a tese
Live de 83 minutos em que Sayão e Ariel Horovitz, de Jerusalém, desmontam o boato de que os judeus teriam achado e sacrificado a novilha vermelha e estariam reconstruindo o terceiro templo, com entrevista ao arqueólogo Zachi Dvira, do Projeto de Peneiramento do Monte do Templo, que considera utópicos os grupos empenhados nisso.
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tanto pelo conteúdo (o argumento de Dvira de que cada templo pertence à cultura do seu tempo é o melhor contraponto à escatologia da reconstrução) quanto pelo congresso, que acontece em São Paulo daqui a duas semanas e é acessível a você.
O que foi dito
- Sayão parte de Números 19 lendo o rito da pará adumá inteiro, a novilha sem defeito e sem canga, queimada fora do arraial com cedro, hissopo e lã escarlate, cujas cinzas misturadas à água purificam da impureza de contato com morto.
- Horovitz classifica o rito como chuqá, ordenança a ser cumprida sem que se entenda a lógica, e mostra que os detalhes vêm da Torá oral, Mishná e Guemará, e de Maimônides, não do texto bíblico.
- Segundo essa tradição, houve apenas nove novilhas vermelhas entre Moisés e a destruição do segundo templo, e dois pelos que não sejam vermelhos já desqualificam o animal, o que torna a décima novilha um evento raríssimo, associado por alguns à era messiânica.
- A cerimônia era feita no Monte das Oliveiras, de frente para o templo, e medições arqueológicas apontam para as imediações da capela Dominus Flevit, hoje cristã.
- Sobre o boato, Horovitz explica que há novilhas trazidas do Texas e criadas em Shiló pelo Instituto do Templo, grupo financiado e apoiado por evangélicos americanos, mas que só uma fração mínima dentro do setor religioso nacionalista (uns 10% da população) leva a reconstrução a sério, e que o judaísmo ultraortodoxo é contra.
- Ele é direto quanto à geopolítica: construir ali significaria remover o Domo da Rocha, e se uma caricatura já produziu mortes, isso produziria guerra com o mundo muçulmano, de modo que o governo israelense não trata do assunto.
- Sobre a localização do templo, o consenso se apoia em Flávio Josefo, nas descrições dos Evangelhos, na literatura rabínica, no muro ocidental herodiano e em inscrições achadas nas proximidades, entre elas a do lugar do toque da trombeta e a inscrição grega que proibia gentios de avançar sob pena de morte; a tese de Arafat de que o templo ficava no monte Gerizim é tratada como política, não ciência.
- O bloco central é a história do Projeto de Peneiramento: em 1999 o então estudante Zachi Dvira viu toneladas de entulho do Monte do Templo sendo despejadas no vale do Cedron e, com o professor Gabriel Barkay, criou o projeto que peneira esses escombros, já que escavar ali é proibido.
- Na entrevista em inglês, Dvira dá a resposta mais interessante da live: cada templo (tabernáculo, o de Salomão, o de Herodes, o de Ezequiel) correspondia à cultura do seu tempo, de modo que reerguer um templo de atributos romanos e agrários seria anacrônico; os obstáculos reais são a falta de unidade judaica, a necessidade de o judaísmo ter coragem de rever rulings, e só então a geopolítica; a novilha vermelha, diz ele, não é obstáculo nenhum, até porque a lei fala de uma vaca marrom e a exigência de perfeição é rabínica posterior, e a maioria ortodoxa espera que o templo desça do céu com o Messias.
- No bloco de perguntas, Sayão desativa o alarmismo escatológico com Mateus 24.14 e o dia e a hora que ninguém sabe, trata a eleição de Israel como responsabilidade e não favoritismo (Êxodo 19, Deuteronômio 7 e a casa de oração para todos os povos), e lê Gálatas 3.28 como unidade fraterna que não apaga a identidade judaica ou grega.
- Fecha com a relação entre arqueologia e fé, citando Yosef Garfinkel sobre serem caminhos paralelos, admitindo que as muralhas de Josué não foram achadas em Jericó, e dando dois casos em que a arqueologia mudou a leitura de textos: os paralelos de Nuzi para o arranjo de Sara e Agar, e os manuscritos do Mar Morto mostrando que o “ouvistes que foi dito” do Sermão do Monte não visa a lei mosaica, o que derruba a leitura antissemita de um Jesus contra Moisés.
- A live é também peça de divulgação do IX Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica, em São Paulo, de 27 a 29 de agosto, parceria do Moriá Center com a Faculdade Batista Pioneira, com Dvira, Horovitz e outros palestrantes, e link de desconto anunciado ao vivo.