrência desse possível fato aqui que a gente mapeou na nossa revisão de literatura e etc, né?" Então essa é uma área transdisciplinar que tem esse objetivo de de tentar antecipar configurações do futuro. Nasce para gerar informação estratégica, primeiramente. Eh, e aí a gente tem esse marco, né, que começa a dar uma forma, trazer instrumental na área de defesa e depois a gente passa ali pro contexto das empresas, né? A gente tem um caso famoso que é o da Shell da década de 70 que eles montaram uma equipe para fazer esse tipo de pesquisa. a gente pode falar, né, que é uma pesquisa.

¶8Eh, e eles conseguiram antecipar ali a crise do petróleo, tomar decisões em cima de um estudo feito que já via essa crise ali. Então, deu um boom dentro do do contexto das organizações, eh, esse tipo de estudo, né? Então, esse campo ele vai se formando nesse lugar. a gente tem uma caixa de ferramentas que é interdisciplinar e que vai crescendo a todo momento, mas a grande lógica dele é que a gente vai tentar olhar para aquilo que tá acontecendo agora e tentar tirar de tudo isso, né, unindo variáveis e também prospectando, extrapolando essas variáveis, tentar identificar como que o futuro pode vir se configurar para que a gente tome decisão em cima disso. Então, uma das máximas, né, acho que um dos pilares desse campo é que é melhor a gente tomar decisão em cima de um estudo feito do que em cima da cabeça de poucas pessoas estão dentro de uma sala, né?

¶9Eh, então, >> mas isso é é igual diferente de, sei lá, eh, a a análise, sei lá, como é que chama de planejamento estratégico e análise de cenários? É, é isso. >> Vamos lá. análise de cenário tá dentro do campo, né, de estudos de futuro. E o planejamento estratégico normalmente é um contexto onde a gente ali enquanto, né, estudiosos, pessoas que praticam estudos de futuro e forsite entra para gerar informação.

¶10Então, dentro de um ciclo de planejamento estratégico, né, normalmente a gente entra ali no momento pré, né, de se desenhar aquilo que se deseja de objetivo para depois desenhar meta e etc, para que a gente mapeie o campo de atuação de uma organização, por exemplo. Então a gente vai ali levantar variáveis, né, levantar atores, levantar comportamentos, que eu sempre falo que a gente vai mapando o comportamento, como que instituição, como que indivíduos, como que determinados grupos estão se comportando. Eh, e a gente vai gerar essas informação estratégica, ó. Eh, esses comportamentos estão direcionando para cá, para cá, para cá, eles dialogam dessa forma. Eh, e a gente entende que esses são os recortes de futuro onde você pode vir a decidir.

¶11E aí em cima disso fala: "Beleza, então a empresa tem essa missão, tem essa visão, a gente quer atingir isso daqui, né?" E aí, olhando pro estudo feito, será que a gente tem que mudar alguma coisa nesse objetivo? Faz sentido? Quais são os riscos que a gente tem dentro desse contexto? Quais são as oportunidades que a gente tem? Quais são as atores que a gente não viu, né?

¶12Eu sempre digo que todo esse processo de pensar futuros, para além da entrega final, o ouro tá no processo. Então a gente convida as pessoas a saírem de dentro da caixinha delas, porque normalmente no dia a dia a gente pode ver uma notícia sobre uma baleia que tá passando por algum lugar, não sei, né? E aí vão pensar: "Não, isso não impacta na minha empresa, mas se você for de repente conversar com o profissional, ele pode dizer que isso pode impactar, né? Tem um exemplo que um professor sempre compartilha, eh, que estavam numa mesa, iam fazer um exercício ali no mar. E aí a bióloga, ó, mas as baleias vão tá, né, estão reproduzindo, estão passando por aí.

