Ep. 204 God, Emotion, and Classical Theists Missing the Point
R. T. Mullins responde à resenha crítica que Brendan W. Case publicou no London Lyceum sobre seu livro "God and Emotion", em tom largamente satírico, e sustenta duas coisas: que quase todas as objeções de Case tratam de temas fora do escopo declarado do livro (atemporalidade, simplicidade, encarnação), e que o vício recorrente dos teístas clássicos de internet é argumentar sem definir os termos que usam.
sim
é matéria direta para o dossiê do Rafael Gaspar, que discute teísmo clássico e simplicidade divina com o Bruno, e o método é o ponto aproveitável: definir impassibilidade com precisão antes de inferir, distinguir predicação analógica de metafórica e mostrar que os teístas clássicos antigos aceitavam as consequências que os atuais tentam suavizar. O tom sarcástico pesa contra a caridade do argumento, mas a estrutura das objeções é limpa e citável.
- Abre situando o livro na série Cambridge Elements in Philosophy of Religion, com limite rígido de 35 mil palavras, e explicando que o material cortado foi publicado em outros lugares, entre eles a versão espanhola ampliada, “God, Emotion, and Scripture”.
- Lista os artigos em que trata do que Case o acusa de ignorar: “The Problem of Arbitrary Creation for Impassibility” (Open Theology, 2020), no qual argumenta que impassibilidade, criação ex nihilo e racionalidade divina implicam contradição, de modo que seria metafisicamente impossível a um Deus impassível criar por uma razão, e “Why Can’t the Impassible God Suffer?” (2018), no qual nega que atemporalidade, imutabilidade e simplicidade impliquem obviamente impassibilidade.
- Cita ainda “Classical Theism, Christology, and the Two Sons Worry”, no volume organizado por Johannes Grössl, onde defende que a impassibilidade implica nestorianismo.
- Ridiculariza o padrão de crítica que recebe na internet, o “não citou meu teólogo morto obscuro favorito, logo não é pesquisa séria”, com o caso de quem cobrou a ausência de Robert L. Dabney, calvinista americano do período da Guerra Civil.
- Primeira crítica branda de Case: não achar óbvia a distinção entre emoção e humor. Mullins responde que a distinção é padrão na filosofia da emoção e repousa na intencionalidade, emoções são sempre sobre algo, humores não têm objeto intencional claro, e ironiza que Case a contesta citando um cientista da computação em vez de psicólogos ou filósofos da emoção.
- Sobre a empatia divina, esclarece o que de fato faz no livro: não afirma por conta própria que impassibilidade exclui empatia, e sim cita teístas clássicos que dizem isso explicitamente, entre eles Girolamo Zanchi, para quem é bom que Deus não tenha empatia, já que tê-la comprometeria a impassibilidade. A inferência é simples, o Deus impassível não pode ser movido, causado ou influenciado por nada externo em suas crenças, emoções e ações, e empatia é exatamente isso.
- Aponta o que considera a falha estrutural da resenha: Case nunca define impassibilidade nem passibilidade, e por isso não consegue derivar inferências, tema que Mullins retoma o episódio inteiro.
- Responde à queixa de que ele se apoia em reformados (James Dolezal, Herman Bavinck, Arthur Pink) em vez de Tomás de Aquino, observando que Dolezal cita Aquino à exaustão e que o livro pretendia orientar o leitor no debate contemporâneo, inclusive no volume “Impassibility: Four Views”.
- Sobre as provas bíblicas propostas por Case, Tiago 1:17 (“nem sombra de variação”) e Hebreus 13:8 (“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre”), responde que nenhum dos dois diz o que a impassibilidade afirma, que no máximo sugerem imutabilidade, que a maioria dos biblistas (cita John Peckham e Walter Moberly) não lê ali a forma forte dessa doutrina, e que o texto de Hebreus descreve Cristo em termos explicitamente temporais, com passado, presente e futuro.
- Explica por que cortou o artigo de David Bentley Hart, “No Shadow of Turning”: considera-o pesado em asserções e caricaturas das posições adversárias e leve em argumentos, de modo que a única resposta possível seria descrever corretamente a passibilidade divina, que é o que o livro já faz.
- Sobre o argumento da unidade, lembra que ele parte da própria definição de amor dos teístas clássicos, o amor envolve desejo de união com o objeto amado, e que a impassibilidade nega desejos a Deus. Rebate a acusação de ignorar a linha tomista mostrando que o capítulo discute Eric Silverman e, longamente, Eleonore Stump, cuja defesa do amor divino é exposição de Tomás.
