R. T. Mullins responde à resenha crítica que Brendan W. Case publicou no London Lyceum sobre seu livro "God and Emotion", em tom largamente satírico, e sustenta duas coisas: que quase todas as objeções de Case tratam de temas fora do escopo declarado do livro (atemporalidade, simplicidade, encarnação), e que o vício recorrente dos teístas clássicos de internet é argumentar sem definir os termos que usam.
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é matéria direta para o dossiê do Rafael Gaspar, que discute teísmo clássico e simplicidade divina com o Bruno, e o método é o ponto aproveitável: definir impassibilidade com precisão antes de inferir, distinguir predicação analógica de metafórica e mostrar que os teístas clássicos antigos aceitavam as consequências que os atuais tentam suavizar. O tom sarcástico pesa contra a caridade do argumento, mas a estrutura das objeções é limpa e citável.
O que foi dito
- Abre situando o livro na série Cambridge Elements in Philosophy of Religion, com limite rígido de 35 mil palavras, e explicando que o material cortado foi publicado em outros lugares, entre eles a versão espanhola ampliada, “God, Emotion, and Scripture”.
- Lista os artigos em que trata do que Case o acusa de ignorar: “The Problem of Arbitrary Creation for Impassibility” (Open Theology, 2020), no qual argumenta que impassibilidade, criação ex nihilo e racionalidade divina implicam contradição, de modo que seria metafisicamente impossível a um Deus impassível criar por uma razão, e “Why Can’t the Impassible God Suffer?” (2018), no qual nega que atemporalidade, imutabilidade e simplicidade impliquem obviamente impassibilidade.
- Cita ainda “Classical Theism, Christology, and the Two Sons Worry”, no volume organizado por Johannes Grössl, onde defende que a impassibilidade implica nestorianismo.
- Ridiculariza o padrão de crítica que recebe na internet, o “não citou meu teólogo morto obscuro favorito, logo não é pesquisa séria”, com o caso de quem cobrou a ausência de Robert L. Dabney, calvinista americano do período da Guerra Civil.
- Primeira crítica branda de Case: não achar óbvia a distinção entre emoção e humor. Mullins responde que a distinção é padrão na filosofia da emoção e repousa na intencionalidade, emoções são sempre sobre algo, humores não têm objeto intencional claro, e ironiza que Case a contesta citando um cientista da computação em vez de psicólogos ou filósofos da emoção.
- Sobre a empatia divina, esclarece o que de fato faz no livro: não afirma por conta própria que impassibilidade exclui empatia, e sim cita teístas clássicos que dizem isso explicitamente, entre eles Girolamo Zanchi, para quem é bom que Deus não tenha empatia, já que tê-la comprometeria a impassibilidade. A inferência é simples, o Deus impassível não pode ser movido, causado ou influenciado por nada externo em suas crenças, emoções e ações, e empatia é exatamente isso.
- Aponta o que considera a falha estrutural da resenha: Case nunca define impassibilidade nem passibilidade, e por isso não consegue derivar inferências, tema que Mullins retoma o episódio inteiro.
- Responde à queixa de que ele se apoia em reformados (James Dolezal, Herman Bavinck, Arthur Pink) em vez de Tomás de Aquino, observando que Dolezal cita Aquino à exaustão e que o livro pretendia orientar o leitor no debate contemporâneo, inclusive no volume “Impassibility: Four Views”.
- Sobre as provas bíblicas propostas por Case, Tiago 1:17 (“nem sombra de variação”) e Hebreus 13:8 (“Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre”), responde que nenhum dos dois diz o que a impassibilidade afirma, que no máximo sugerem imutabilidade, que a maioria dos biblistas (cita John Peckham e Walter Moberly) não lê ali a forma forte dessa doutrina, e que o texto de Hebreus descreve Cristo em termos explicitamente temporais, com passado, presente e futuro.
- Explica por que cortou o artigo de David Bentley Hart, “No Shadow of Turning”: considera-o pesado em asserções e caricaturas das posições adversárias e leve em argumentos, de modo que a única resposta possível seria descrever corretamente a passibilidade divina, que é o que o livro já faz.
- Sobre o argumento da unidade, lembra que ele parte da própria definição de amor dos teístas clássicos, o amor envolve desejo de união com o objeto amado, e que a impassibilidade nega desejos a Deus. Rebate a acusação de ignorar a linha tomista mostrando que o capítulo discute Eric Silverman e, longamente, Eleonore Stump, cuja defesa do amor divino é exposição de Tomás.
- Sobre a “dor analógica atemporal” que Case propõe como saída, responde que predicações analógicas são literais, não metafóricas, que o teísmo clássico exige felicidade divina imperturbada e inteiramente fundada em Deus mesmo, e que dor é inconsistente com isso, além de a impassibilidade negar que os eventos da história influenciem Deus. Acusa o uso da palavra “analógico” como talismã que dispensaria a argumentação.
- Recupera com gosto um argumento de Marshall Randles, que em 1900 publicou uma defesa da impassibilidade: se Deus fosse atemporalmente triste com o mundo, então, após a ressurreição geral e o fim do pecado e da morte, todos celebrariam enquanto Deus seguiria eternamente entristecido. Mullins usa o caso para mostrar que os teístas clássicos do passado eram inteligentes e viram a incompatibilidade, e por isso rejeitaram a tristeza divina em vez de acomodá-la.
- Sobre a proposta neocalcedônia de Case, de que a encarnação transcenderia o debate porque o Filho é passível e impassível, responde que todos os argumentos do livro são sobre a natureza divina, e acrescentar uma natureza humana não os toca, além de ele já ter defendido em artigo que teísmo clássico mais encarnação implica nestorianismo.
- Encerra com uma farpa a Gavin Ortlund: antes do debate dos dois sobre simplicidade divina, Mullins enviou-lhe seu capítulo do “Contemplating Divine Simplicity: Five Views”, que cobria exatamente os argumentos a discutir, e Ortlund declarou publicamente que se preparou lendo “God and Emotion”, livro sobre outro tema.