¶13O que que isso tem a ver, né? E aí depois eles não conseguiram fazer o exercício porque ela atrapalhou, né, onde onde eles iam entrar para fazer o exercício, a baleia tá passando. É, então esse trabalho de pensar futuros entra, dialoga com o planejamento estratégico e vem nesse lugar de tirar as pessoas do óbvio. Antes de tudo, né? Quais são as as disciplinas que vocês mobilizam para ou combinam para fazer esse tipo de trabalho?

¶14E como é que vocês combinam? >> Vamos lá. Normalmente a gente vai olhar muito pra parte de metodologia. Eh, e aí a gente faz análise documental, eh, não se traz necessariamente a parte teórica específica de um campo. Eh, e considerando esse campo como essa, tendo como base essa caixa de ferramenta, quando a gente vai aplicar em determinado contexto, aí a gente vai beber mais daquele campo.

¶15É, se eu tô analisando eh, por exemplo, a área de defesa, né? Aí eu vou trazer de repente alguns olhares, algumas teorias para entender aquele campo a partir das lentes que fazem parte daquela realidade e de outras que dialogam com ele. Mas basicamente eh os estudos de futuro, eles trazem esse olhar do fazer pesquisa e às vezes até uma pegada um pouco filosófica trazendo para aqueles que começaram a pensar lá atrás, né, sobre o que é o futuro, como que a gente pode entender todo esse caminho. Eh, respondi. >> É uma coisa mais casuística.

¶16Quer dizer, vocês mobilizam as disciplinas conforme o caso concreto. >> Exatamente. Exatamente. >> Ah, tá. E hoje a preocupação com questões climáticas é, enfim, é crucial na sociedade, >> né?

¶17Aqui no Brasil menos, mas sei lá, na Europa é dia e noite esse negócio, por exemplo, né? O Forsite reconhece a urgência em atuar no campo do meio ambiente e sustentabilidade, né? Imagino que imagino que sim, né? e que e caso positivo, o que que tem sido feito nesse sentido? >> Vamos lá, especificamente nessa área, eh, e aí também do lugar onde eu vejo e por onde eu passei, tá?

¶18>> Eh, no contexto da ONU, tem alguns setores lá dentro, né, que fazem esse esse tipo que usam as ferramentas dos estudos de futuros, né? Eu digo que quando a gente entra ali enquanto futurista para fazer algum estudo, a gente tá chegando com a com a caixinha de ferramenta. A gente não necessariamente é especialista no tema, se é o pesquisador, né? Eh, e aí na ona eu vejo eles aplicando isso. E por que que pensar futuro é tão importante dentro desse contexto que a gente tá também, né?

¶19e aplicar tudo isso tão importante, porque quando a gente tá falando sobre pensar aquilo que tá lá na frente, a gente não tá fugindo do presente. Como eu falei, isso na esse campo ele nasce para gerar informação estratégica. Então ele nasce para gerar mudança no agora, né? E tem tem alguns movimentos, né? Alguns já estão óbvios óbvios a nossa a nós, né?

¶20óbvios na nossa realidade, mas tem outros que são sutis e que quando você mobiliza uma estrutura, por exemplo, como a de um de um estudo de forsite, você pode identificar, né? Eu tenho flertado muito compensar eh o poder da localidade para gerar informação estratégica sobre algumas mudanças, sobre desastres e etc, né? Eh, então quando você vai pensar no longo prazo, você às vezes vai olhar para algo que uma pessoa que tá vivendo em alguma comunidade viu e que entendeu que aquilo dali daqui a 3s meses ou um ano pode gerar algum impacto e que se a gente tivesse partindo de um olhar de repente ali de gestor público, né, fazendo uma análise mais ampla, não identificaria. Então, necessar necessariamente, né, depende de quem tá aplicando, mas eh você pensar forite, aplicar forsite é esse convite a você olhar pros sinais e você gerar mudança, né, entendendo que você precisa inovar para não fazer mais do mesmo, né? Eh, então, eh, >> hum, >> eu tô entendendo assim, a coisa da previsão é de você tentar imaginar os os cenários mais prováveis >> e como é que você pode, não é só o que que você vai fazer lá, é como é que você pode aproveitar aquilo que parece que vai vir para exercer o livre arbítrio, né, e fazer uma coisa diferente.