- Sobre a “dor analógica atemporal” que Case propõe como saída, responde que predicações analógicas são literais, não metafóricas, que o teísmo clássico exige felicidade divina imperturbada e inteiramente fundada em Deus mesmo, e que dor é inconsistente com isso, além de a impassibilidade negar que os eventos da história influenciem Deus. Acusa o uso da palavra “analógico” como talismã que dispensaria a argumentação.
- Recupera com gosto um argumento de Marshall Randles, que em 1900 publicou uma defesa da impassibilidade: se Deus fosse atemporalmente triste com o mundo, então, após a ressurreição geral e o fim do pecado e da morte, todos celebrariam enquanto Deus seguiria eternamente entristecido. Mullins usa o caso para mostrar que os teístas clássicos do passado eram inteligentes e viram a incompatibilidade, e por isso rejeitaram a tristeza divina em vez de acomodá-la.
- Sobre a proposta neocalcedônia de Case, de que a encarnação transcenderia o debate porque o Filho é passível e impassível, responde que todos os argumentos do livro são sobre a natureza divina, e acrescentar uma natureza humana não os toca, além de ele já ter defendido em artigo que teísmo clássico mais encarnação implica nestorianismo.
- Encerra com uma farpa a Gavin Ortlund: antes do debate dos dois sobre simplicidade divina, Mullins enviou-lhe seu capítulo do “Contemplating Divine Simplicity: Five Views”, que cobria exatamente os argumentos a discutir, e Ortlund declarou publicamente que se preparou lendo “God and Emotion”, livro sobre outro tema.
Ep. 203 Eucharistic Vindicatory Miracles with Stacy Trasancos
R. T. Mullins entrevista Stacy Trasancos, química de formação (ex-DuPont, com publicação na Science), mestra em teologia dogmática e em filosofia e doutoranda tomista, que, sendo católica devota, sustenta que os chamados "milagres vindicatórios" eucarísticos não têm dado científico que os sustente e que o uso apologético deles contraria as próprias normas do Vaticano de 2024.
sim
e com prioridade, porque entra direto no caso Schmid que o radar já acompanha: é uma católica praticante, com competência técnica real, desmontando a peça de evidência que a conversão dele destacou, e apoiada nas normas oficiais de 2024, não em polêmica protestante.
- Mullins abre dizendo que a internet está em polvorosa com os milagres eucarísticos e que o excesso de confiança nessas histórias o surpreendeu, e pede à convidada que exponha as próprias credenciais porque sabe que o episódio será ouvido com raiva por apologistas católicos de internet dispostos a descartá-la como católica liberal.
- Trasancos define o termo em disputa: “milagre vindicatório” é definição criada por apologistas (sinal que autenticaria uma doutrina especificamente católica), não linguagem da Igreja, que fala em “alegados fenômenos sobrenaturais”, e os casos invocados são Fátima, Lourdes, Lanciano e Buenos Aires.
- Explica as normas do Dicastério para a Doutrina da Fé de 2024: a Igreja deixou de declarar eventos como sobrenaturais (antes cabia ao bispo local, o que gerava reversões entre bispos sucessivos e confusão entre os fiéis) e o máximo que concede agora é o nihil obstat, “nada impede”, que autoriza devoção sem impor crença; as normas trazem linguagem forte mandando os bispos vigiarem abusos, entre eles lucro pessoal e divisão sectária.
- Identifica exatamente esse abuso na retórica corrente de que seria “imprudente” não crer nesses milagres, fórmula que comunica obrigatoriedade enquanto nega tê-la dito, e relata ter conversado com pessoas que abandonaram a fé por causa dessa pressão.
- Conta a gênese do próprio trabalho: recusou o pedido do bispo para dar palestras sobre milagres eucarísticos, cedeu por insistência do marido, deu vinte palestras repetindo as narrativas, e ao ser convidada a escrever a parte científica do livro “Behold It Is I” (Tan Books, com o padre George Elliott), não conseguiu passar de três dos dez casos que pretendia cobrir, tudo beco sem saída e contradição; escreveu que os dados são inconclusivos e o bispo e a editora a apoiaram, com o argumento de que a presença real não depende desses milagres.
