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Septuaginta: Bíblia dos Primeiros Cristãos? | Luiz Sayão

¶1Você precisa conhecer a Septuaginta, a primeira tradução da Bíblia na história, a versão grega do Antigo Testamento. O assunto é fascinante. Para você ter uma ideia, ó, vou pegar aqui meu Novo Testamento grego e vou dar uma olhada na carta aos Hebreus, no capítulo primeiro, olhando pro texto bíblico que diz prosonoteos aonos. Com respeito ao filho, é dito que o teu trono, ó Deus, é para todo sempre ou para os séculos dos séculos. E olhando pro texto grego do Novo Testamento da Septoaginta, a gente olha aqui pro Novo Testamento grego e vai olhar para a Septoaginta, essa famosa versão grega, nós vamos encontrar exatamente as mesmas palavras que a gente encontra lá.

¶2Rotronos suos [suspirando] aonatus aonus, pessoal. IPS líteres, citação absolutamente. Aliás, estou aqui com o meu Antigo Testamento, poliglota, uma obra muito especial que a gente desenvolveu e ganhou a espaço nacional, saiu no caderno dois do Estadão, ganhou aí reportagens especiais e aqui nós temos o texto hebraico, o texto chamado massorético, texto grego e também duas traduções aqui ao lado em português e em inglês. E afinal de contas, saião. Que história é essa de Septoaginta?

¶3Veja lá, você sabe que a Bíblia é um livro muito antigo e, particularmente, né, o Primeiro Testamento, o Antigo Testamento, é, claro, por definição, muito antigo mesmo. E a pergunta é como é que as pessoas que fazem tradução da Bíblia, que explicam, como é que eles e conseguem chegar a conclusão de que um texto, por exemplo, traduzido numa versão em português ou em qualquer língua, de fato representa o que nós temos na Bíblia. Nós temos hoje muitas traduções, versões em português, das mais antigas, mais recentes, as que se dizem mais literais, as que são mais traduzidas da perspectiva contextual, né? E muitas bíblias de estudo, bíblias temáticas. Mas como é que funciona essa questão?

¶4Então, vamos lá. Que que acontece? O texto da Septoaginta, que é uma tradução grega do Antigo Testamento, a história dele tá ligada com a seguinte situação, né? Nós temos a partir do quto século antes de Crist, né, movimentação mundial numa helenização do mundo antigo. Ou seja, o mundo antigo sofre o impacto da conquista e da cultura grega.

¶5Isso atinge o ambiente judaico também. Então, nesse contexto, uma cidade importantíssima no Egito, ela se torna um centro de cultura especial. É a famosa cidade de Alexandria. E aí nós temos as informações que na época do Ptolomeu II, na metade do teriro século antes de Cristo, foi produzida essa versão do Antigo Testamento na língua grega. E isso teve impacto em era importante porque boa parte dos judeus que queriam ler a Torá, ler a a Bíblia hebraica, né, como podemos assim chamar, eles não eram mais fluentes em hebraico ou aramaico.

¶6Então o grego se tornou aí a, vamos dizer, o texto que faria diferença na caminhada do entendimento deles da palavra divina. E aí o que que acontece? A gente tem um documento interessante do segundo século que é chamado carta de aristéias, né, que teria sido escrita, né, e toda uma discussão em que medida ela é na verdade uma pseudo, um documento que não é bem o Aristias, aquilo é um nome utilizado para, no caso, o rei Ptolomeu, ah, com a intenção de fazer toda uma divulgação desse texto para que ele viesse a fazer parte da famosa conhecida biblioteca de Alexandria. E aí então se conta que 72 sábios judeus se reuniram, foram para uma ilha e fizeram todo um trabalho assim especial que foi o melhor resultado possível. Mas assim, independente dessas histórias, a questão é como é que a gente sabe, pode chegar ao entendimento ah de como podemos estar mais próximos daquilo que foi o texto original dos antigos autores e profetas mais antigos da Bíblia.