¶21>> Exatamente. >> Identificar >> e antecipar também os efeitos negativos eventualmente. antecipar os negativos para se preparar, também olhar oportunidade, né? E aí, eh, a gente gera, é, é como é como fazer pesquisa, né? Se gera uma um qu uma quantidade de informação e a ideia é que aquilo seja utilizado para mitigar risco, para aproveitar a oportunidade, para mudar rumo, né?

¶22Eh, não vou te dizer que todo o ambiente organizacional que faz esse tipo de estudo de fato aplica na tomada de decisão, mas esse campo ele nasce e vem se fortalecendo nesse lugar. A gente olha lá paraa frente para que a gente repense a forma como a gente se coloca, >> né? E aí é esse pensar lá na frente tentando se tirar das amarras do óbvio, né? É você olhar pro lado mesmo, é você ouvir o diferente, né? Eh, então é um pouquinho disso, sabe?

¶23A gente faz um mapeamento do que tá mudando, mapeamento de atores para que as pessoas possam tomar decisões diferentes, também possam se preparar para aquilo que tá vindo, né? E assim a gente vai caminhando. Então, é um exercício de resiliência. >> Hum. >> Né?

¶24Então, que a gente trabalha com futuros possíveis. Então, tem os mais prováveis, que a gente também tem ferramentas pra gente chegar, né? mais prováveis ali, mas também aquilo que é possível, aquilo que se der uma reviravolta que a gente não tá enxergando, a gente já vai est mais ou menos preparado, porque a gente entende que o futuro ele é incerto, ele tem várias roupagens e a gente tentou antecipar alguma coisa ali, tá surfando nesse lugar, né? >> Você doutoranda em estudos marítimos, né? >> Doutora, me formei já, graças a Deus já foi pouco tempo.

¶25[risadas] >> Foi ano passado. É, peguei de esse ano já. >> Hum. Muito bem. formei estudos marítimos.

¶26>> Pois é, nessa área, eh, acho que você fala muito em substituição de uso de petróleo e >> Aham. >> derivados, né? Eh, imagina que você deve ter analisado eh questões como essa. >> Transversalmente, eu sou da linha de pesquisa que fala sobre direito internacional do mar e métodos prospectivos. Então, eu me coloquei muito no lugar de pensar prospectivamente defesa e relações diplomáticas.

¶27No mestrado, eu estudei relação entre eh as marinhas do Brasil e da China. Muito interessante. >> É, e no doutorado eu v modelo de participação para incentivar o nosso planejamento setorial de defesa a pensar cenários, fazer cenários de uma forma mais participativa, né? Eh, mas falando especificamente sobre energia, não é meu campo, né? Mas esse é um tema que se [limpando a garganta] fala, eh, os especialistas, eh, eles vêm trazido e aí quando vem trazido a complexidade desse tema, porque a gente tá falando sobre estruturas já apostas, né?

¶28>> Uhum. >> Eh, então a gente tem muita energia renovável, enfim, aqui no Brasil, eh, nascendo também. Eu estudei recentemente o o Hidrogênio Verde, né, que no Ceará tá deslanchando. Então é, a gente tem caminhado nesse lugar, tem política já nesse lugar, né? Mas aqui a gente tá falando sobre estruturas, aí estamos falando sobre futuro, né?

¶29Quando a gente vai tentar eh identificar sinal de mudança, né? Eu acho que essas boas iniciativas, como pesquisas, como o hub, né, de H2V que nasceu e tudo mais, eles nos contam possibilidade de futuro. Só que também é importante a gente olhar o quão rígidas e poderosas são as estruturas que já existem, né? O petróleo ele já é uma estrutura, ele é um sistema, né? Ele envolve um sistema bem amplo.

