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A última eleição de Lula | Cá Entre Nós

¶1É o fim das betes ou a polêmica de Nossa Senhora Aparecida que define seu voto nessa reta final? Ou seriam ainda as denúncias de corrupção? Ou seu voto já tá definido faz tempo e você só tá olhando pro noticiário e procurando um jeitinho de confirmar a sua escolha. Pois bem, a gente tá há poucos dias de uma disputa presidencial que de muitas maneiras antecipou efetivamente o segundo turno pro primeiro. Os demais candidatos pontuam muito pouco e não à toa a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas é tão pequena.

¶2Ainda há uma parcela de eleitores e eleitoras que estão definindo os votos agora nesses dias. Muitos deles alternaram seus votos entre Jair Bolsonaro em 2018 e Lula em 2022. Agora tão na dúvida, estão avaliando as razões para votar em um ou em outro. Então eu quero propor alguns jeitos de analisar essa peleja. Um deles passa pelo que está em disputa no cenário mais macro, digamos assim, além dos fatores econômicos ou religiosos ou de medo da violência que nos afetam mais diretamente.

¶3Vamos lá, faz uma conta comigo. Desde que o Brasil voltou a escolher presidente pelo voto direto em 1989, a gente teve 10 eleições presidenciais, contando com a deste domingo. Lula esteve na cédula ou na urna eletrônica em sete delas. Nas outras três, ou foi ele quem escolheu a candidata em 2010 e 2014, ou foi impedido de concorrer em 2018 e entregou o lugar a Fernando Hadad. Ou seja, não existiu até hoje uma única eleição presidencial da Nova República em que Lula não fosse o centro de gravidade, a favor ou contra, com ele ou com quem ele ungiu, a política brasileira dos últimos 37 anos girou em torno desse nome.

¶4Neste domingo, 4 de outubro, isso deve acontecer pela última vez, pelo menos o primeiro turno dessa última eleição. E eu falo que é a última porque ele faz 81 anos agora em outubro e se perder estará com 85 no próximo pleito e não deve se lançar mais uma. Agora se reeleito, ele não vai poder se recandidatar. E eu queria usar o nosso K entre nós desta semana para dividir com vocês uma ideia que eu venho lapidando e que acho que ajuda a entender o que tá em jogo a partir deste domingo. A ideia é esta.

¶5Estamos diante da última eleição de uma era. Se é o fim da nova república, eu honestamente ainda não sei dizer. Talvez a gente só consiga nomear isso daqui alguns anos, olhando para trás. O Brasil, como várias outras democracias do mundo, tá num processo tão profundo de transição em que se sabe de onde se está partindo, mas pouco se sabe sobre para onde se está indo. Talvez dê para chamar no mínimo de última eleição da era Lula.

¶6Só que eu iria além. O país que vai às urnas agora já se afastou muito daquele que a Constituição de 1988 buscou desenhar. Mais do que isso, muitas forças da nossa sociedade desafiam essa mesma constituição e o que ela propõe e representa. E vejam, a possível saída de cena de Lula é o sinal mais visível, mas tá longe de ser o único. Esta eleição acontece no meio de uma série de transformações que distanciam a nossa política da própria Constituição.

¶7Algumas vêm de longe, outras são novidade. E eu quero passar por elas com vocês, uma a uma antes de chegar aos personagens que de fato estão nas urnas. A primeira transformação tem a ver com dinheiro e dinheiro em política quer dizer poder. Basta pensarmos em Daniel Vorcaro. A Constituição de 1988 montou um sistema em que o presidente, eleito com milhões de votos, precisava construir maioria num Congresso fragmentado em dezenas de partidos.

¶8Um instrumento para isso foi o que o cientista político Sérgio Abranc batizou ainda nos anos 80 de presidencialismo de coalizão. O presidente distribuía ministérios, cargos e, principalmente a execução do orçamento. E em troca recebia adesão ao seu projeto vencedor nas urnas em forma de votos no plenário. Pois bem, esse sistema foi sendo desmontado aos poucos. O processo começa com a emenda de 2015, que tornou impositivas as emendas parlamentares individuais, mas atingiu o auge e o formato que a gente conhece hoje no governo de Jair Bolsonaro.

