A escolha de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro é, na leitura de Pedro Doria, uma "admissão de derrota": o PL trocou a única arma que tinha contra o abismo de gênero na campanha por um acordo provinciano que abre caminho para Arthur Lira chegar ao Senado e disputar a presidência da Casa. O bolsonarismo prefere manter o controle da direita e mirar 2030 a fazer as concessões necessárias para ganhar em 2026.
talvez
porque os vinte minutos iniciais com a série histórica do abismo de gênero e a tese do acordo com Lira valem muito para quem acompanha a eleição, mas o programa gasta quase duas horas girando em torno de um único tema, deixa cair as pautas anunciadas sobre Lulinha e Marcola e resvala bastante em anedota pessoal; ao Bruno interessa em especial o flanco evangélico do argumento, a sobrecarga do cuidado pregada do púlpito e o desmonte político de Michelle e do PL Mulher.
O que foi dito
- A abertura do programa listou três pautas (o vice-problema de Flávio, as investigações sobre Lulinha e sobre o ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Santana Ribeiro, o “Marcola”, e o atrito entre o ministro André Mendonça e o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues no caso INSS), mas só a primeira foi de fato discutida; Lulinha e Marcola ficaram na escalada e não voltaram.
- Alfredo Gaspar pediu ao STF e à PGR que acelerem exame de DNA que, segundo sua defesa, derruba a acusação de estupro de vulnerável apresentada pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS); Gilmar Mendes mandou os dois apresentarem os indícios, e a campanha de Flávio aposta em virar o arquivamento contra Lula, alegando perseguição ao relator da CPMI do INSS.
- Doria sustenta que Gaspar entrou na chapa porque era candidato ao Senado por Alagoas e atrapalhava Arthur Lira, que disputa a segunda vaga (a primeira é dada como certa para Renan Calheiros) de olho na presidência do Senado a partir de 1º de fevereiro de 2027.
- Os números da pesquisa Meio Ideia em quatro ondas (5 de maio, 27 de maio, 6 de julho e 3 de agosto) mostram Flávio no segundo turno com 45,3%, 41,4%, 40,0% e 43,0% do total, mas com o voto masculino subindo de 44,7% para 52,2% e o feminino despencando de 45,8% para 34,5%, o que leva a diferença entre homens e mulheres de -1,1 para +17,7 pontos.
- Alexandre Borges argumenta que existe manual para reverter isso, citando Kellyanne Conway na campanha de Donald Trump em 2016: ela abandonou a ideia de um “voto feminino” único, quebrou o eleitorado em clusters por estado civil, idade, classe e escolaridade e fez microtargeting, o que virou a eleição em dois ou três meses.
- A discussão sobre por que não veio uma mulher passou por Tereza Cristina (barrada porque o partido dela optou pela neutralidade e Flávio a chamou de “vovozinha”), Priscila Costa (PL do Ceará, próxima de Michelle Bolsonaro, vetada para não fortalecer Michelle nem criar liderança nova no Ceará) e Daniela Marques (bem avaliada pelos três, embora tenha dito numa entrevista que os Correios detêm o monopólio das entregas no Brasil).
- A frase de Flávio numa live, “tive duas filhas para cuidarem de mim na velhice”, virou o eixo do programa: respondendo a um espectador que a via como elogio, Doria e a apresentadora argumentaram que colocar a mulher no lugar do cuidado é justamente o ponto de exaustão que afasta eleitoras, inclusive de direita, e Borges divergiu em parte, defendendo que há diferenças de natureza, não só de cultura, mas que um líder político não pode falar algo que exige dez pessoas explicando depois.
- Doria dá a Flávio 35% a 40% de chance de ser eleito, prevê segundo turno apertado com Lula favorito por cerca de 1%, apoiado no “antipetismo de chegada” e na bolha de bem-estar econômico que todo presidente-candidato cria desde 1998; ele também relata que Flávio levou sete minutos e não conseguiu articular três motivos para votar nele na sabatina do Antagonista, sinal de candidato que não estuda nem se prepara.
- Borges propõe a distinção entre “roteiro” (o discurso) e “casting” (se o eleitor aceita aquele personagem no papel), usando Anthony Garotinho, 66 anos, 50 de rádio, com passagem por púlpito evangélico e pelo governo do Rio, articulado como ninguém e ainda assim travado pelo próprio nome, enquanto Flávio tem roteiro ruim e casting que o sustenta.
- O bloco cultural com Guilherme Vernec (grafia incerta) tratou da HQ-reportagem “Três Horizontes”, do coletivo colombiano de Medellín de Pablo Pérez e Lina Flores, do avanço do jornalismo em quadrinhos (Joe Sacco, “Persépolis”, “Fun Home”), do festival Dança em Trânsito e do Doce Maravilha no Rio (com Paulinho da Viola e Maria Bethânia, e Caetano Veloso, que faz aniversário, com Emicida no domingo), das exposições de Anna Maria Maiolino e Alfredo Jaar na galeria Luisa Strina e da Flipei no galpão do MST em Santa Cecília, que abrigou a exposição de funk encerrada antes do prazo no Museu da Língua Portuguesa após pressão da extrema direita.