¶30Então, não sou especialista na área, >> não. Essa especialidade é é no fundo é setor de defesa mesmo. Você já você mencionou aqui várias vezes. >> É é é ferramental, né? De >> Então, aparentemente o o eu eu na minha bola de cristal acho que o futuro está muito favorável aos investimentos de defesa [risadas] de uns anos para cá, não é?

¶31É assim. >> Aham. E e é engraçado que teve uma discussão aqui eh sobre sobre isso, mas assim, como é que você vê essa situação da da da defesa? Eu participei e a gente tava falando antes da da entrevista assim com essa coisa dos ciclos que vão e vem, porque antes da globalização o mundo era um mundo muito fechado nos estados nação. >> Eh, e você tinha uma projeção do Brasil como sei lá, regime militar, mas antes também com potência.

¶32você tinha a a Marinha, por exemplo, tem tem planos, tem um submarino atômico, tem tem eh eu participei de uma tese de doutorado em Portugal, inclusive, que era sobre essa questão da relação do do por isso que falando com a senhora da do do da projeção do Brasil no no Atlântico Sul. >> Uhum. >> A respeito também de de como é que a gente se dava com a África da com a África do Sul, Angola, essas coisas todas. >> Mas eu tenho que com a globalização, isso teve uma defesa para quê, né? A gente tem multilateralismo, a gente tem OMC, a gente tem ON, a gente tem não sei qu e tal.

¶33Eu acho que teve um pouco de retração nisso. Acho que até >> me lembro porque acho que no governo Fernando Henrique teve uma baixa, a maré vazante que foi >> Aham. >> quase que vai. Para que que serve? Eu me lembro disso para que que serve exército para ficar pintando eh árvore de de branco, >> né?

¶34Mas agora com com parece que o cenário mudou completamente de 10 anos para cá, >> né? E já não é mais esse mundo, né? Como é que você, como é que, como é que você vê isso no, no caso, no caso, eh, brasileiro? >> Então, eh falar de defesa do Brasil acho que é é desafiador. É porque a gente tem algumas tantas narrativas, né?

¶35Eh, eu sou civil, mas eu sempre flertei muito com esse mundo militar, né? Então, acho que eu eu naveguei por dois mundos ali, né? Eh, quando a gente fala de defesa, né, a gente tá falando sobre algo que acho que vai até além de cuidar de fronteiras, né, e de se preparar paraa guerra, né? Hoje em dia as Forças Armadas elas atuam até em ajuda humanitária, né, internamente lá na Amazônia inclusive, né, e defesa é comida também, né? Então é você garantir que a comida vai chegar nas pessoas, eh, segurança química.

¶36Então, defesa ela tá em muitos lugares que às vezes a gente não percebe, né? Mas na nossa sociedade, especialmente quando a gente vai falar acho que com pessoas que talvez não ou não se aprofundaram muito no tema ou tem algumas resistências de segurança nacional era essa, né? >> O conceito de segurança nacional era uma coisa muito mais totalizante, é uma coisa de energia, era é uma coisa de >> É, e tá dentro, né? Eh, que a defesa ela vai falar sobre tudo aquilo que nos mantém enquanto país, né? Que não não é é fronteira também na realidade que a gente tá por enquanto.

¶37>> Eh, mas não é só isso, né? Eh, então, e aí eu vou até trazer algo interessante. Você me fez uma pergunta, acho que é legal de compartilhar isso, né? Eh, eu sou uma civil que foi fazer doutorado na Marinha, mestrado e doutorado, né? E sou pesquisadora ainda do laboratório >> por lá.