- Descreve o caso de Buenos Aires de 1996 (hóstia dissolvida em água segundo a norma, substância vermelha, três anos num tubo de ensaio antes de o então arcebispo Bergoglio autorizar a investigação) e as quatro alegações: tecido cardíaco, tecido ainda vivo, sinais de sofrimento, e DNA de origem divina por ausência de contribuição paterna.
- Detalha os testes e o que eles de fato mostraram: o teste de ortotoluidina, que busca material biológico, deu negativo; o Quantiblot, que detecta DNA de primata a partir de 0,15 nanograma, não registrou nada; e o PCR com marcadores STR voltou com “NR”, sem resultado, em todos os loci humanos, tendo o laboratório apenas notado DNA de alto peso molecular de origem não humana, compatível com trigo, bactérias ou fungos. Kelly Kearse fez o controle com hóstias não consagradas nas mesmas condições e encontrou DNA bacteriano e fúngico abundante.
- O ponto lógico central: a ausência total de DNA humano foi convertida pelos investigadores em prova do milagre, já que Jesus não teria pai biológico, inversão que Trasancos considera insustentável, e que ela contrapõe ao padrão ordinário de publicação científica (procedimento completo, múltiplas técnicas convergentes, controles, cadeia de custódia), nada do qual foi oferecido.
- Sobre o vídeo do legista Frederick Zugibe declarando ao microscópio que o tecido é do ventrículo esquerdo e estava vivo, aponta que a edição é pesada e que as imagens exibidas como sendo o que ele via não eram do microscópio dele; relata, marcando como testemunho indireto, que a filha de Zugibe lhe disse que a família se sentiu explorada, que ele se incomodou com a falta de cadeia de custódia e que as lâminas pareciam material didático de biologia. Ela encerra cobrando publicamente os investigadores, que seguem vivos e não respondem.
- Mullins e Trasancos convergem na conclusão pastoral: a investigação não abalou a fé dela porque a fé nunca esteve ancorada nesses fenômenos, e sim na Escritura e na tradição; ela adverte que quem funda a fé em pequenos milagres entra em crise quando pede um e ele não vem, e recomenda ler as normas de 2024 no original em vez de aceitar a autoridade de qualquer divulgador. Cita ainda Stanley Jaki, padre e físico, que já propunha explicação natural para Fátima, e indica o Substack Skeptasmic, de Carrie, que respondeu aos dezoito minutos dedicados a Buenos Aires no vídeo de conversão de Joe Schmid.
Ep. 202 Vindicatory Catholic Miracles vs Catholicism
No episódio 202 do Reluctant Theologian, R. T. Mullins argumenta que os chamados "milagres vindicatórios católicos" (Fátima, Zeitoun, sangue na hóstia) que apologistas católicos do YouTube usam para provar unicamente o catolicismo são exagerados, ignorados pelos verdadeiros teólogos católicos e até contrários ao ensino oficial da Igreja.
sim
Toca de frente o interesse do Bruno em catolicismo, apologética online e simplicidade/teísmo clássico (linha do interlocutor Rafael Gaspar), com fontes citáveis (Ratzinger, Trasancos, normas de 2024) que ancoram uma conversa sobre o valor probatório de milagres.
- Mullins parte do princípio de que milagres e fenômenos sobrenaturais existem em todas as religiões e denominações e não empurram ninguém para uma direção específica; critica os apologistas por não aplicarem aos outros casos o mesmo rigor bayesiano fingido que aplicam aos católicos.
- Mostra que o próprio Ratzinger, no comentário teológico sobre o terceiro segredo de Fátima, pede que se baixem as expectativas (“nenhum grande mistério é revelado”) e insiste que a revelação se completou em Cristo; se um ex-papa não se entusiasma com Fátima, por que o fiel deveria?
- Observa que teólogos católicos de peso (Gerald O’Collins, jesuíta da Gregoriana) simplesmente não tratam desses milagres, sinal de que não são centrais; alguns acadêmicos católicos acham essas alegações constrangedoras, como o apologista que disse ter Zeitoun evidência maior que a ressurreição de Cristo.
- Traz o caso do sangue eucarístico como paradoxo: a doutrina católica ensina que o sangue de Cristo não é empiricamente detectável na hóstia, então sangue físico aparecendo seria perversão do ensino, não confirmação.
- Invoca Tomás de Aquino sobre milagres poderem ser obra de demônios (os magos do Faraó) e o uso histórico de milagres como poder político e marketing religioso (São Columba lutando contra o monstro do Lago Ness; St. Andrews construída como rota de peregrinação); pergunta se os youtubers levaram isso a sério.