¶9Foi ali que o poder de executar o orçamento passou quase integralmente paraas mãos do legislativo. Emendas individuais obrigatórias, de bancada obrigatórias, emendas de relator, emendas PIC. É um cardápio inteiro de mecanismos que tiram do presidente a caneta que ele usava para negociar e, em última análise, seu poder de executar o projeto que o elegeu. Qual é a consequência disso? o fim do presidencialismo de coalizão, como a gente conheceu, porque com as emendas na mão, o centrão deixou de depender do Planalto para levar recursos paraas suas bases.

¶10Ele já tem o orçamento, não precisa mais entrar em aliança nenhuma para conseguir o que quer e vai se reelegendo com essa máquina orçamentária, concentrando o poder e hipertrofiando o legislativo. O presidente virou na prática um sócio minoritário do próprio orçamento. A segunda transformação atinge justamente quem deveria proteger a Constituição de 88, o Supremo Tribunal Federal. Essa também não é uma crise de agora, só que ela chega ao seu ponto mais agudo, exatamente neste momento em que a confiança no Supremo é a mais baixa da história. Essa desconfiança hoje atravessa os campos ideológicos.

¶11Direita e esquerda desconfiam do tribunal, cada um por suas cada um grupo por suas razões. E cada vez mais os próprios ministros colaboram para essa fragilidade de duas maneiras. A primeira é o comportamento individual, as condutas inapropriadas para quem ocupa uma cadeira na mais alta corte do país. Seja patrocinando ou participando de eventos de lobby empresarial, seja vendo suas famílias usufruindo de contratos milionários com empresas com ações na corte e por aí vai. A segunda é mais grave e mais corrosiva.

¶12Muitos desses ministros se rendem ao papel de prestar favores ao grupo político que os nomeou. Hoje, cada grupo político tem seu ministro titular. Quando o árbitro passa a ser visto como jogador e visto assim pelos dois times, o jogo inteiro perdeu a legitimidade e uma constituição, sem um guardião em quem a sociedade confie fica muito mais exposta a quem queira contorná-la, ignorá-la ou pior, derrubá-la. A terceira transformação é de outra natureza e talvez seja a mais inédita de todas. Pela primeira vez, desde a redemocratização, chegou à população em geral a percepção de que uma potência estrangeira pode sim ter interesse no resultado da nossa eleição democrática.

¶13No mínimo interesse, no máximo pode ter ação concreta para influenciar esse resultado. Isso deixou de ser assunto de diplomata, de especialista em relações internacionais ou de teoria da conspiração de grupo de WhatsApp. Eu não acho que esse fator vá decidir a eleição, mas ele tá longe de ser desprezível, porque ele mexe com uma coisa que a gente dava por resolvida desde 88, a ideia de que o destino do país se decide aqui dentro nós com as nossas regras. É neste cenário de múltiplas crises institucionais que o Brasil vai às urnas escolher o seu presidente. E antes da gente chegar aos personagens que estão na urna de fato, deixa eu me apresentar para quem tá chegando agora.

¶14Eu sou Flávia Tavares, editora do Meio. A partir da meia-noite desta quarta-feira, assinante Premium do Meio recebe antecipadamente a mais nova rodada extra da pesquisa Meio Ideia. A gente decidiu fazer mais uma para captar ainda mais esse frame do filme eleitoral que passa diante dos nossos olhos. Mas assinante Premium tem mais que pesquisa para ajudar a orientar as ideias. Nossa edição de sábado e o meio político vem oferecendo há semanas mergulhos nos assuntos que acabaram ficando escanteados do debate, mesmo sendo tão importantes como economia, educação, segurança pública, o futuro digital do Brasil.

¶15E a gente ainda fez o doceleições 2026, a escolha pro nosso streaming. Tudo isso o assinante premium recebe por apenas R$ 15 por mês. Assine o meio agora mesmo. [música] Agora sim, vamos a quem tá de fato na urna. O presidente Lula havia prometido que não seria candidato à reeleição.

