a tese
Resposta em três partes ao caso de Joe Schmid (e Ethan Muse) a favor do catolicismo com base em milagres. Nesta parte 1, o autor (ex-católico hoje budista) adota estratégia de "advogado de defesa": concede todos os milagres e ataca só as inferências, sustentando que dos milagres não se chega ao catolicismo, nem sequer ao teísmo.
aprofundar
talvez
é filosofia da religião densa e pertinente ao interesse do Bruno em teísmo clássico e ocultamento divino (útil como munição sobre o argumento demográfico de Maitzen e a distinção manifestação/endosso, e casa com o interlocutor Rafael Gaspar), mas são 2h de canal ateu/budista com muita digressão, ataque à inerência e só a primeira de três partes.
O que foi dito
- Enquadra o debate como um julgamento em que Schmid e Ethan são a acusação; sua defesa não disputa a “prova” (os milagres), e sim oferece explicações alternativas que baixam a probabilidade da conclusão católica, deixando a refutação dos milagres para os céticos naturalistas.
- Primeiro alvo é o modelo de ocultamento divino (divine hiddenness) de Schmid, que calibra a evidência para ser forte o bastante para a fé, mas fraca o bastante para preservar a dúvida, e que Schmid usa para acomodar os erros aparentes da Escritura; o autor o acusa de repousar num “delivery model” (revelação como entrega de conteúdo proposicional/graça) que gera o “mutation problem”.
- Aciona o argumento demográfico de Stephen Maitzen: a distribuição de crença não é uniforme e segue acidentes culturais e históricos (Arábia Saudita ~95% teísta, Tailândia majoritariamente não-teísta), de modo que a “calibração” da evidência não explica por que a graça ou a evidência católica coube ao Ocidente e faltou por um milênio a metade oriental do mundo.
- Vira o modelo contra o próprio magistério: se o ocultamento permite erros aparentes na Escritura, por que pararia no magistério? Ou se aplica a ele (e um pronunciamento ex cathedra errôneo falsificaria o catolicismo, dado que o Vaticano I define a infalibilidade como garantia sobrenatural positiva), ou se cria uma exceção ad hoc sem motivação independente, justo no ponto mais vulnerável da teoria.
- Contra a tese de Ethan de que “Deus não daria testemunho de uma mentira”, recorre a Derek Lambert (MythVision) e a passagens (Deuteronômio 13, o espírito mentiroso de 1Reis 22, Ezequiel 14) para afirmar que o próprio Deus bíblico engana; acrescenta, na linha histórico-crítica (cita “David Kip”, grafia incerta), que o Deus do Antigo Testamento é uma deidade de tempestade do Antigo Oriente Próximo, não o Deus perfeito do teísmo clássico, que seria camada posterior.
- Propõe seu modelo de acomodação, a “manifestation hypothesis”, ancorado numa “meaning web” (formas de vida de Wittgenstein, holismo de Quine, ciência cognitiva da religião) e distingue manifestação (Deus se torna presente dentro do quadro simbólico que o fiel já habita) de endosso (afirmar verdadeiro o sistema proposicional, como transubstanciação ou sucessão apostólica); um milagre eucarístico seria manifestação, não certificação da doutrina, e por isso não exige que Deus seja enganador.
- Responde à objeção da não-unicidade (por que os milagres privilegiariam só o catolicismo) apontando curas e fenômenos em comunidades protestantes e pentecostais, que o catolicismo metafísico só acomoda com auxiliares ad hoc (demônios, falsificações, coincidência); e acusa o argumento bayesiano de Schmid de circularidade, pois não existe descrição neutra do evento, já percebido como “milagre eucarístico” dentro da meaning web católica.
- Apresenta a alternativa não-teísta budista: milagres como “amadurecimento cármico” (karmic ripening), um processo com padrão de lei natural e sem agente, que evita o “agent gap” (a ponte de razão prática que o teísmo precisa para explicar este milagre e não outro) e o problema de distribuição; Padre Pio com os estigmas na mão e não no pulso seria melhor predito pelo carma, e usa a analogia do sonho e o “tua fé te salvou” do NT como versão cármica em linguagem cristã.
- Fecha ressalvando que propõe o ripening apenas como modelo útil, “convencionalmente verdadeiro”, não como descrição literal da realidade, e que Schmid e Ethan não interagiram com as tradições orientais nem com modelos de acomodação mais sofisticados; parte 2 trará contraevidências específicas e parte 3 um reductio do salto do milagre à teologia.