- Apoia-se num ensaio de setembro de 2026 da química e teóloga católica Stacy Trasancos (“A Caution for the Argument from Miracles”), que mostra as normas de 2024 da Dicastério para a Doutrina da Fé: a Igreja hoje concede no máximo “nihil obstat”, nunca declara origem sobrenatural obrigatória, e adverte contra ganho pessoal, marketing e espírito sectário; Trasancos considera inconclusiva a ciência dos casos de Buenos Aires e Lanciano.
- Ponto de fundo: os mesmos apologistas que exigem que Mullins submeta sua razão à autoridade da Igreja ignoram que a Igreja é também um animal político, com facções, cartas de complaint contra o papa e uso privado da razão; e que Paulo esperou três anos antes de ministrar, ao contrário dos convertidos que já se autoproclamam líderes.
Ep. 201 Eternal Generation for Dummies
Ryan Mullins responde à gritaria das redes contra o clipe de William Lane Craig sobre geração eterna dizendo que a maioria dos indignados não sabe enunciar a doutrina que defende. Ela afirma, sem eufemismo, que o Pai causa o Filho a existir; Craig não virou herege de repente, sustenta a mesma posição publicada há mais de vinte anos, e a acusação de "heresia recente" só revela ignorância da própria história conciliar.
sim
o episódio é a porta de entrada exata para a polêmica Craig que já respinga no radar (o Hosanna In Excelsis anunciou programa sobre isso como "golpe no protestantismo") e o dossiê histórico-conceitual de Mullins (Gregório de Nissa, Heron, Paasch, Holmes) dá ao Bruno o mapa para avaliar se a defesa clássica da geração eterna sobrevive sem o apelo ao mistério.
- Mullins abre situando a polêmica: no fim de semana Craig soltou um clipe de entrevista sobre geração eterna e “teólogos autoproclamados” o declararam herege, como se ele tivesse mudado de posição, quando o Philosophical Foundations for a Christian Worldview (2003), o volume de debate One God, Three Persons, Four Views (com Dale Tuggy, William Hasker e Beau Branson, org. Chad McIntosh) e a própria entrevista de Craig a Mullins no ano passado documentam a mesma visão há décadas.
- Ele lê a abertura da seção sobre processões do Systematic Philosophical Theology de Craig (vol. 2b, p. 420): o modelo trinitário de Craig não precisa da derivação de uma pessoa a partir de outra, mas também não a exclui; Craig chama a doutrina de relíquia da cristologia do Logos, sem lastro bíblico e com risco de subordinacionismo.
- Mullins frisa o que os críticos não notaram: Craig não rejeita a geração eterna, diz que seu modelo dispensa a doutrina sem precludi-la, posição repetida no livro de debate.
- Define a doutrina no enunciado que, segundo ele, quase nenhum teólogo contemporâneo tem coragem de repetir: o Pai causa atemporalmente o Filho a existir, e causa o Filho a ter a mesma natureza divina; até Tomás de Aquino amacia a linguagem (o Pai como “princípio” do Filho) porque a formulação ortodoxa soa igual à dos hereges, mas, como mostra J. T. Paasch, o conceito continua sendo produção, causalidade eficiente.
- Contra a saída de que os antigos tinham “outro conceito de causa”, Mullins cita Gregório de Nissa (Sobre não haver três deuses): o princípio de causalidade distingue as pessoas da Trindade, o Pai é incausado, Filho e Espírito dependem da causa; e apoia a leitura no patrólogo Alasdair Heron (“gerado” denota o que tem causa ou fonte fora de si), com a mesma conclusão em Richard Cross, Michel Barnes, Rory Fox e Andrew Hollingsworth. Do Oxford Handbook of Causation, com 37 capítulos, ele pergunta qual seria “o” conceito moderno de causa.
- Na história conciliar, lembra que Niceia (325) foi imprecisa, que boa parte dos participantes esqueceu os detalhes credais (inclusive o neologismo grego para “gerado”, que difere de “feito” por uma letra, o par que o português traduz por “gerado, não criado”), que Atanásio brigou para reabilitar o concílio e que foi preciso Constantinopla (380-381) e concílios posteriores para limpar a formulação; estranhar que Craig ache que “os mortos de 325” erraram detalhes é ignorar o que qualquer manual de história da igreja registra.
- Expõe o que a doutrina deveria garantir, citando Stephen Holmes (The Quest for the Trinity): a atividade causal do Pai asseguraria que Filho e Espírito compartilham a mesma essência divina (homoousios), com todas as propriedades de grandeza (onipotência, onisciência, eternidade).
