Ryan Mullins responde à gritaria das redes contra o clipe de William Lane Craig sobre geração eterna dizendo que a maioria dos indignados não sabe enunciar a doutrina que defende. Ela afirma, sem eufemismo, que o Pai causa o Filho a existir; Craig não virou herege de repente, sustenta a mesma posição publicada há mais de vinte anos, e a acusação de "heresia recente" só revela ignorância da própria história conciliar.
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o episódio é a porta de entrada exata para a polêmica Craig que já respinga no radar (o Hosanna In Excelsis anunciou programa sobre isso como "golpe no protestantismo") e o dossiê histórico-conceitual de Mullins (Gregório de Nissa, Heron, Paasch, Holmes) dá ao Bruno o mapa para avaliar se a defesa clássica da geração eterna sobrevive sem o apelo ao mistério.
O que foi dito
- Mullins abre situando a polêmica: no fim de semana Craig soltou um clipe de entrevista sobre geração eterna e “teólogos autoproclamados” o declararam herege, como se ele tivesse mudado de posição, quando o Philosophical Foundations for a Christian Worldview (2003), o volume de debate One God, Three Persons, Four Views (com Dale Tuggy, William Hasker e Beau Branson, org. Chad McIntosh) e a própria entrevista de Craig a Mullins no ano passado documentam a mesma visão há décadas.
- Ele lê a abertura da seção sobre processões do Systematic Philosophical Theology de Craig (vol. 2b, p. 420): o modelo trinitário de Craig não precisa da derivação de uma pessoa a partir de outra, mas também não a exclui; Craig chama a doutrina de relíquia da cristologia do Logos, sem lastro bíblico e com risco de subordinacionismo.
- Mullins frisa o que os críticos não notaram: Craig não rejeita a geração eterna, diz que seu modelo dispensa a doutrina sem precludi-la, posição repetida no livro de debate.
- Define a doutrina no enunciado que, segundo ele, quase nenhum teólogo contemporâneo tem coragem de repetir: o Pai causa atemporalmente o Filho a existir, e causa o Filho a ter a mesma natureza divina; até Tomás de Aquino amacia a linguagem (o Pai como “princípio” do Filho) porque a formulação ortodoxa soa igual à dos hereges, mas, como mostra J. T. Paasch, o conceito continua sendo produção, causalidade eficiente.
- Contra a saída de que os antigos tinham “outro conceito de causa”, Mullins cita Gregório de Nissa (Sobre não haver três deuses): o princípio de causalidade distingue as pessoas da Trindade, o Pai é incausado, Filho e Espírito dependem da causa; e apoia a leitura no patrólogo Alasdair Heron (“gerado” denota o que tem causa ou fonte fora de si), com a mesma conclusão em Richard Cross, Michel Barnes, Rory Fox e Andrew Hollingsworth. Do Oxford Handbook of Causation, com 37 capítulos, ele pergunta qual seria “o” conceito moderno de causa.
- Na história conciliar, lembra que Niceia (325) foi imprecisa, que boa parte dos participantes esqueceu os detalhes credais (inclusive o neologismo grego para “gerado”, que difere de “feito” por uma letra, o par que o português traduz por “gerado, não criado”), que Atanásio brigou para reabilitar o concílio e que foi preciso Constantinopla (380-381) e concílios posteriores para limpar a formulação; estranhar que Craig ache que “os mortos de 325” erraram detalhes é ignorar o que qualquer manual de história da igreja registra.
- Expõe o que a doutrina deveria garantir, citando Stephen Holmes (The Quest for the Trinity): a atividade causal do Pai asseguraria que Filho e Espírito compartilham a mesma essência divina (homoousios), com todas as propriedades de grandeza (onipotência, onisciência, eternidade).
- Reconstrói o argumento subordinacionista do século IV (arianos, eunomianos, homoiousianos): aseidade é propriedade de grandeza, ser Deus é não ter causa; o Filho é causado; logo o Filho não é Deus pleno. Os ortodoxos concordavam que o Filho é causado e responderam que ele é “causado a ser a se”, apelando ao mistério inefável para bloquear a inferência.
- Craig, citando Atanásio, Hilário e Basílio dizendo que o Pai é maior que o Filho por ser incausado e ao mesmo tempo que ambos são iguais em divindade, chama a combinação de “contrassenso lógico”, como dizer que seis é maior que quatro sem que quatro seja menor que seis.
- Mullins encerra sem dar veredito próprio, com perguntas à audiência: um ser causado a existir pode ser Deus, e apologistas deveriam aprender o básico da doutrina antes de sair defendendo-a.