¶38Eh, e desde que eu entrei, eu fiz prova em 2017, aí comecei o mestrado mesmo em 2018, né? E eu fui vendo crescer a quantidade de civis interessados, civis novos interessados em estar lá dentro, também as forças abrindo outras eh outros programas de pós-graduação abertos à sociedade, né? Eh, e aí eu achei curioso isso, né? Porque é um pensamento de defesa que vai saindo um pouquinho dos muros dos quartéis e vai indo, né, pro mundo civil ali. >> Eh, isso é muito importante, né?

¶39Eu tive uma oportunidade de passar um ano pesquisando eh sobre futuros lá no Reino Unido, né? E lá a defesa quem pensa são os civis ali, >> né? Eh, e no Brasil a gente está nesse movimento ainda do dos civis virem um pouquinho para cá, né? Então acho que >> é qu compartilhar um pouquinho sobre isso que acho que >> existe uma ambiguidade, né? Porque parece que a gente oscila entre é o desprezo e o temor.

¶40>> É. É. >> Entendeu? que você fica de um lado ou fica do outro e fica achando que problema de defesa é um problema que você delega. >> Aham.

¶41E não deveria ser, né? >> Claro que não. >> Eh, enfim, não é para ser. Aí eu eu vejo essa dança que é uma dança positiva, né? Dos civis vindo mais para cá.

¶42Eh, e aí eu acho que sim, eu acho que a situação global que a gente está passando, eh, deve estar eh levando algumas pessoas mais resistentes quanto ao pensamento da relevância de defesa a pensar em outro lugar. Mas ainda assim, eu ainda acho perigoso colocar defesa só no lugar de ir paraa guerra, porque não é só isso, né? Até falando especificamente de Marinha, Marinha tem muitas eh eh muitas obrigações, deveres, né, na proteção do mar, até no fazer pesquisa, né? Eh, enfim. Então, eh, é assim que eu vejo, né?

¶43A gente tem, como você disse, essa separação, né? É difícil a gente achar esse meio termo, mas eu tenho visto esses movimentos, esses sinais, né? eh, positivos dos civis vindo mais para perto e da gente repensando de defesa em outro lugar, né? Até eh enfim, eu sou um exemplo disso, né? Porque eu também tô lá levando esse outro lugar.

¶44Eh, e da minha experiência, eu sempre me senti muito respeitada. Eu cheguei lá, eu tinha o quê, uns 24 anos, alguma coisa assim, não lembro, né? É. E sempre tive muito espaço de fala, né, de propor. Então, isso é bacana, né?

¶45a gente entende que as culturas levam tempo para se renovar em todas as organizações e instituições, né? Eh, mas essa essa abertura das forças armadas, né, do setor de defesa civis, acho que é algo positivo que vai necessariamente também impactar na forma como a sociedade vê, porque aí é um filho que foi lá fazer um estágio, né, e volta para casa, fala: "Não, pai, mas é mais ou menos assim, né?" E aí a gente vai pensando o país, todo mundo um pouco mais perto, né? >> Uhum. eh a [limpando a garganta] definição de uma eh doença, sei lá, doença X, né, que foi criada pela Organização Mundial de Saúde, né, que foi criada para antecipar risco de uma nova doença epidemiológica hipotética, né, é um, é, é, seria seria isso um exemplo dessa de futurismo, digamos assim, >> também a Sim, também. Bem, eu não sei como eles chegaram nessa informação hipotética, [risadas] porque eu sempre gosto de olhar o caminho, o processo, né?

¶46Mas antecipar essas possibilidades, sim, né? Sobre o caos mais recente que a gente teve parecido com isso. Eh, tem aí, né, relatos de que já tinham mapeada a possibilidade disso acontecer, né? >> Não adiantou nada. >> Não adiantou nada porque não consideraram relatório.

¶47[risadas] >> Pois é. Pesquisas que são relacionadas com o presente e e passado, né? Tem sempre a possibilidade de erro. Em alguns casos os resultados mostram isso bem, mostra isso pro pesquisador, né? Quando se trata de pesquisas >> antecipatórias, né?