¶16Ao longo do mandato, por razões que até hoje não me são totalmente claras. Ele optou por duas coisas. não construiu uma alternativa ao próprio nome, um sucessor, e rompeu com a própria promessa. O resultado é que Lula vai paraa urna carregando todo o seu capital político, que é enorme, e também toda a sua rejeição, que também é gigante. Do outro lado se apresentou Flávio Bolsonaro.

¶17Não me parece que um outro candidato da esquerda teria produzido um efeito muito diferente no bolsonarismo. O clã sempre deixou claro que queria ver o seu sobrenome com um dos filhos na urna. Supondo que Hadad ou Geraldo Alkim tivessem se apresentado como candidatos do lulismo, Jair teria dado sua bênção a Tarcísio de Freitas? Jamais saberemos, mas meu palpite é que não. Então, os dois campos preferiram manter a polarização em torno dos seus líderes e o resto do sistema político.

¶18Bom, esse foi absolutamente incapaz de apresentar uma alternativa. Mal se esforçou. O PSD tem Ronaldo Caiado uma candidatura praticamente virtual que não sai de Goiás. O novo mantém Romeu Zema na disputa por interesse de preservar a existência da própria legenda. O único que realmente se apresentou tentando desafiar a polarização foi Renan Santos, que talvez por ser também bastante radical não decolou.

¶19O sistema esse nem tentou. E assim a gente chega a domingo com um único cenário de enorme instabilidade e de transição tecnológica, econômica, ambiental, até espiritual, mas com dois possíveis ganhadores. Caso ganhe Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo ganha uma sobrevida. Mas é uma sobrevida turbinada, com um poder que pode definir os próximos 20 anos do Brasil, no mínimo. Conta com o apoio de Donald Trump nos Estados Unidos e com crises institucionais tão severas que claramente Flávio não tem traquejo e nem desejo de ajudar a resolver.

¶20Vamos lembrar que parte fundamental da plataforma política do bolsonarismo é o caos. É na crise que eles triunfam, porque tem poucas políticas públicas para oferecer. Flávio é o Bolsonaro mais afeito ao centrão, ainda mais que o pai. já procurou Davi Columbre para iniciar tratativas de fazer um grande acordo para deixar tudo como está, mas sem qualquer intenção de melhoria do do sistema, que ele jura ser ante, mas de que é fruto. Caso ganhe Lula, evidentemente ele também não sai rompendo com o centrão, não sai derrubando tudo, mas pode sim escolher ter a grandeza que o momento exige.

¶21vai ter que conduzir o país durante um período de instabilidade enorme e vai ter que tentar, e eu digo, tentar, né, produzir um sucessor, coisa que não fez até agora, e vai ter que promover reformas num sistema do qual ele mesmo foi o maior vencedor e o maior representante. Pensa bem no tamanho disso. Pedi ao maior campeão de um jogo que ajude a reescrever as regras desse jogo. Não é uma tarefa tarefa fácil e nem é certo que o presidente Lula esteja disposto a fazer esse esforço monumental. Se estiver, é certamente o político brasileiro em atividade com melhores condições para isso.

¶22Pensa nisso quando você for votar e vai votar, tá? Cá entre nós é das poucas coisas que ainda dependem só da gente. >> 1989. Desde então, nunca uma eleição presidencial despertou tão pouco interesse no brasileiro quanto essa também, né? Segundo nossa pesquisa Meia Ideia, 42% dos brasileiros vem os grupos de Lula e Flávio Bolsonaro como igualmente corruptos, quase metade do país.

¶23O resultado é cansaço, desesperança e muita gente simplesmente deixando de prestar atenção. Mas a gente está remando contra corrente. O meio acompanha pesquisas, entrevista especialistas, debate pontos de vista e mantém ativa uma produção que inclui newsletters, programas ao vivo, podcasts, documentários e análises para tentar entender o país [música] que vai sair dessa eleição. Olha, sem escolher candidato por você, tá? Sem transformar jornalismo em torcida.

¶24Mas um jornalismo que se recusa a entrar na torcida também precisa de quem acredite nele. Assine o meio premium. São R$ 15 por mês para [música] apoiar o meio a continuar fazendo esse trabalho todos os dias. [música] เฮ [música]