a tese
Pedro Doria abre "a planilha" do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e sustenta com três contas (quanto custa, quanto rende, de onde vem o dinheiro) que o aporte de Daniel Vorcaro não pode ter sido investimento, e que o dinheiro não era privado nem estrangeiro: saiu do Banco Master enquanto este só se sustentava com bilhões despejados pelo BRB, banco público.
aprofundar
não
no sentido de virar trabalho, mas é a peça jornalística mais bem construída do Meio nesta leva, e o método explicitado no fim (perguntar sempre quanto custou, quanto rende e de onde veio) serve para qualquer alegação financeira, inclusive eclesiástica.
O que foi dito
- Primeira conta: em dezembro de 2024 Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro 24 milhões de dólares, cerca de 134 milhões de reais no câmbio da época, contra uma média Ancine de 4 a 5 milhões por ficção brasileira e 40 a 50 milhões do filme mais caro do país, “Ainda Estou Aqui”; o valor supera o custo de 15 dos últimos 20 vencedores do Oscar de melhor filme, e “Parasita” custou menos da metade disso.
- Segunda conta: o plano de negócios apreendido no celular de Vorcaro previa bilheteria de 100 milhões de dólares no cenário otimista, 70 no conservador e 45 no pessimista, o que a 20 reais o ingresso dá 11,5 milhões de espectadores, ou seja, o pior cenário vendido ao banqueiro equivalia a empatar com o recorde histórico do cinema brasileiro.
- A distribuidora Europa Filmes, que comprou os direitos, trabalha com 800 mil a 2 milhões de espectadores, e como o produtor fica com cerca de um quinto da bilheteria pela conta da própria Ancine, o retorno realista seria de 3 a 8 milhões de reais contra os 134 pedidos; devolver o valor só no cinema exigiria 33 milhões de ingressos, o triplo do recorde nacional.
- Na planilha de custos do inquérito, o cachê previsto para Jim Caviezel, que faria Bolsonaro, era de 4 milhões de dólares, o mesmo que Robert Downey Jr. recebeu por “Oppenheimer”, embora o filme anterior de Caviezel com o mesmo diretor tenha arrecadado 4 milhões no total nos Estados Unidos; a peruca, essa, custou comprovadamente 10 mil reais.
- Terceira conta, o caminho do dinheiro: em 13 de fevereiro de 2025 saem 2 milhões de dólares da empresa Entre Investimentos e Participações, de Antônio Carlos Freixo Júnior (o “mineiro”), passando pelo BS2 e pelo JP Morgan até um fundo em Dallas chamado Ravengate, com o cunhado de Vorcaro celebrando por mensagem; na semana anterior a remessa pelo câmbio do próprio Master havia falhado.
- O Ravengate foi criado em 2020 para um loteamento no Texas que nunca saiu do papel e ficou quase quatro anos parado; é tocado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro (nome de grafia incerta na legenda) com um corretor de imóveis brasileiro na Flórida, e o contrato com a produtora só foi assinado onze dias depois de o primeiro dinheiro cair. Cerca de 21 milhões de reais voltaram ao Brasil por Pix para pagar hotel, segurança e figurantes: o dinheiro foi e voltou.
- A origem: em janeiro de 2025 Vorcaro escrevia ao cunhado que não entrava dinheiro havia três semanas e que o pagamento do filme era “o mais importante disparado”, enquanto o BRB despejava 12 bilhões no Master comprando carteiras de crédito que a PF hoje chama de falsas; o Master havia posto mais de 600 milhões nas empresas do grupo Entre, e quando o banco quebrou o Fundo Garantidor de Créditos pagou 40 bilhões, custo que os outros bancos repassam ao juro do cliente.
- Doria é explícito sobre os limites da apuração: o rastreio real a real ainda não foi publicado e a PF ainda investiga; também registra a favor de Flávio que ele é investigado, não denunciado, e que a PGR diz não ter encontrado a contrapartida. Contra ele, lista a sequência de versões desmentidas: disse que nunca recebeu de Vorcaro, recebeu; disse que era privado, o dinheiro é público; disse que o último pagamento foi em maio de 2025, e houve pelo menos outro em 16 de setembro, sete remessas somando 12,3 milhões de dólares no mesmo dia de uma ligação de 42 segundos entre os dois.
- Observa que o liquidante do Master, autorizado pela justiça americana a caçar ativos, já intimou bancos em Miami, fundo nas Ilhas Cayman e fabricante de jatinho, mas o fundo do Texas que recebeu os 12 milhões ainda não está na lista.
- Fecha com a comparação histórica: “Lula, o Filho do Brasil”, feito em 2009 com Lula acima de 80% de aprovação, custou de 12 a 15 milhões de reais e levou 848 mil espectadores, quando o produtor esperava 12 milhões; o filme de Bolsonaro pediu oito vezes mais. Entre as duas partes, Doria insere apelo de assinatura, citando pesquisa própria em que 42% dos brasileiros consideram os grupos de Lula e de Flávio igualmente corruptos e afirmando ser esta a eleição de menor interesse popular desde 1989.