¶48É o conceito do erro >> ou existe o conceito de erro ou ou a gente parte do princípio de que tudo é possível, né? Acho que >> Uhum. Parte do princípio que tudo é possível. Não vou te dizer que não terão colegas que se colocam no lugar de tentar acertar, mas bebendo lá da fonte, né, de como o campo nasceu e foi se estruturando, a gente não quer acertar o que a gente tá mapeando ali. Como eu disse, eu trouxe o caso da Shell, que no caso deles eles acertaram.

¶49>> Aham. >> Né? Então isso pode acontecer porque a gente é como se a gente tivesse ali dentro de um escritório lendo as mesmas revistas, olhando pro mesmo lugar e de repente fala: "Não, agora eu quero olhar pro mundo e ver o que tá acontecendo, né? Porque a gente não vai olhar pra realidade específica da empresa. Ah, tô numa empresa de petróleo, vou olhar o setor de petróleo." Não, você vai olhar para fora, né?

¶50Outro sair do óbvio, como eu comentei, pelo menos esse é o ideal, né? E aí, ao fazer isso, às vezes você vê coisas que realmente estão dando sinal muito forte de que vai se desenvolver um algum comportamento de um grupo específico em em tanto tempo se já não tá acontecendo. Então, não é impossível acertar, né, como a acertou. Mas o objetivo é mapear possibilidades. Eh, então, eh, se fosse, se for para pensar em erro, eu acho que eu pensaria talvez erro ou equívoco, no caminho que se usa para mapear isso, porque se você fala com as mesmas pessoas, de novo, você vai chegar nos mesmos lugares, né?

¶51tem eh pode ter algumas realidades em que a pessoa se pressupõe: "Não, vou fazer uma pesquisa dessa, mas convida ali, por exemplo, como especialista, as pessoas já fazem parte do campo com o mesmo perfil, o mesmo tipo de persona e você vai ter de retorno as mesmas coisas, né? O fazer pesquisa, dependendo de quem você acessa, você vai conseguir enxergar esse recorte de mundo. Se você olha de uma forma mais ampla, você consegue chegar eh em um lugar mais colorido, vamos dizer assim. Você sabe que na década de 30, foi uma época parecida com a atual, >> era uma época de grande imprevisibilidade, porque você tinha uma ideia um pouco, tinha havido uma globalização também que tinha ido pro pro espaço, mas e e aquela ideia da paz universal, do progresso de todas as nações, aquilo tudo tá vindo para buraco. Você tava tinha revolução russa, você tinha >> eh revolução fascista, você tinha também as novidades tecnológicas, o rádio, cinema, não é?

¶52E a gente teve aí todo lugar parecia que tinha uma revolução e que qualquer coisa parecia possível. >> Uhum. >> aconteceu. Eh, e aí teve revolução de 30 também, que foi uma confusão depois dos anos seguintes. E aí veio um um sujeito, não sei se foi Gilberto Amado, que fez uma coletânia, um livro que se chama assim: "Para onde vai o Brasil?" >> Aí tava assimembaixo, para o comunismo, para o fascismo, para o liberalismo, para não sei quê e tal.

¶53E era e era uma um conjunto de entrevistas >> Uhum. >> com com vários escritores intelectuais, políticos. que que que foram entrevistados para dizer para onde é que eles amavam, achavam que iam o Brasil, né? Sei lá, o preste vai pro comunismo, o pr salgado vai para fascismo, vai para não sei quê, vai se para onde. Acabou que o único sujeito que sabia para onde que a gente era o Jetli Vargas.

¶54>> Bom, que que você tá contando isso? Como futurista, eu lhe pergunta: "Para onde vai o Brasil?" >> Essa é uma boa pergunta. [risadas] >> Olha, eu sempre saio da dessa desse tipo de pergunta dizendo: "Eu preciso de mais tempo para analisar, pesquisar e olhar profundamente, né? Eh, não tenho resposta não, não tenho resposta. É, não tenho, mas eh >> eu eu vou compartilhar algo que me deixou animada ou enfim, que eu estou observando para ver para onde vai, né?

