Respondendo à dúvida do interlocutor Enzo (Davi não teria sido pior que Saul, somados os erros?), Victor Fontana argumenta que "homem segundo o coração de Deus" não é elogio ao caráter de Davi, mas designação do tipo de rei que a vontade de Deus queria para Israel; e que a comparação entre os dois não se resolve em ranking moral, porque Saul erra por impulso sem se arrepender e Davi erra por cálculo, se arrepende e volta a calcular.
talvez
o vídeo é catequético e o formato é de dúvida de leigo, mas a leitura vocacional (não moral) de "homem segundo o coração de Deus" e o enquadramento da monarquia pela comunidade alternativa de Brueggemann rendem conversa, sobretudo pela crítica ao modelo de liderança que ele lança contra o meio evangélico.
O que foi dito
- Corrige a leitura popular: coração, na mentalidade hebraica, é centro da cognição, do desejo e da vida, não sede do sentimento; logo “segundo o coração de Deus” diz respeito ao querer de Deus quanto ao rei, não à bondade de Davi.
- Contrapõe os dois modelos de realeza: Saul é o rei “segundo o coração das nações estrangeiras” (alto, forte, viril, fértil, militar), que Israel pediu para ser como os outros povos, e Deus o concede; Davi é o jovem franzino, pastor, poeta, sensível.
- Ancora o contraste em Walter Brueggemann (Imaginação Profética): a Torá modela Israel como “comunidade alternativa” cujos valores são o amor mútuo e a proteção do vulnerável, da viúva, do órfão e do estrangeiro, e um rei igual ao das nações destruiria essa alternativa.
- Lê a queda de Davi como o momento em que ele passa a exibir justamente as marcas do rei estrangeiro: viril demais, fértil demais, violento como os outros.
- Reconstrói a inveja de Saul a partir de 1Samuel 17-18: Saul escolhe Davi como comandante por perceber sua competência militar, mas se volta contra ele quando as mulheres cantam que Saul matou milhares e Davi dezenas de milhares, ferindo justamente o eixo da virilidade e do prestígio.
- Faz uma aplicação dura ao meio evangélico: Saul é paradigma do líder que a igreja média deseja (shape, barba, dentes refeitos, milhões de seguidores) e que é seduzido pela própria potência; Davi é paradigma do líder respeitado que, no gabinete e longe dos olhos, calcula o mal.
- Concede que Davi é melhor por se arrepender e por ter coragem de dizer a Deus, nos salmos, o que pensa dele, mas insiste que o pecado calculado reaparece até o fim (o censo, lido como contagem dos potenciais inimigos das tribos do norte) e é herdado por Salomão.
- Na segunda metade, responde a Enzo sobre ambição: usa a analogia da palavra “manga” para separar sentidos homônimos, liga ambição a ganância e, por Colossenses 3, a idolatria, mas nega o ascetismo do sem-desejo, já que Deus não quer o convertido parado onde estava.
- Propõe como critério a pergunta “quão missionário é o meu planejamento de vida?”, com o exemplo de Paulo querendo evangelizar a Espanha: era vontade de Deus que Paulo tivesse o desejo, ainda que o desejo não se realizasse.
- Fecha com Gênesis 11-12: em Babel os homens querem fazer famoso o próprio nome, e Deus promete a Abraão exatamente isso como subproduto de um chamado missionário, tirando-o da fértil planície aluvial de Ur (o “mangue” da Mesopotâmia, onde a vida brota sozinha) para a terra que lhe será mostrada.