Flávia Tavares argumenta que a eleição de 4 de outubro encerra uma era, no mínimo a era Lula e possivelmente o arranjo desenhado pela Constituição de 1988, e sustenta isso com três transformações institucionais que já afastaram o país daquele desenho: o fim do presidencialismo de coalizão pela captura do orçamento, a crise de legitimidade do Supremo e a percepção popular de interferência estrangeira.
talvez
é análise política de qualidade, com diagnóstico institucional bem articulado (a captura do orçamento pelo Legislativo é a peça mais forte), mas fora do campo teológico do Bruno; interessa como pano de fundo para o que ele acompanha sobre religião e política, e a menção à transição "até espiritual" fica sem desenvolvimento.
O que foi dito
- Abre com a aritmética: desde 1989 houve dez eleições presidenciais, Lula esteve na urna em sete, escolheu a candidata em duas (2010 e 2014) e indicou o substituto quando foi impedido de concorrer em 2018; ou seja, nenhuma eleição da Nova República deixou de girar em torno dele.
- Justifica o “última” pela idade: Lula faz 81 anos em outubro, chegaria a 85 no pleito seguinte se perder, e não poderá se recandidatar se vencer.
- Primeira transformação, dinheiro e poder: o presidencialismo de coalizão, nome dado por Sérgio Abranches nos anos 1980, dependia de o presidente distribuir ministérios, cargos e execução orçamentária em troca de votos no plenário.
- Traça o desmonte desse sistema da emenda de 2015, que tornou impositivas as emendas individuais, ao auge no governo Jair Bolsonaro, com emendas de bancada obrigatórias, de relator e PIX, cardápio que transferiu a execução do orçamento ao Legislativo.
- Conclui que o centrão deixou de depender do Planalto para levar recursos às bases, se reelege com essa máquina orçamentária e hipertrofia o Legislativo, enquanto o presidente vira sócio minoritário do próprio orçamento.
- Segunda transformação, o Supremo: confiança na mais baixa da história e desconfiança que atravessa os dois campos ideológicos, alimentada pela conduta individual dos ministros (participação em eventos de lobby empresarial, familiares com contratos milionários de empresas com ações na corte) e, mais grave, pela disposição de prestar favores ao grupo político que os nomeou.
- Formula a consequência: quando o árbitro passa a ser visto como jogador pelos dois times, o jogo perde legitimidade, e uma Constituição sem guardião confiável fica exposta a quem queira contorná-la ou derrubá-la.
- Terceira transformação, a mais inédita: chegou à população em geral a percepção de que uma potência estrangeira pode ter interesse, e talvez ação, sobre o resultado da eleição brasileira, o que deixou de ser tema de diplomata ou de teoria de grupo de WhatsApp e abala a premissa pós-88 de que o destino do país se decide aqui dentro.
- Sobre os candidatos: Lula prometeu não se recandidatar, não construiu sucessor por razões que ela diz não entender de todo, e chega à urna com capital político enorme e rejeição igualmente grande.
- Sobre Flávio Bolsonaro: o clã sempre quis o sobrenome na urna, e ela duvida que Jair abençoasse Tarcísio de Freitas mesmo se o lulismo tivesse lançado Haddad ou Alckmin.
- Sobre o resto do sistema: Ronaldo Caiado tem candidatura praticamente virtual que não sai de Goiás, Romeu Zema é mantido na disputa para preservar a existência do Novo, e Renan Santos foi o único que tentou desafiar a polarização, talvez sem decolar por ser ele mesmo radical.
- Cenário de vitória de Flávio: sobrevida turbinada do bolsonarismo, com poder para definir os próximos vinte anos, apoio de Donald Trump e nenhum traquejo ou desejo de resolver as crises institucionais, já que o caos é parte da plataforma; ela registra que ele já procurou Davi Alcolumbre para um acordo que deixe tudo como está.
- Cenário de vitória de Lula: teria de conduzir o país em instabilidade enorme, tentar produzir um sucessor e reformar o sistema do qual foi o maior vencedor, o que ela formula como pedir ao maior campeão do jogo que reescreva as regras.