¶55A gente teve um movimento agora de de estado, né? Estado de governo, vamos ver, eh, de se pensar um planejamento mais longo prazo, né? Estratégia Brasil 2050. E é esse processo, ele foi montado de uma forma a gerar um algum nível de participação, né? Então teve ali um momento que a gente podia colocar estudos ali numa base, que é uma base bem interessante, que que já perdura por um tempo, né?

¶56É o Brasil participativo. Eh, e a ideia era ouvir, né, o que as pessoas que queriam contribuir tinham a colocar ali para se pensar no planejamento um pouquinho mais longo prazo para gerar, porque certas mudanças é só no longo prazo, né? no trilho ali. Então, eh, não sei para onde a gente vai, mas esses movimentos, eh, de pensar mudança de longo prazo, de trazer um pouquinho até esse olhar da relevância do se estudar, de trazer dados para dentro do governo, eu acho que vai levar a gente para um lugar talvez mais, como que eu vou dizer, como que palavra que eu vou usar? um lugar de governança um pouquinho mais fluido.

¶57É claro que requer vontade política, né? Mas esse é um dos movimentos que que me dão um quentinho no coração. O pessoal da ENAP também tem feito coisas muito legais. Eh, eu só vejo crescer a atuação deles, né? Eh, a escola de administração pública.

¶58Eh, a gente tem agora um campo também para pensar futuro, né? que já já nasceu, já morreu algumas vezes, mas agora parece que tá deslanchando, então não sei para onde a gente vai, mas eh tenho esperanças de que a nível de de estado eh de governo, não sei, mas a nível de governança, a gente tá caminhando para um lugar que talvez a gente busque reconhecer a nossa potência, talvez o povo entenda o seu poder em algum momento e peça que as mudanças sejam feitas. Bom, só ver a colônia dos Estados Unidos. Já tô satisfeito. [risadas] >> Jéssica, muito obrigado por essa conversa que foi >> futurista.

¶59>> Se você gostou desse episódio, você não pode deixar de ler o artigo Como será o amanhã, as quatro dimensões dos futuros, dos estudos de futuro e forsite que foi publicado na site inteligência número 113. Você pode adquirir a sua revista em nosso site. Agora, para ter acesso a essa e outras edições, confira nossos planos de assinatura e, claro, siga as redes sociais da Inside Inteligência e do Canal Meio para ficar por dentro dos lançamentos e das novidades. E até o próximo diálogos. No noticiário político não se fala em outra coisa que não essa crise do STF, né?

¶60No meio a gente faz essa cobertura completa, sim, mas vamos além. Nas edições de sábado de setembro, o nosso time foi atrás de quem estuda [música] o Supremo. Entrevistamos alguns dos maiores juristas e pesquisadores do país para analisar essa crise, para explicar essa [música] crise. Não é opinião de mesa de bar, é contexto, é informação. Foi assim com Rubens Gler da FGV Direito [música] SP sobre urgência de uma reforma na Corte.

¶61tá lá na nossa edição mais recente, mas o STF não pode abafar todo o resto. Por isso, trouxemos entrevistas e artigos sobre os [música] outros temas que também preocupam o brasileiro nessa eleição, como economia, como educação. A Débora Bizarria, por exemplo, escreveu um artigo comparando os cinco programas de governo na economia. A Priscila Cruz, do Todos pela Educação, bateu um papo com a gente sobre o que cada presidenciável propõe nesse campo. São os temas que o noticiário do dia a dia deixa passar, mas a gente não.

¶62Se você quer acompanhar essa eleição com esse [música] nível de profundidade, qualidade de análise, assina o meio premium e receba a edição de sábado, toda semana. >> [música] >> vai fazer diferença para você entender no que tá botando. >> [música] [música]