- Reconstrói o argumento subordinacionista do século IV (arianos, eunomianos, homoiousianos): aseidade é propriedade de grandeza, ser Deus é não ter causa; o Filho é causado; logo o Filho não é Deus pleno. Os ortodoxos concordavam que o Filho é causado e responderam que ele é “causado a ser a se”, apelando ao mistério inefável para bloquear a inferência.
- Craig, citando Atanásio, Hilário e Basílio dizendo que o Pai é maior que o Filho por ser incausado e ao mesmo tempo que ambos são iguais em divindade, chama a combinação de “contrassenso lógico”, como dizer que seis é maior que quatro sem que quatro seja menor que seis.
- Mullins encerra sem dar veredito próprio, com perguntas à audiência: um ser causado a existir pode ser Deus, e apologistas deveriam aprender o básico da doutrina antes de sair defendendo-a.
Ep. 200 Creating for God's Glory with Sean Luke
Sean Luke defende o glorificacionismo puro, a tese de que o único fim último da criação é a glória de Deus, e sustenta que ele decorre necessariamente da aseidade divina; Mullins concorda com pouca coisa e passa o episódio pressionando a objeção de que Deus, ao criar, parece ganhar algo que não tinha.
sim
o episódio inteiro gira em torno de "Deus ganha algo ao criar?" e de a criação ser ou não livre, que é exatamente o terreno do argumento de Rowe no seu TCC, e a resposta de Luke pela aseidade é uma alternativa ao caminho molinista que você trabalhou.
- Mullins abre o episódio 200 situando o debate na pesquisa que faz hoje sobre a razão de Deus criar, e retoma a entrevista anterior com Jordan Wessling, que sustentava o amor, não a glória, como motivo da criação.
- Luke organiza o espectro de posições: amorismo puro (o amor à criatura como único fim último), amorismo impuro e glorificacionismo impuro (vários fins últimos, hierarquizados) e glorificacionismo puro, que é o que ele defende.
- Ele define glória a partir de Êxodo 32 a 34, João 1 e 1Coríntios 15 como luz que revela: no artigo (Journal of Analytic Theology, acesso livre) a glória é a revelação do esplendor e da excelência de Deus, que ilumina e deslumbra na criação apontando para a superabundância dessas perfeições além do alcance do intelecto criado.
- O argumento central parte da aseidade: se o ser de Deus é ele mesmo o critério do que é bom, todo fim que Deus escolhe é escolhido por refletir o ser divino, e isso já é o glorificacionismo.
- À objeção de que agir só pela própria glória impediria Deus de agir benevolentemente, Luke nega que a benevolência pura (agir pelo outro sem qualquer autorreferência) seja o ideal, usa o exemplo das flores tomado de John Piper e redefine benevolência como alegria no bem do outro tomado como fim em si.
- A metafísica que sustenta a resposta é a emanação no sentido de Aquino e não de Plotino: as excelências das criaturas estão contidas preeminentemente em Deus como o calor do raio de sol está no sol, de modo que não existe criatura “em si mesma” a ser considerada à parte da natureza divina, e amar a criatura por ela mesma coincide com agir por si mesmo.
- Mullins insiste no ponto do ganho com um caso simples, o de que Deus não tinha um universo e passou a ter, e Luke responde pelo esquema exitus-reditus: o que retorna a Deus já estava contido nele, logo não há acréscimo real de valor.
- Na melhor troca do episódio, Mullins propõe que o padrão de valor seja apenas uma ideia divina, à maneira da grande cadeia do ser, e Luke responde que as ideias divinas derivam da autorreflexão de Deus sobre a própria essência, de modo que não pode haver ideia de um padrão que o ser de Deus não satisfaça.
- Sobre a distinção de Arthur W. Pink entre glória essencial e glória manifestativa, Luke afirma a manifestativa e a ancora nas processões trinitárias, mas Mullins objeta que o dom eterno do Pai ao Filho, sem sucessão, dificilmente é arquétipo de algo necessariamente sucessivo, e Luke acaba admitindo momentos lógicos na vida de Deus e na própria decisão de criar.
- Na objeção final, a de que esse Deus soa egomaníaco, Luke define egomania como priorizar-se em excesso e à custa dos outros, nega as duas coisas em Deus e conclui que Deus é o único ser cujo amor por si mesmo contém o amor por tudo o mais.