Kyle Alander fecha a trilogia de resposta a Joe Schmid e Ethan Muse atacando não as premissas, mas o próprio enquadramento dos "milagres vindicatórios". A tese é o que ele chama de problema do empacotamento: evidência de uma anomalia nunca se transfere para a cosmologia pendurada nela, de modo que nenhum milagre, por bem documentado que seja, discrimina uma tradição contra as rivais.
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é a crítica mais séria que já apareceu no caso Schmid e o argumento interessa muito além dele, porque a lacuna de especificidade e o problema do empacotamento atingem qualquer apologética de evidência, inclusive a protestante, e porque o bloco final sobre os messias do Segundo Templo e a reinterpretação do cumprimento profético é terreno exegético direto para o Bruno responder.
O que foi dito
- Ele distingue com clareza a alegação de anomalia (algo ocorreu que resiste a explicação naturalista comum, como o sol de Fátima, os estigmas de Padre Pio ou os milagres eucarísticos) da alegação de cosmologia (o quadro metafísico que diz por que ocorreu e o que significa, como transubstanciação ou aparição mariana), e sustenta que a ponte entre as duas não existe.
- A formalização é feita no mesmo terreno bayesiano usado por Schmid: a probabilidade da cosmologia dada a anomalia não sobe só porque a anomalia está bem evidenciada, porque o que decide é a razão de verossimilhanças contra toda a negação da hipótese, que inclui não apenas o naturalismo, mas todas as cosmologias rivais, inclusive não naturalistas.
- Ele avisa de saída, com honestidade, que a crítica não atinge só católicos, derruba também a estratégia apologética protestante dos últimos cinquenta anos, e que Schmid é só um caso particular de um padrão maior.
- Os casos budistas vêm da tradição dele: corpos de arco-íris parciais (cadáveres que encolhem) e completos (que desaparecem), com a expedição do padre católico Francis Tiso ao caso de Khenpo A Chö em 1998, documentado dois anos depois do evento com testemunhas nomeadas, inclusive a sobrinha do monge, e relatos de arco-íris de cinco cores sobre a ermida por vários dias.
- O paralelo mais afiado é o milagre solar de Dhammakaya, em 6 de setembro de 1998, com cerca de vinte mil pessoas, relatos independentes de sol girando e mudando de cor (rosa, azul, laranja arroxeado) e um depoimento de estudante de ciências dizendo que aquilo escapava à explicação ordinária, estrutura quase idêntica à de Fátima. Ele próprio registra a fragilidade do caso, reconstruído a partir de tópicos de Facebook e fórum, e observa que o mesmo problema de reconto acontece com Fátima.
- O caso mais forte da lista dele é tummo, a meditação de fogo interno das seis ioga de Naropa, com o estudo de Herbert Benson nos anos 1980 documentando aumento de até 17 graus na temperatura dos dedos, e replicação por uma pesquisadora cética em 2013 (nome corrompido na legenda), inclusive com elevação de temperatura central, ou seja, fenômeno psicofísico replicável em literatura revisada por pares.
- Entram também casos de reencarnação do tipo investigado por Ian Stevenson, com crianças fazendo afirmações verificáveis sobre famílias distantes antes de qualquer checagem, e o jejuador Prahlad Jani, vigiado por câmeras por quinze dias em dois ensaios separados por sete anos, que atribui o feito à deusa Amba. Contra a resposta de Schmid, de que Deus não permitiria falsificação do próprio nome mas permitiria sinais ligados a deidades subdivinas, ele objeta três vezes: o critério é o problema do mal em roupa de milagre e prova demais, a própria doutrina católica da ignorância invencível já admite que Deus tolera erro teológico sincero, e Amba não é deidade menor na tradição em questão, sendo teologizada como forma de Durga e como Adi Parashakti, a fonte primordial.
- O caso que ele considera o melhor de todos é Ramanujan, porque dispensa testemunho ocular: milhares de resultados verdadeiros e inéditos sem derivação, produzidos por um autodidata cujo único recurso era a sinopse de Carr dos anos 1880, resultados que você pode conferir você mesmo, inclusive o caderno perdido reencontrado por George Andrews em 1976 com mais de seiscentas fórmulas, e as funções theta falsas, que só ganharam definição adequada quando foram ligadas às formas de Maass harmônicas numa tese de 2002, oitenta e dois anos depois. Ramanujan atribuía os resultados à deusa Namagiri e dizia que uma equação só tem sentido se expressa um pensamento de Deus, e ainda assim ninguém conclui daí que o hinduísmo é verdadeiro.
- Ele reconstrói então o argumento adversário em seis premissas que Schmid nunca enuncia (manifestação como endosso doutrinário, evidência discriminante, descrição neutra do evento, coerência como critério, processo certificador neutro) e ataca cada uma, notando que o magistério é simultaneamente parte interessada e juiz. A objeção nova, que ele diz ser a razão da demora, é a lacuna de especificidade: concedido o teísmo e concedido o milagre, a negação da história cristã não é outra religião qualquer, é a disjunção completa de todo quadro compatível com teísmo capaz de explicar aquele sinal, incluindo quadros nunca formulados, e mesmo verossimilhanças modestas somadas nessa disjunção superam a fatia a priori da história cristã.
- Contra a réplica do contexto religioso ele usa duas peças: o acomodacionismo, com o próprio Krishna dizendo que aparecerá na forma em que o devoto o adora (o que torna o contexto garantido em toda a disjunção, não discriminante), e o Segundo Templo, com Teudas repetindo o Êxodo no Jordão, o profeta egípcio de Josefo e de Atos 21 prometendo a queda dos muros, Judas Galileu, Simão bar Kokhba e Sabatai Zevi, todos com fundador, sinal, moldura profética e comunidade. Ele conclui que a alegação cristã de cumprimento profético cai no mesmo problema, porque as expectativas messiânicas hebraicas eram específicas (libertação militar, trono davídico, reunião dos exilados, paz universal, templo reconstruído) e tiveram de ser reinterpretadas, exatamente como os rivais fizeram com as próprias.
- O fecho é uma parábola: Gary, eletricista de Ohio, acerta três loterias com previsões registradas em cartório e atribui isso a Garblo, um contador interdimensional, e duas gerações depois um concílio de anciãos decide que há exatamente sete ritos garbânicos, distingue matéria e forma do rito, declara condenados os sinceros de um profeta rival de Nevada cuja anomalia é idêntica, e é o único órgão habilitado a julgar isso, sendo também o que a decisão protege. A moral: empilhar cem saltos não licenciados não licencia o primeiro, e a complexidade acumulada sobre uma inferência inválida continua inválida, só ficou boa em não parecer.