¶7Então, o que que a gente sabe? Olha que coisa interessante. Se você for, por exemplo, olhar um texto na nova versão internacional, versão 2000 ou 2011, e você olhar aqui, por exemplo, por um texto que aparece em Gênesis, capítulo 4, versículo de número 8, quando a gente lê o texto na tradução, o a palavra bíblica diz assim: "Disse porém Caim a seu irmão Abel: "Vamos para o campo quando estavam Vamos lá. Caim atacou seu irmão Abel e o matou. Essa frase Vamos para o campo tem uma pequena nota de explicação que aparece no rodapé.

¶8E a explicação diz o seguinte: o que tá escrito aqui é conforme o pentateuco samaritano, a septoaginta, a vulgata e a versão siríaca. O texto massorético não traz a frase vamos para o campo. Você percebe aqui quando a gente lê esse texto, a gente observa, pera aí. Então quer dizer que nós temos manuscritos diferentes do Antigo Testamento da Bíblia Hebraica? Sim.

¶9No entanto, apesar de serem manuscritos diferentes, a concordância entre eles, ela é simplesmente fenomenal. E o que que a gente pode eh imaginar? O texto hebraico que nós conhecemos, ele é baseado num manuscrito que tem a sua forma final na Idade Média e entre o final do ano 900, começo do ano 1000. O texto principal é o chamado Codice de São Petersburgo e que também, né, é muito utilizado além de outros manuscritos chamados massoréticos, nós temos o famoso códice de Alepo, né? Então, esse texto é o chamado texto padrão, que apesar da última cópia que nós temos aqui ser uma cópia, vamos dizer, relativamente recente, se sabe que a tradição massorética de cópia dos manuscritos era muito séria e que essa compilação começou efetivamente aí depois do começo da era cristã, talvez terceiro, quarto século que a coisa vai.

¶10Mas no entanto, apesar disso, isso é baseado em uma fonte anterior que tá lá atrás. E aí o que que a gente tem? Que a Septoaginta fez uma tradução com base de um texto massorético que se imagina que teria vindo da Babilônia quando os judeus regressam de lá. Uma tradição quando eles já começam a copiar os textos. Outros textos vão ser feitos posteriormente nesse período que emerge especialmente a partir do sexto, 5º século em diante, antes da era cristã.

¶11E aí nós temos essa tradição, vamos dizer, que deu base a um texto que foi a fonte da tradução para o grego da Septoagenda. Então veja que coisa interessante. Nós temos aqui então uma tradição massorética que vem direto pro texto que é a base, o texto hebraico do Antigo Testamento. Um texto talvez com um pouquinho de diferença nisso, que foi a base da tradução da Septoaginta. E como nós lemos aqui, nós temos alguns outros manuscritos.

¶12Você vai se lembrar que existia um pessoal na antiguidade chamado samaritanos. E esses samaritanos, que eram uma mistura de israelitas com outros povos que foi provocado na época em que os assírios dominavam aquela região, eles desenvolveram também uma cópia diferente dos cinco primeiros livros da Bíblia. Apesar de ser diferentes, as diferenças são muito pequenas, mínimas. E esse texto é chamado de pentateuco samaritano. E você sabe muito bem que não faz muito tempo, coisa de 80 anos atrás, foram descobertos os manuscritos do Mar Morto, trazendo pra gente manuscritos 1000 anos mais antigos do que a gente tinha até então quando a gente fala dos manuscritos do texto massorético.

¶13E os manuscritos do Mar Morto mostraram como esse texto massorético foi especialmente preservado. Então, o que que acontece diante desse cenário? Olha que coisa, pessoal. Os estudiosos, as pessoas que se especializam no estudo desses manuscritos, eles fazem todo um trabalho de comparação entre os diversos textos, que, aliás, foi uma das razões porque a gente desenvolveu esse projeto, que foi do Antigo Testamento poliglota. E essa comparação vai mostrar pra gente um texto do lado do outro para que olhando para todas as evidências, os estudiosos dizem: "Olha, isso aqui faz mais sentido do jeito que nós encontramos, por exemplo, a tuaginta, ou pelo menos parece que o texto massorético tem diferenças, mas ele deve prevalecer aqui.

