A Última Semana de Daniel | Luiz Sayão
Sayão apresenta as três leituras clássicas das setenta semanas de Daniel 9, a crítica (Macabeus), a preterista (até Jesus ou até o ano 70) e a futurista (última semana suspensa, reservada ao anticristo), descarta a primeira e termina sugerindo que o padrão de profanação do templo pode se repetir de modo apoteótico no fim.
talvez
o panorama é honesto e bem organizado, mas fica no nível de introdução e não enfrenta o problema técnico que interessa (a contagem a partir de qual decreto, e o estatuto do gênero apocalíptico em Daniel).
- O vídeo é gravado num cenário de Jerusalém destruída e parte do enquadramento de Daniel 9 no exílio, com a perda da terra, da cidade e do templo gerando a expectativa de uma redenção futura.
- Sayão lê Daniel 9.24-27 inteiro e trata as “semanas” (shavuim, literalmente setes) como períodos de sete anos, chegando aos 483 anos das 69 semanas.
- O decreto inicial é identificado com a carta do período persa de Esdras 7.11, e a divisão 7 + 62 é explicada como o tempo de reconstrução de Jerusalém (cerca de 49 anos) seguido do longo intervalo até o ungido.
- A leitura crítica, que situa tudo na crise macabaica de 167 a 165 a.C., sob Antíoco IV Epífanes e os selêucidas, é apresentada e descartada como “muito pouco razoável” por não encaixar todos os elementos do texto.
- Na leitura preterista, o ungido “cortado” é Jesus, a aliança da última semana é a nova aliança e o sacrilégio terrível é a presença romana no santíssimo em 70 d.C.
- Na leitura futurista, a última semana fica suspensa: a aliança é a do anticristo num templo reconstruído, rompida no meio da semana, com apelo a Mateus 24.15 e ao fato de o texto falar do “teu povo” e da “tua cidade santa”, isto é, Israel e Jerusalém.
- Sayão observa que o argumento mais forte da leitura futurista é o peso das promessas do v. 24 (acabar com a transgressão, trazer justiça eterna, ungir o santíssimo), que parecem exigir algo mais amplo e concreto do que o cumprido até aqui.
- Ele registra o mapa sociológico da discussão: a maioria dos estudiosos é preterista, uma minoria é crítica, e o público evangélico brasileiro tende ao futurismo.
- A saída que ele próprio insinua é tipológica: Babilônia no século VI, Antíoco no II, Roma em 70 formam um padrão de profanação que nada impede de se repetir numa manifestação final, o que combinaria passado e futuro.
- Não toma partido: encerra devolvendo a pergunta ao espectador nos comentários, no formato de aula de panorama que é a marca do canal.
A Novilha Vermelha e o Templo de Jerusalém! | Luiz Sayão e Ariel Horovitz
Live de 83 minutos em que Sayão e Ariel Horovitz, de Jerusalém, desmontam o boato de que os judeus teriam achado e sacrificado a novilha vermelha e estariam reconstruindo o terceiro templo, com entrevista ao arqueólogo Zachi Dvira, do Projeto de Peneiramento do Monte do Templo, que considera utópicos os grupos empenhados nisso.
sim
tanto pelo conteúdo (o argumento de Dvira de que cada templo pertence à cultura do seu tempo é o melhor contraponto à escatologia da reconstrução) quanto pelo congresso, que acontece em São Paulo daqui a duas semanas e é acessível a você.
- Sayão parte de Números 19 lendo o rito da pará adumá inteiro, a novilha sem defeito e sem canga, queimada fora do arraial com cedro, hissopo e lã escarlate, cujas cinzas misturadas à água purificam da impureza de contato com morto.
- Horovitz classifica o rito como chuqá, ordenança a ser cumprida sem que se entenda a lógica, e mostra que os detalhes vêm da Torá oral, Mishná e Guemará, e de Maimônides, não do texto bíblico.
- Segundo essa tradição, houve apenas nove novilhas vermelhas entre Moisés e a destruição do segundo templo, e dois pelos que não sejam vermelhos já desqualificam o animal, o que torna a décima novilha um evento raríssimo, associado por alguns à era messiânica.
- A cerimônia era feita no Monte das Oliveiras, de frente para o templo, e medições arqueológicas apontam para as imediações da capela Dominus Flevit, hoje cristã.
- Sobre o boato, Horovitz explica que há novilhas trazidas do Texas e criadas em Shiló pelo Instituto do Templo, grupo financiado e apoiado por evangélicos americanos, mas que só uma fração mínima dentro do setor religioso nacionalista (uns 10% da população) leva a reconstrução a sério, e que o judaísmo ultraortodoxo é contra.
- Ele é direto quanto à geopolítica: construir ali significaria remover o Domo da Rocha, e se uma caricatura já produziu mortes, isso produziria guerra com o mundo muçulmano, de modo que o governo israelense não trata do assunto.
