a tese
Philip Goff, filósofo panpsiquista de Durham que se aproxima de um cristianismo "herético", debate com William Lane Craig três pontos onde discorda da ortodoxia (Deus de poder limitado, expiação por participação e uma ressurreição não corporal); Craig responde apelando ao dado bíblico e à centralidade da cruz.
aprofundar
sim
o embate participação × substituição penal e a leitura de Isaías 53/Levítico tocam diretamente o cristocentrismo do Bruno e renderiam uma análise avulsa com os recursos do Logos (Milgrom, Wright, Bock).
O que foi dito
- Goff apresenta um artigo em preparação (com Kenny Boyce e Marco O’Brien) que, sob premissas de modelagem plausíveis, demonstra matematicamente que, se há evidência de multiverso, ela aponta para um multiverso homogêneo (todos os universos igualmente ajustados), o que não dissolveria o ajuste fino mas o reintroduziria.
- Craig aproxima o argumento do problema dos cérebros de Boltzmann: um multiverso heterogêneo tornaria indistinguível se somos observadores comuns ou cérebros flutuantes, posição autorrefutante que colapsa em ceticismo cognitivo.
- Goff defende um Deus bom porém de poder limitado (aparentado ao “finite Godism”, à teologia de processo de Whitehead e a Tom Oord) como hipótese simples que explicaria tanto o ajuste fino quanto o sofrimento; Craig objeta que impedir males como Hitler exigiria pouquíssimo poder, de modo que um Deus tão limitado deixa de ser digno de adoração (citando David Hunt: Deus mais como o Uno de Plotino que como Zeus).
- Sobre a expiação, Goff sustenta a visão ortodoxa oriental da participação (a imagem da videira e dos ramos, a queda como cisão sarada por Cristo médico, a deificação), ancorando-a na encarnação; Craig afirma uma expiação multifacetada mas centrada na cruz, acusando o Oriente de deslocar indevidamente o centro da salvação para a encarnação (1Co 2.2; ~25% dos Evangelhos na paixão).
- Goff relativiza os apoios bíblicos da substituição penal, invocando Jacob Milgrom contra a leitura substitutiva dos sacrifícios de Levítico e argumentando que o Servo Sofredor de Isaías 53 virou tema recorrente para todo sofrimento justo (inclusive em Daniel e fontes pré-cristãs), não prova de substituição; Craig mantém a substituição penal prefigurada em Levítico e Isaías 53, retomada por vários autores do NT.
- Goff levanta o problema da ocultação divina como sua angústia mais profunda (amigos ateus sinceros que não creem); Craig nega que Deus esteja oculto (origem do universo, ajuste fino, aplicabilidade da matemática, valores morais objetivos, Jesus histórico) e cita Pascal sobre evidência suficiente para quem quer ver e obscuridade suficiente para não coagir.
- Sobre a ressurreição, Goff propõe uma “teoria da identidade” em que ressurreição e ascensão são um só evento: o túmulo vazio resulta da absorção da fisicalidade de Jesus na plenitude de Deus, e os discípulos tiveram experiências avassaladoras de unidade com o divino (à moda de Paulo em Damasco), não o toque de um corpo.
- Craig replica que a visão de Goff é incompatível com o testemunho unânime dos Evangelhos sobre aparições físicas e corpóreas, distingue aparição de mera visão (1Co 15; Estêvão em At 7) e sustenta que aparições visionárias não explicariam o surgimento dos relatos evangélicos, escandalosos para judeus e gentios.
- Goff apela a Dale Allison e ao “após três dias” de Marcos para defender que Jesus de fato predisse sua ressurreição, admite abertamente que sua visão é incompatível com a inerrância (Lucas teria “preenchido” o que não testemunhou) e invoca N. T. Wright sobre “transfisicalidade”; Craig aponta a incoerência de aceitar a historicidade das predições (menos atestadas) e negar a das narrativas de aparição.