¶14E até quando a gente tem vários combinando de um jeito e um só sendo diferente, os estudiosos entendem como acontece em Gênesis 4:8, que parece que essa expressão faz mais sentido seguir os outros textos. Então isso é um trabalho árduo que os estudiosos, os especialistas, os comentaristas técnicos avaliam. E aí não tem paixão, não tem defesa dogmática, é estudo técnico propriamente dito. Agora, por que que isso é tão interessante? Vocês querem ver uma coisa muito que chama a nossa atenção?

¶15Quando a gente lê, eu vou ler para vocês aqui pra gente observar, por exemplo, a gente pode pensar que essas diferenças sejam coisas muito complicadas. A maioria delas é coisa muito pequena, mas merece atenção. Gênesis capítulo 21 conta a história difícil. quando Agar e Ismael são expulsas ali por Abraão, toda aquela situação difícil com Sara. E aí a gente vai ler o texto e diz lá no verso 15 do capítulo 21 de Gênesis: "Quando acabou a água da vasilha, ela deixou, falando de Agar, né, o menino debaixo de um arbusto e foi sentar-se perto dali à distância de um tiro de flecha, porque pensou: "Não posso ver o menino morrer".

¶16Sentada ali perto começou a chorar. Então você pode pensar na cena. Agar vendo que Ismael vai morrer de sede, ela não podia ficar vendo aquilo. Então ela começou a chorar. Quando você lê o verso 17 na sequência, tá escrito assim: "Deus ouviu o choro do menino e o anjo de Deus do céu chamou Agar".

¶17Ele disse, "E vai haver o socorro divino para salvar Ismael nesse momento complicado da história de Agar, conforme nós vemos aqui. Agora, olha que coisa, quando a gente olha para os textos bíblicos, eles estão um pouco diferentes. Olha só que coisa. a gente olha aqui pro texto hebraico e o texto hebraico vai de fato dizer pra gente, né, que ela, vamos assim dizer, ela levantou a voz vatissa colá, né, a voz dela tá bem claro, né, vber, né, ou seja, e ela chorou. Só que, e que coisa interessante, quando a gente lê aqui, jeito que o grego traduziu essa eh expressão, né, diz aqui, né, que anabuandeto paid e clausen, ou seja, tá explicitado pai de o menino.

¶18Quer dizer, né, que quem chora no texto grego é o menino. Quem chora no texto hebraico é a mãe. Não vai ter mudanças teológicas, alguma coisa que vai interferir em nada. Mas é interessante que o texto da Septoaginta parece fazer bastante sentido, porque na sequência diz que Deus ouviu o choro do menino que bate muito com a descrição da Septa. Por isso é que os estudiosos avaliam e dizem: "Olha, parece que em função do contexto, da coerência, da lógica, olhando as letras hebraicas, que às vezes uma coisinha que você muda aqui pode fazer diferença." Por exemplo, lá em Primeira Samuel 8:16 tem um lugar que tá falando de jumentos e do lado dos jumentos tá falando dos jovens.

¶19Só que a outra opção para escrever parecido com o jovem hebraico é gado. Então faz mais sentido que ali estavam o seu gado e os seus jumentos, não os seus jovens e os seus jumentos. Então são coisas desse tipo que os estudiosos avaliam. E por que que isso é tão importante? Em primeiro lugar porque a gente tem no caso da Bíblia e bastante do Antigo Testamento, uma quantidade, uma infinidade enorme de manuscritos que podem devem ser estudados, né?

