a tese
Pedro Doria cruza urna a urna 2022 e 2026 (86 mil locais, 96% dos votos) e conclui que a elite votou em Lula e quem migrou para Flávio foi o brasileiro médio: classe C, católico, de cidade pequena e periferia. Depois faz a aritmética do segundo turno: Flávio precisa somar a direita, Lula precisa voltar a Osasco.
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É a análise mais sólida do dia sobre o deslocamento católico para a direita (o fio que liga à CNBB, a Nossa Senhora Aparecida na campanha e ao conservadorismo católico que Flávia Tavares descreve no Central), e o diagnóstico "país católico de empresa grande × país protestante de empresa pequena" aparece aqui em versão compacta.
O que foi dito
- Leblon, Ipanema, Copacabana, Higienópolis, Pinheiros e Vila Madalena deram mais votos a Lula do que em 2022; Osasco, Cotia, Betim e Ananindeua viraram para Flávio. 714 municípios passaram de Lula para Flávio; nenhum fez o caminho inverso.
- Nas metrópoles a diferença quase não se mexeu (2,5 pontos); nas cidades de menos de 10 mil eleitores andou 12 pontos. Mais da metade do ganho de Flávio sobre o pai veio de cidades com menos de 50 mil eleitores, inclusive no interior do Nordeste e no Sul rural.
- Por renda, nas seções A e B Lula subiu 1 a 2,5 pontos (o voto de Tebet voltando); nas seções D e E Flávio subiu 4 a 5. Lula só venceu na classe E; Flávio abriu 53 a 37 na classe C.
- Não foi o evangélico, que já estava no teto; foi o católico: dos quase 5 milhões de votos a mais de Flávio, mais de 4 milhões vieram de católicos, entre os quais Lula caiu de 54 para 49.
- Nem jovem (a diferença some quando se controla classe e lugar) nem abstenção (20,8%, igual a 2022). O eleitor simplesmente mudou de voto.
- O perfil: pobre mas não o mais pobre, católico, classe C e D, que “não tem medo de hora de trabalho, não quer patrão, quer crescer”. A metade evangélica desse Brasil foi para a direita em 2022; a católica começou agora.
- O que esse eleitor viu em quatro anos: taxa das blusinhas, imposto nas bets, tentativa de enquadrar motorista de aplicativo na CLT e uma militância que desprezou o “CEO de MEI”. Nenhum candidato ofereceu mudar o modelo de Estado para que a empresa pequena caiba.
- Conta do segundo turno: Flávio tem 56 milhões, Lula 53,7 milhões; sobraram 9 milhões (Curi 3,4; Renan 2,7; Caiado 2,6; Zema 0,3) e 33 milhões de abstenções. Em 2022 a terceira via “voltou para casa” à direita (Bolsonaro ganhou 7 milhões entre turnos, Lula 3).
- Risco de Flávio: cresceu onde o pai era fraco, pouco no Rio, e saiu brigando com a CNBB enquanto Lula ainda vence entre católicos por 4 pontos. Lula: o eleitor de Curi prefere Lula 56 a 28, mas rende menos de 1 milhão líquido; o resto está nos 7% que saíram dele direto para Flávio, e cada um que volta “vale dois”.
- A campanha de Lula acordou tarde (fim da taxa das blusinhas em 10/09, crédito para motorista em 14/09); o teste é falar com esse eleitor sem paternalismo. A direita oferece demagogia e golpismo; a esquerda virou força conservadora sem utopia.