- Sobre a localização do templo, o consenso se apoia em Flávio Josefo, nas descrições dos Evangelhos, na literatura rabínica, no muro ocidental herodiano e em inscrições achadas nas proximidades, entre elas a do lugar do toque da trombeta e a inscrição grega que proibia gentios de avançar sob pena de morte; a tese de Arafat de que o templo ficava no monte Gerizim é tratada como política, não ciência.
- O bloco central é a história do Projeto de Peneiramento: em 1999 o então estudante Zachi Dvira viu toneladas de entulho do Monte do Templo sendo despejadas no vale do Cedron e, com o professor Gabriel Barkay, criou o projeto que peneira esses escombros, já que escavar ali é proibido.
- Na entrevista em inglês, Dvira dá a resposta mais interessante da live: cada templo (tabernáculo, o de Salomão, o de Herodes, o de Ezequiel) correspondia à cultura do seu tempo, de modo que reerguer um templo de atributos romanos e agrários seria anacrônico; os obstáculos reais são a falta de unidade judaica, a necessidade de o judaísmo ter coragem de rever rulings, e só então a geopolítica; a novilha vermelha, diz ele, não é obstáculo nenhum, até porque a lei fala de uma vaca marrom e a exigência de perfeição é rabínica posterior, e a maioria ortodoxa espera que o templo desça do céu com o Messias.
- No bloco de perguntas, Sayão desativa o alarmismo escatológico com Mateus 24.14 e o dia e a hora que ninguém sabe, trata a eleição de Israel como responsabilidade e não favoritismo (Êxodo 19, Deuteronômio 7 e a casa de oração para todos os povos), e lê Gálatas 3.28 como unidade fraterna que não apaga a identidade judaica ou grega.
- Fecha com a relação entre arqueologia e fé, citando Yosef Garfinkel sobre serem caminhos paralelos, admitindo que as muralhas de Josué não foram achadas em Jericó, e dando dois casos em que a arqueologia mudou a leitura de textos: os paralelos de Nuzi para o arranjo de Sara e Agar, e os manuscritos do Mar Morto mostrando que o “ouvistes que foi dito” do Sermão do Monte não visa a lei mosaica, o que derruba a leitura antissemita de um Jesus contra Moisés.
- A live é também peça de divulgação do IX Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica, em São Paulo, de 27 a 29 de agosto, parceria do Moriá Center com a Faculdade Batista Pioneira, com Dvira, Horovitz e outros palestrantes, e link de desconto anunciado ao vivo.
O Maná era mesmo real? | Luiz Sayão
Num vídeo encenado no "deserto", Sayão percorre Êxodo 16 e Números 11 para argumentar que as explicações naturalistas do maná (secreções açucaradas de plantas do Oriente Próximo, entre elas a tamargueira) não cabem na descrição bíblica, e conclui pela lição de dependência diária que desemboca em João 6.
não
é divulgação leve e a discussão das hipóteses naturalistas fica na superfície (nenhuma fonte é nomeada, e a crítica se apoia só na descrição do texto), sem nada que você já não tenha.
- A leitura começa por Êxodo 16.13-16, com as codornizes, o orvalho e os flocos finos semelhantes a geada, e pela pergunta que dá nome ao alimento (man hu, “que é isso?”).
- Sayão recolhe os dados descritivos espalhados no texto: branco como semente de coentro, gosto de bolo de mel em Êxodo, aparência de resina ou bdélio e gosto de bolo amassado com azeite em Números 11, moído em moinho ou pilão.
- Registra o jarro de maná guardado junto às tábuas da aliança e os quarenta anos de provisão até a fronteira de Canaã, citando Êxodo 16.34.
- Contra as explicações naturalistas, exibe fotos de plantas do Oriente Próximo que produzem secreção adocicada, entre elas a tamargueira, e argumenta que a descrição bíblica não bate nem com o fruto nem com o ambiente desértico da narrativa.
- O argumento decisivo que ele usa não é botânico, mas narrativo: o apodrecimento do que era estocado, a dupla porção na véspera do sábado e a ausência de maná no próprio sábado não têm análogo natural.
- Traz a leitura rabínica de tradição talmúdica segundo a qual o maná caía mais perto dos justos e mais longe de quem precisava aprender, tomando o alimento como estímulo ao estudo da Torá.
- A aplicação é a dependência diária contra o acúmulo, com a crítica ao povo que reclama pouco depois de libertado (o “murmúrio” de Números 11) e uma passagem pela figura contemporânea do acumulador.
- Fecha em João 6, com Jesus corrigindo a atribuição do pão a Moisés e se declarando o pão vivo, o que faz do maná figura do alimento espiritual.
- O formato é de divulgação encenada, com o pregador comendo um “bolo de maná” em cena e piadas recorrentes sobre a murmuração do povo.