Live de quase 4 horas de perguntas pagas (pix/superchat) com Matheus Fugita (adventista) e Carlos Alberto (católico de escola luliana), alternando escolástica de nível razoável (desenvolvimento dogmático, cânon, pena de morte, aborto) com um react à treta Frisk × Banzoli × Areópago que vira, na prática, um diagnóstico do baixo nível da apologética brasileira.
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o formato live de superchat fragmenta tudo e as 4 horas não pagam o garimpo; mas o bloco sobre teorias do desenvolvimento dogmático é um bom mapa de leitura, e o diagnóstico interno do baixo nível da apologética BR (feito por dois insiders) conversa com o incômodo do Bruno com sectarismo e desconexão da academia.
O que foi dito
- Sobre a infalibilidade papal, Carlos expõe as teorias concorrentes do desenvolvimento do dogma: formalmente implícito (linha Suárez/Lugo), virtualmente contido (Marín-Sola), virtualismo objetivo (Gabriel Vázquez) e virtualismo escotista, remontando o debate ao século XV-XVI (cita um tratado do francês Jean-Gabriel Boyvin, grafia incerta) contra a ideia de que ele começa em Newman.
- Ambos respondem por que a infalibilidade não foi invocada no Cisma do Oriente: a disputa de então era sobre o primado (jurídico ou honorífico) do bispo de Roma, questão distinta da infalibilidade, que só seria explicitada no Vaticano I; a falsificação da Doação de Constantino (exposta por Lorenzo Valla) não afetaria a doutrina porque o primado não depende dela.
- Fugita, do lado protestante, argumenta que Mateus 16 (“as portas do inferno não prevalecerão”) renderia no máximo conteúdo virtualmente contido, não formalmente implícito, e que lastrear a infalibilidade nas fontes do primeiro milênio é historicamente subdeterminado.
- Sobre o cânon, Fugita defende que a lista canônica pode estar virtualmente contida nas propriedades da própria Escritura (refinando a autoautenticação de Michael Kruger), cita a carta festal 39 de Atanásio, e diz que como adventista não veria problema em Bíblias com os deuterocanônicos, desde que com estatuto qualitativo distinto, como nas Bíblias protestantes até meados do século XIX.
- Sobre pena de morte, Carlos desmonta o suposto consenso católico: a escola escotista (Duns Escoto) só a admite por autorização divina direta, contra Tomás e Caetano; ele próprio segue a linha agostiniana/luliana das penas medicinais antes de qualquer pena capital, e Fugita a rejeita em qualquer caso sem ordem divina expressa, citando João Crisóstomo contra a execução de hereges (o joio e o trigo).
- Sobre o experimento mental do violinista de Judith Jarvis Thomson, ambos o consideram falsa analogia: a gestação gera uma vida nova em ato (não conecta um estranho já existente) e a obrigação parental difere da obrigação entre estranhos; Fugita leva a posição até os casos de estupro.
- Fugita responde à objeção de que revelação assumida como mais segura que as ciências cairia no mito do dado: crença em proposição revelada é justificada inferencialmente, logo não é “dado” em nenhum dos sentidos (epistêmico, categorial, semântico) que ele expôs em sua imersão apologética.
- O argumento trinitário de Ricardo de São Vítor é julgado insuficiente pelos dois: sem uma triadologia prévia (os correlativos de Raimundo Lúlio, para Carlos) o amor difusivo não garante três pessoas, nem exclui quatro ou cinco.
- No react ao vídeo do católico Frisk contra Lucas Banzoli e o canal Areópago Apologética, os dois condenam o espetáculo: acusações de possessão demoníaca (“legião de demônios” no Banzoli), apelo à testosterona e à namorada como credencial, debate proposto em dois contra um; Carlos pede uma “purificação” da apologética brasileira dos dois lados, e Fugita nota que o exclusivismo agressivo afasta as pessoas do catolicismo.
- De passagem, Carlos contesta a originalidade de Mário Ferreira dos Santos (o “ponto arquimédico” viria de Jaime Balmes, a penta/deca dialética do epilogismo de Athanasius Kircher e da dialética luliana) e ambos recomendam para escolástica reformada Willem van Asselt, Richard Muller, Robert Preus e fontes primárias como Turretini e o Examen de Martin Chemnitz.