a tese
A mesa de Dora Kramer, com Marcelo Madureira, Márcio Fortes e Pedro Paulo Magalhães, sustenta que a surpresa do primeiro turno foi a magnitude e não a margem, que o favoritismo de Flávio Bolsonaro no segundo turno é real mas não está contratado, e que o caso do Rio de Janeiro é o fenômeno eleitoral mais importante e menos explicado da eleição.
aprofundar
talvez
é mesa de conjuntura sem apuração própria, mas o quebra-cabeça do Rio interessa de perto, com o peso eleitoral evangélico jogado no mesmo balde explicativo de milícia e compra de voto, e o livro de Renato Meirelles sobre a classe C fica como indicação de leitura.
O que foi dito
- Abrem com o diagnóstico de que a diferença entre Flávio e Lula foi pequena mas o quadro geral foi uma derrota ampla da esquerda, com governadores, eleitorado e sobretudo o PL dominando Senado e Câmara.
- Cobram que Lula teve três ou quatro anos sabendo que seria candidato à reeleição e só agora, aos 47 do segundo tempo, fala em mudar o tom da campanha, o que consideram humilhante e patético.
- Marcelo Madureira aponta como grande vencedor Valdemar Costa Neto, que elegeu uma bancada enorme sem receber um voto, e como grande perdedor Gilberto Kassab, vice de Ronaldo Caiado, cujo partido encolheu e cuja aposta na chapa não rendeu densidade no Congresso.
- Leem o sentimento das urnas como mais antilula do que antipetista, e citam Janja chamando Nikolas Ferreira, campeoníssimo de votos, de “piada de bosta” como exemplo de erro de leitura do próprio campo.
- Pedro Paulo Magalhães enquadra o resultado como materialização anunciada: o país anda de lado há trinta anos, o PT governou quase vinte deles, e o ranço se converteu em voto, citando a leitura dos mapas de urna feita por Pedro Doria, em que Lula perde no interior inteiro, inclusive no interior do Nordeste, onde Flávio teria um milhão de votos a mais.
- Acusam o STF de girar conforme o vento: um dia depois da votação de Flávio, Nunes Marques já falava em soltar Bolsonaro, e a entrada do Supremo na campanha prejudicou Lula porque, para a classe C, Supremo e governo são a mesma coisa.
- Apontam como erro político de Lula a intimidade com o Supremo, incluindo o jantar na casa de Alexandre de Moraes com Davi Alcolumbre, tratado como armação para combinar o pós-eleição quando ele já se julgava imbatível.
- Listam os riscos de Flávio no segundo turno, resumidos na imagem de vestir salto alto antes da hora: já escolhe ministro, terá de responder sobre Previdência, reforma tributária e Pix, anunciou superávit de 150 a 200 bilhões no primeiro ano sem explicar como, e perdeu o motor dos candidatos a deputado e senador, que já foram eleitos ou derrotados, enquanto o centrão acende uma vela a Deus e outra ao diabo.
- Tratam os debates como fator imponderável: se Flávio não for, entrega uma hora e meia de programa a Lula sozinho, e parte da campanha dele aconselha não ir, como em 2022 com o padre Kelmon.
- Dedicam o bloco central ao Rio de Janeiro: Quest e Datafolha davam Eduardo Paes ganhando possivelmente no primeiro turno com cerca de sete pontos de vantagem, oito horas antes da votação, e venceu Douglas Ruas, deputado estadual desconhecido três meses antes, ex-secretário de Cláudio Castro, com dois anos de polícia civil e passagem pela prefeitura de São Gonçalo com o pai, que virou presidente da Alerj num golpe de mão.
- Oferecem três hipóteses para o erro: o poder eleitoral das igrejas evangélicas, que no Rio é o maior do Brasil e muito engajado, o poder do crime e sobretudo das milícias, com a distinção de que o miliciano convive na comunidade e vende serviço (televisão, “proteção”) em vez de só extrair dela, e compra de voto a rodo em Queimados, relato de segunda mão trazido pela empregada doméstica de um dos participantes.
- Acrescentam a fraude de cartaz com rosto e nome de Eduardo Paes acompanhados do número 22, do adversário, e lembram o precedente de anulação da eleição de 1994 no Rio, cujo juiz eleitoral era Luiz Fux, enquanto o TSE abre naquela manhã a sessão que decide se Ruas ganhou no primeiro turno.
- Encerram com três notas: Garotinho como fiel da balança negociando os votos anulados (“um Gilmar Mendes de chinelo e bermuda”), a observação de que essa direita vitoriosa não é a tradicional (Espiridião Amin perdeu em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro, e Michel Temer ou Amin seriam o conservadorismo clássico) mas um bolsonarismo sem projeto formulado, e a divergência sobre pesquisas, com Madureira dizendo que os institutos erraram em cem por cento e Dora Kramer rebatendo que o empate técnico final estava dentro da margem. Indicam o livro de Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, sobre a classe C, 107 milhões de brasileiros, com a tese de que a classe D virou “classe Cula”.