a tese
Pedro Doria comenta a propaganda eleitoral gratuita do dia e sustenta que os dois programas passaram a disputar o mesmo eleitor (classe C da periferia urbana do Sudeste, sobretudo mulheres), com o programa de Lula sobre as bets sendo o melhor dele até agora e o de Flávio Bolsonaro tecnicamente bem dirigido ao mesmo alvo.
aprofundar
não
é análise conjuntural de campanha com validade curta. O único achado que sobrevive à eleição é a assimetria de gênero na confissão do vício em aposta, que interessa a quem trata do tema pastoralmente.
O que foi dito
- Explica o propósito do formato: não julgar o conteúdo, mas mostrar por que os candidatos se comunicam como se comunicam.
- No programa de Flávio Bolsonaro, registra a estratégia declarada de não atacar (“da minha parte você nunca viu jogo baixo”), o eixo do endividamento recorde e da carestia em depoimentos de supermercado, e as propostas de segurança (cinco megapresídios federais, bloqueio de celular, quadruplicar pena de ladrão de celular, redução da maioridade penal) e de economia (corte de impostos e de desperdício para baixar juros e dívida).
- Faz a leitura sociológica pelo cenário: os móveis, as casas e os sotaques são de classe C do Sudeste, sem gaúcho e sem nordestino, e esse é exatamente o eleitor que votou em Bolsonaro em 2018, em Lula em 2022 e hoje está indeciso, com segurança como problema número um e economia em segundo.
- Dá o dado comparativo: na pesquisa Quest, Flávio está do mesmo tamanho que o pai estava em setembro de 2022, e quem encolheu foi Lula, quatro a cinco pontos abaixo do próprio desempenho de então no primeiro turno estimulado.
- No programa de Lula, identifica a virada de cenário (pela primeira vez ele aparece em casa suburbana, falando com gente com cara de classe C) e o tema escolhido, o combate às bets, com depoimentos de viciados, dívidas de 50 mil e 500 mil, perda de carro, moto e casa, e um velório.
- Resume a peça de defesa do governo: Temer liberou as bets, o governo Bolsonaro não taxou, não regulou e não fiscalizou, e a gestão atual derrubou 66 mil sites irregulares, proibiu publicidade dirigida a crianças, bloqueou o acesso de 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Desenrola, criou o autobloqueio e promete tratamento pelo SUS.
- Confirma a base do argumento: as bets viciam mesmo, o programa citou um texto do Lancet e há literatura médica publicada sobre os mecanismos de impulsividade explorados pelo digital, a começar pela facilidade de pagamento no celular.
- Traz a observação mais fina do vídeo, vinda de grupos focais: homens de classe C não falam de bet espontaneamente e, quando provocados, contam só histórias de vitória, porque não confessam derrota diante de outros homens, enquanto as mulheres trazem o assunto pelo lado do estrago (“está destruindo meu marido, meu irmão, meu vizinho”).
- Daí a conclusão eleitoral: o tema fala com mulheres, e há cerca de 3% de brasileiras da periferia urbana do Sudeste que votaram em Lula em 2022 e hoje não querem votar, público que ele considera o caminho da vitória, surpreendendo-se que a campanha não tenha ido por ali antes.
- Sobre as candidaturas menores, comenta o programa de Ronaldo Caiado (entrevista em formato de podcast com o Flow, controle de penitenciárias em Goiás, óculos israelense OrCam para alunos cegos, tratamento de obesidade mórbida em adolescentes) e diz não entender a estratégia, já que a duas semanas da eleição nem Caiado nem o candidato do 70 (grafia incerta) têm o que fazer sem um escândalo que derrube Flávio.