¶20Então, como nós mencionamos, nós temos o texto hebraico massorético, temos a septoaginta grega, temos o pentateuco samaritano, temos os famosos targuns aramaicos, temos traduções antigas, como mencionei aqui, por exemplo, a vulgata e temos os manuscritos do Mar Morto. Os estudiosos fazem essa avaliação para chegar o máximo possível, mais perto do texto que foi o texto original das escrituras. Agora, o que é interessante nessa história não é só isso, é a gente ver a importância e o valor da septoagindas. Vê que eu li para vocês no começo, o começo de Hebreus aqui, quando ele cita o Salmo 45, que na Septoaginta é colocado no número 44, esse salmo apresentado tá do jeitinho que tá lá. Por quê?

¶21Porque os primeiros cristãos, muitos textos do Novo Testamento, particularmente o livro de Hebreus, quando vai citar o Antigo Testamento, as profecias, muitas vezes ele simplesmente tá claro que ele tem a septoaginta ali do lado. Então, a Septoaginta não é só uma tradução, é um texto importantíssimo e fundamental para o estudo do Antigo Testamento também. A segunda coisa é essa coisa extraordinária que a gente tem, que a palavra divina atravessa fronteira linguística. Porque até então tudo que dizia a respeito à ação de Deus na história do Israel antigo e no mundo à sua volta estava somente em hebraico e alguma coisa em aramaico. Agora você tem, né, esse desafio de colocar as palavras hebraicas em palavras gregas, traduzir contextos, traduzir ideias, né, e utilizar isso de modo que você tem quase que um novo grego que surge, né, esse grego que a gente chama semitizado, esse grego que vai ser a base do grego coinê, como é chamado, do Novo Testamento.

¶22E isso vai representar uma revolução. Sabe que importância vai ter? vai ser a alma da civilização ocidental, a formação daquilo que vai ser a cultura da Europa, do Oente, que vai ter impacto no mundo todo com as duas colunas fundamentais, a coluna grega e a coluna hebraica, formando aquilo que é todo esse contexto judaico cristão, que formou aí a base fundamental da nossa história. E, portanto, quando a gente prossegue estudando e vai ver, por exemplo, o cristianismo no primeiro século, passando, né, pro segundo, terceiro século, páocristianismo, você vai ver que muitos dos primeiros pais, a maioria deles, ao citar a Bíblia, fizeram citações com base na Septoaginta, a versão mais importante da história da Bíblia, que todos devem conhecer. Portanto, a gente fica muito feliz e satisfeito com essa quantidade de manuscritos.

¶23A gente leva a sério esse trabalho de comparação que os estudiosos de ponta fazem para a gente poder observar e chegar mais próximo do sentido do texto original. Então, quando um texto parece complicado e difícil, que a gente não tá entendendo, às vezes, pessoal, o problema é de manuscrito. Às vezes você tem outros manuscritos que uma coisinha de nada fala: "Puxa, agora deu para entender". Por exemplo, por que que em Gênesis 4:8 a frase disse e Caim ao seu irmão Abel, a gente não segue o massorético e segue acepto a gente e os outros? Porque o texto disse que o Caim disse e não fala nada do que ele teria dito.

¶24E faz mais sentido, né, que por alguma razão acidental a frase "Vamos para o campo" tenha caído de alguma cópia, né? E ficou com aquilo que nós temos aqui à nossa disposição, sendo que todos os outros textos têm e faz sentido pelo contexto. Disse Caim, seu irmão Abel: "Vamos para o campo". e chegando lá no campo, ele mata o seu irmão. Então, tem coerência teológica.

¶25É assim que os estudiosos analisam, avaliam e chegam a uma conclusão que é fundamental para os estudos bíblicos. Portanto, tá aí a nossa explicação sobre a importante, valiosa versão, a tradução mais impactante da história bíblica Septoaginta, versão grega do Antigo Testamento. Então, você gostou aí da nossa explicação da nossa aula de hoje que tem a ver com manuscritologia, com crítica textual, com bibliologia e informação para o nosso conhecimento. Não se esqueça, apoie o canal do Saião, inscreva-se aí, seja membro, aperte o sininho, divulgue para os amigos e seja você também mais um parceiro desse canal com tanta informação que é o canal do seu amigo Saião. No.