Live de quase 5h em que Fugita e Carlos Alberto (apologeta escolástico/luliano) fazem react à segunda resposta de Gustavo Machado, marxista, que defende que a metafísica não é ciência do ser universal mas um produto histórico-social contingente da polis grega, e que os universais/o transcendente são metodologicamente supérfluos quando se explica os fenômenos de modo imanente; o eixo da fricção é se essa tese materialista consegue se sustentar sem, ela mesma, operar como um pressuposto metafísico não demonstrado.
talvez
o miolo (pressuposto imanentista como metafísica disfarçada, petição de princípio, querela dos universais, metafísica como ciência especulativa em Aristóteles) é filosoficamente sério e afim ao interesse do Bruno por metafísica e teologia natural, mas está diluído em quase 5h de react com muita conversa lateral, então vale só se ele quiser o debate marxismo x metafísica clássica especificamente.
O que foi dito
- Gustavo Machado sustenta que a metafísica (ciência do ser enquanto ser, fundamentação geral da realidade) não é um dado universal do pensamento humano, mas surge de condições sociais concretas, sobretudo a forma da polis grega, e por isso deve ser explicada geneticamente, não pressuposta.
- Seu método é o materialismo histórico à la Marx: assim como Marx não deduziu o capitalismo de leis gerais mas o reconstruiu internamente (mercadoria, dinheiro, mais-valia, ciclos do capital), Machado quer reconstruir a gênese da metafísica a partir dos fenômenos, sem recorrer a nada transcendente.
- Objeção central de Fugita e Carlos: o próprio princípio de Machado (explicar tudo de modo imanente, sem leis ou entidades externas aos fenômenos) é ele mesmo um pressuposto externo aos fenômenos, funcionando como lei metodológica que, não sendo autoevidente, precisaria ser demonstrado e não apenas assumido.
- Acusam-no de circularidade e de petição de princípio (petitio principii): para validar ou invalidar o pressuposto marxista é preciso já assumir o pressuposto marxista, movimento que aproximam do pressuposicionalismo de Van Til e que dizem ser anômalo na história da filosofia, ausente em Aristóteles (Órganon), Platão, neoplatônicos e peripatéticos.
- Machado percorre casos históricos (Dêutero-Isaías, a reforma monoteísta de Akhenaton lida via Jan Assmann, a gramática de Panini na Índia) para mostrar que abstrações e universais sempre nasceram de circunstâncias concretas e não fundam uma ontologia geral; Fugita rebate que Panini exige um especialista (chama Rian) e fareja resposta “chatgptzada”.
- Discute-se o estatuto dos universais nos moldes da querela medieval (universais ante rem, in re, post rem): Machado exige que a existência dos universais autônomos seja provada, já que só os particulares se dão à sensibilidade; Fugita inverte, dizendo que afirmar que só os particulares existem e que os universais não se dão de nenhum modo é que exige demonstração.
- Aparece um contraexemplo forte contra Machado sobre Aristóteles: o Primeiro Motor e a teologia aristotélica, atributos, justiça, temporalidade e a distinção entre substância primeira e o motor imóvel, sugerindo que a metafísica grega não se reduz à forma social da polis.
- O ponto que Fugita considera decisivo e “decepcionante” na tese de Machado é a confissão de que ele nunca refuta teoricamente a metafísica, apenas a declara supérflua se a reconstrução imanente for bem-sucedida; Fugita objeta que “supérflua na prática” não é “impossível nem falsa”, e que, citando Aristóteles, a metafísica como ciência especulativa (a verdade pela verdade) permaneceria válida mesmo sem utilidade prática.
- Fugita aponta ainda viés de confirmação: a análise materialista só produz resultados imanentes porque parte, metodologicamente, do imanente, tomando o método de Marx como “o método dos métodos”.
- Fecho longo e disperso (2h da manhã, ~32 pessoas): brincadeiras com doações (“urubus do Pix”), menção a debate paralelo Areópago x Arena, e Carlos Alberto divulgando seus cursos de escolástica e de lulismo (Ramon Llull) e um futuro curso de teologia natural em bases lulianas.