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O Cristão e a Lei - TD Talk 002

a tese

Segundo episódio do TD Talk (conversa sobre textos difíceis), com Guilherme Nunes e o anfitrião do Bibotalk, lendo 1Coríntios 9.19-23 para sustentar que Paulo não divide a lei em cerimonial, civil e moral, e sim contrasta dois regimes dentro de um gênero maior: a lei de Deus se realiza primeiro como lei mosaica e agora como lei de Cristo, e é essa segunda forma que dá o critério de leitura do Antigo Testamento.

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talvez

o episódio é conversado e digressivo (leva quinze minutos de novela e recados antes de entrar no texto), mas a discussão do gênero lei de Deus com duas formas e a recusa da divisão tríplice conversam direto com o seu terreno, e o desacordo Kaiser contra Moo sobre o sábado em 1Coríntios 9.20 é um bom gancho para você examinar com a literatura própria.

O que foi dito

  • Leem o texto em várias versões (NVI, NAA, NTLH, NVT) e param no incômodo de todas: Paulo parece dizer que finge estar debaixo da lei. Observam que a NTLH acerta ao traduzir por “vivo como se estivesse debaixo dessa lei”, explicitando a estratégia missionária em vez de sugerir dissimulação.
  • O anfitrião defende que o fingimento aqui não é mentira maliciosa, e ilustra com exemplos domésticos de omissão protetora com os filhos; Guilherme Nunes prefere reformular: Paulo não finge, ele opera pelos pontos de contato, os mandamentos que já são comuns às duas formas da lei (segundo, terceiro, quinto), e os pratica diante do judeu sem se colocar sob o regime mosaico.
  • Notam que no v. 20 as duas expressões (para os judeus e para os que estão debaixo da lei) designam o mesmo grupo, e que o pressuposto o tempo todo é lei mosaica, não lei em geral.
  • Discutem a força de “fiz-me judeu” dito por um judeu de nascimento, e leem isso como sinal de que a identidade mudou de estatuto: mencionam Michael Bird e a figura do judeu anômalo, alguém que ainda é judeu e já não é, e localizam a ruptura no evento de Damasco, com a especulação (que eles mesmos marcam como especulação) de que o problema de visão relatado aos Gálatas seria sequela daquela cegueira.
  • O único desacordo real do episódio é sobre o sábado: o anfitrião acompanha Walter Kaiser, para quem Paulo observaria tudo, inclusive dietas e sábado, quando entre judeus, por estratégia missionária; Guilherme Nunes acompanha a réplica de Douglas Moo no Cinco Pontos de Vista sobre Lei e Evangelho, argumentando que o sábado deixou de ser ponto de contato porque Cristo o desmarcou, e que Paulo não faria diante de gentios nem de judeus algo que ferisse a lei de Cristo (comer no banquete idolátrico, por exemplo).
  • O núcleo teológico do episódio é a estrutura: existe um gênero, a lei de Deus, e duas formas históricas dele, a mosaica e a de Cristo. Paulo não se diz livre da lei de Deus, e sim sob outra forma dela, com outro legislador, dentro da nova aliança, o que os leva a 2Coríntios 3 e à letra que mata contra o Espírito que vivifica.
  • A crítica central deles é à divisão tríplice da lei (cerimonial, civil, moral): argumentam que nenhum autor do Novo Testamento a faz, que Paulo trata sempre da lei como um todo, e que Hebreus 7.12, ao dizer que a mudança de sacerdócio exige mudança de lei, também fala da lei inteira. Acrescentam que a divisão patina justamente onde mais se apoia nela, no quarto mandamento, onde alguns precisam dizer que o dia é cerimonial e o guardar é moral sem ter de onde tirar esse corte.
  • O critério substituto que propõem é cristológico: ler o Antigo Testamento pelas lentes de Cristo, ou pela lei do amor, com exemplos de leis levíticas cuja função original era sanitária e cuidado com o povo, e com a observação de que Atos 15 preserva algumas abstenções por razão missionária local, não por moral universal.
  • Fecham em Romanos 12 e na consequência prática que sabem ser desconfortável: não há cartilha na nova aliança, a orientação vem da mente transformada e da relação com o Espírito, e a Bíblia não tem resposta pronta para todo dilema moral contemporâneo, o que eles articulam com a ideia de improvisação de N. T. Wright, com o último ato já escrito (o Cordeiro vence) e a igreja improvisando no ato anterior.
  • Duas imprecisões que ficam registradas: atribuem a discussão do fraco e do forte a Romanos 16 quando ela está em Romanos 14 e 15, e transportam esse fraco para 1Coríntios 9.22 identificando-o com o judeu escrupuloso, quando o contexto imediato (1Coríntios 8 a 10) trata do irmão de consciência frágil quanto a carne sacrificada, sem recorte étnico.

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