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TD Talk - Textos difíceis na Bíblia

a tese

Episódio de estreia do TD Talk, novo podcast de Rodrigo Bibo com Guilherme Nunes, dedicado não a um texto difícil específico mas à pergunta de por que a Bíblia tem textos difíceis, com a resposta girando em torno da distância de horizontes, da necessidade dos mestres que Deus dá à igreja e do critério para separar o cultural do permanente.

aprofundar

talvez

o nível é introdutório para você, mas a discussão sobre o critério do que é cultural, ancorada em Porter e Westfall, e a franqueza de admitir os textos que não sabem explicar merecem quinze minutos.

O que foi dito

  • O mesmo episódio foi publicado nos dois canais, aqui e no Bibotalk, mudando só a abertura publicitária (aqui, as imersões bíblicas que Nunes conduz há três anos, com Pedro em curso e Ester ou Habacuque em seguida).
  • A tese de partida de Nunes é que Deus deu a Bíblia a um povo dentro de um tempo, não em formato universal, e que a dificuldade vem do que ele chama, via Gadamer, de distanciamento de horizonte, somado à distância cultural, geográfica e étnica.
  • As analogias usadas são domésticas e eficazes: o comentário sobre estacionar o carro numa série americana que só faz sentido para quem morou em Nova York, e o americano rindo sozinho no cinema de piadas que a legenda não traduziu.
  • Os exemplos bíblicos alinhados são Rute aos pés de Boaz, a mulher “salva dando à luz filhos” de 1Timóteo 2.15, os espíritos em prisão de 1Pedro 3 (que será o primeiro texto da série) e o morno de Laodiceia, com a explicação pelos aquedutos de água quente e fria, que Nunes defende contra quem a considera superada.
  • Contra o “só preciso da Bíblia e do Espírito Santo”, herdado segundo Bibo da escola de Charles Fox Parham nas origens do pentecostalismo, Nunes responde que Deus deu mestres ao corpo, e Bibo acrescenta que Lucas fez pesquisa acurada e que Paulo, preso e sem saber se sairia, pediu os livros.
  • O bloco central é o da “atualização”: a lei de Moisés e a lei de Cristo, a descontinuidade que todos os sistemas teológicos admitem, o quarto mandamento como o único do decálogo que Jesus não retoma, os cinco discursos de Mateus apresentando Jesus como novo legislador, e Hebreus 7.12 (mudado o sacerdócio, muda-se a lei).
  • Bibo faz uma ressalva franca à moda de ler Jesus e Paulo dentro do judaísmo: reconhece o ganho histórico, mas insiste que Jesus é pedra de tropeço, e diz ter dificuldade com igrejas que adotam muitos elementos judaicos sem fazer a transição para Cristo.
  • A melhor pergunta do episódio é de Bibo: como discernir o que é cultural (véu, mulher calada) sem transformar “é cultural” em curinga para dispensar o que incomoda hoje.
  • A resposta de Nunes é que o próprio texto deixa pistas sobre o que é central, e no caso de 1Coríntios 11 o centro é o cabelo, não o véu, apoiando-se no comentário recente de Stanley Porter às pastorais e numa pesquisa cultural de Cynthia Long Westfall (grafia incerta na legenda); ele cita ainda uma aula de Gordon Fee que abre dizendo que a proibição de ir ao templo pagão não tem aplicação direta hoje, e admite abertamente não saber o que significa “julgaremos os anjos”.
  • Ele acrescenta a camada da tradução: toda tradução é escolha, e cita a Nova Almeida/NVI acusada injustamente de progressismo por verter ezer como aliada em vez de auxiliadora, além do episódio de shibolete em Juízes 12 como regionalismo dentro da própria Bíblia.
  • No fecho pastoral, Nunes estima que cerca de 27% da Bíblia é texto difícil, concentrado no Antigo Testamento e em Levítico, e argumenta que estudar um texto difícil exercita ao mesmo tempo teologia bíblica, histórica, sistemática e pastoral, além de preparar para as perguntas de fora (o extermínio dos cananeus, 1Timóteo 2.12 e a acusação de misoginia a Paulo).