a tese
Pedro Doria comenta os últimos programas da propaganda eleitoral gratuita e conclui que as duas peças principais estão tecnicamente corretas, Lula exibindo realizações e Flávio Bolsonaro apelando ao voto útil, mas acrescenta o diagnóstico de que a esquerda só começou a entender a classe C nas últimas semanas, tarde demais.
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não
é reação a propaganda eleitoral com validade de três dias; o único ponto que sobrevive à data é o diagnóstico sobre classe C e evangélicos, que ele próprio promete desenvolver a partir de novembro.
O que foi dito
- Destaca como inédito na história das eleições brasileiras o fato de a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil emitir nota de repúdio aos ataques de Flávio Bolsonaro à própria CNBB e à Igreja Católica, com solidariedade aos devotos de Nossa Senhora Aparecida, lendo o gesto como a Igreja Católica tomando partido no meio de uma eleição presidencial.
- Descreve o filme de Lula como bonito, eficaz, profissional e capaz de emocionar, qualidade que considera importante em campanha, e lista as bandeiras que ele martela: isenção de imposto de renda até R$ 5 mil, fim da escala 6x1, cesta básica com imposto zero, Pé-de-Meia, Sistema Único de Segurança Pública e fim das bets.
- Corrige a peça do PT num ponto factual: o trecho em que Paulo Guedes fala em liberdade para o jogo trata de cassinos, não de bets, e o trecho de Flávio também fala de resorts integrados com cassinos, de modo que a montagem força a equivalência, ainda que ele admita que Guedes provavelmente pensa o mesmo das bets.
- Mantém, porém, a crítica de fundo à família Bolsonaro no tema: Bolsonaro, como presidente, nunca regulamentou as bets, deixou correr livre, e a regulamentação veio no governo Lula porque a prática já existia, o que esvazia o argumento bolsonarista de que “foi Lula quem regulamentou”.
- Enquadra a disputa historicamente: é a eleição mais difícil da Nova República e possivelmente da República, já que na Primeira República as eleições eram cartas marcadas e na República de 1946 nunca houve divisão comparável; qualquer cenário é possível no domingo, inclusive vitória de um dos dois em primeiro turno.
- Faz o diagnóstico mais forte do episódio: a esquerda não percebe o quanto errou com a classe C, metade do Brasil que quer ascender socialmente, e erra em política pública, não em comunicação, insistindo em transformar motoboy e motorista de aplicativo em CLT quando eles não querem, e mantendo o que ele chama de nojinho em relação aos evangélicos, tratados como manipulados pelo pastor em vez de gente que pensa por conta própria e tem valores.
- Sustenta que o PT, o governo e Lula só começaram a demonstrar compreensão do Brasil transformado nos últimos dois meses, e de modo mais agudo nas últimas duas ou três semanas, depois de errar repetidamente de mensagem e de política com esse público.
- Critica a campanha de Augusto Curi (grafia incerta) por desperdício: ficou nos mesmos três filmes quando produzir um por dia é barato hoje, e a essa altura o jogo é só Lula ou Flávio.
- Comenta a peça de Caiado, construída sobre a tríade combate à corrupção, investimento em segurança e crescimento econômico, com Goiás como vitrine (estado mais seguro, economia crescendo o dobro da média), promessa de retomar fronteiras e enfrentar o narcoterrorismo na Amazônia.
- Analisa a peça de Flávio como máquina de apelo ao voto útil, com depoimentos de ex-eleitores de Lula dizendo que ele já deu o que tinha de dar e que só Flávio tem força para tirá-lo, além do bloco de propostas (programa Brasil sem Medo, declarar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, quadruplicar pena de ladrão de celular, reduzir a maioridade penal, corte de impostos) e da cena de supermercado em que ele conversa com consumidoras no lugar de economistas.
- Observa que a lógica das duas campanhas é a esperada: quem busca reeleição exibe o que fez, quem lidera contra o incumbente também exibe o que o incumbente fez, e num país insatisfeito a mensagem correta é “está bom? não? então muda”, acrescentando que o efeito do apelo ao voto útil na reta final já foi medido mais de uma vez e funciona.
- Apresenta o dado que relativiza esse apelo: na pesquisa Meio/Ideia da semana, 56% dos eleitores de Curi vão de Lula no segundo turno, e entre os de Caiado 37% votam branco ou nulo e 37% vão de Lula, de modo que Flávio terá dificuldade em capturar esses votos, embora pegue com facilidade os de Renan Santos e de Zema.
- Conclui que Lula deveria estar fazendo apelo ao voto útil também, porque a campanha dele provavelmente supõe que não há eleitor antibolsonarista no bloco dos candidatos de direita, e há mais do que imaginam; e nota a assimetria de que o número do PT já está fixado na cabeça do eleitor enquanto o bolsonarismo troca de número a cada eleição, obrigando Flávio a martelar o 22.