Dylan Patel, da SemiAnalysis, argumenta que Anthropic e OpenAI estão absorvendo uma fatia crescente e acelerada de toda a computação do mundo (cerca de 30% do incremento neste ano, 40% a 50% no próximo), de modo que até o fim de 2028 duas empresas controlariam a maior parte dos flops úteis do planeta e, com isso, a maior parte da futura força de trabalho efetiva. A conversa desdobra as consequências financeiras (capex de trilhões, juros em alta, possível onda de calotes soberanos) e políticas (regulação como o único freio real) dessa concentração.
sim
porque a conversa entrega números concretos sobre concentração de poder computacional em duas empresas e sobre o efeito disso na economia mundial, material direto para uma análise avulsa do Bruno sobre poder, trabalho e responsabilidade cristã diante da automação.
O que foi dito
- Dylan Patel abre situando o presente: quase todo o crescimento do PIB americano no ano passado veio de infraestrutura de IA, o capex de 2026 passa de 1 trilhão de dólares e deve superar 2 trilhões no ano seguinte, com os laboratórios saindo de dezenas de bilhões por ano para centenas de bilhões e, ao fim da década, trilhões.
- Ele marca a virada econômica dos laboratórios: até um ano atrás serviam modelos com margem bruta negativa (GPT-4 em GPUs Hopper da Nvidia dava prejuízo), a Anthropic passou a dar lucro no segundo trimestre e a OpenAI possivelmente no terceiro; a receita por megawatt saiu da base de custo de 10 a 15 milhões de dólares e chegou a cerca de 50 milhões no caso da Anthropic, permitindo gastar 10 em inferência, faturar 50 e reinvestir o lucro em treinamento.
- Sobre centralização, Patel detalha que Anthropic e OpenAI saíram de menos de 2 gigawatts no início do ano para mais de 5 cada, que a SpaceX entra como grande construtora e locadora de computação para ambas, que a OpenAI faz chips próprios e a Anthropic compra TPUs do Google implantados com a Fluid Stack, e que metade da computação incremental do mundo será deles já no fim do ano que vem.
- Ele acrescenta um multiplicador de qualidade: os watts novos (GB300, TPU v7, Trainium 3) rendem de 3 a 5 vezes mais desempenho por watt que a geração anterior, então dominar metade do incremento em 2027 significa dominar bem mais que metade da capacidade utilizável.
- Dwarkesh Patel pressiona sobre o gargalo de oferta, citando os números que o convidado dera antes (55 mil wafers N3, 6 mil N5 e 170 mil wafers de DRAM por gigawatt) e o cálculo de que 6 bilhões de capex em fábrica geram um gigawatt por ano que rende 100 bilhões de receita, discrepância de 100 vezes; Dylan responde que o capitalismo reage como chicote, com atraso, e que a ASML só planeja chegar a 100 ferramentas EUV por ano em 2030 mesmo com a demanda pedindo mais.
- Dylan aponta um freio novo: a regulação já atrasa os laboratórios ocidentais mais que os modelos chineses de código aberto, com a OpenAI segurando o Astra e parando de treinar por duas semanas e a Anthropic não liberando o modelo apontado na avaliação de segurança, além de Nova York proibir data centers, Texas discutir moratórias e Ohio cobrar imposto no entorno, tudo isso reduzindo oferta e elevando preço.
- Ele defende uma tese que chama de não consensual: os laboratórios vão alocar percentual decrescente de computação para inferência e crescente para pesquisa interna, porque construir AGI rende mais que dividendos e recompra de ações, e afirma que a Anthropic já faz isso hoje, já que a receita platô enquanto a computação segue subindo; segundo ele o pré-treino do modelo mais recente da Anthropic usou menos de 200 megawatts por cerca de dois meses, enquanto metade da capacidade da empresa vai para pesquisa exploratória.
- Sobre a China, Dylan estima que hoje menos de 10% dos watts de data center de IA estão lá contra 70% nos Estados Unidos, projeta no máximo 30 gigawatts chineses em 2028 e uma inflexão a partir de fábricas domésticas da SMIC e da CXMT, com 50 gigawatts plausíveis em 2029 valendo o equivalente a 20 americanos pela qualidade inferior dos chips; Dwarkesh conclui que os controles de exportação, sobre os quais tinha dúvidas ao entrevistar Jensen Huang, parecem ter funcionado.
- A parte financeira projeta 11 trilhões de dólares de capex entre 2024 e 2029, 6 financiados por caixa e 5 por dívida, empurrando juros para cima (Meta pagando 8% em vez de 5,5%), esmagando o valor de ações de fluxo de caixa estável como Johnson & Johnson e provocando, na leitura do economista Basil Halperin (grafia incerta) citada por Dwarkesh, um segundo choque Volcker com calotes em países como Paquistão e Nigéria.
- No fecho, Dwarkesh Patel calcula que a população efetiva de trabalhadores de IA na fronteira cresce cerca de 10 vezes ao ano e que antes do fim da década um único laboratório pode ter mais equivalentes de trabalho que a população humana da Terra, o que torna o alinhamento desses modelos equivalente ao alinhamento da maior parte das mentes do mundo; Dylan responde que não confia no governo, nem em Dario Amodei, nem em Elon Musk, e que só a desaceleração regulatória impediria a concentração total, mencionando com ironia a esperança de uma “máquina que ama a graça”.