Radar

radar · Política & notícias

Apoio de Motta e Alcolumbre à campanha para reeleição de Lula | Central Meio

a tese

A reaproximação entre Lula, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, costurada num jantar na casa de Alexandre de Moraes, não é conversão ideológica nem sinal de "frente ampla", e sim o centrão precificando que Lula deve vencer e comprando posição para a disputa de 2027 (presidência do Senado e sobrevivência das emendas parlamentares). No fundo do programa, Pedro Doria e Creomar de Souza convergem numa tese mais dura: o desenho institucional montado em 1988, centralizador e financiado por transferências ao Congresso, está chegando ao esgotamento fiscal e ninguém na política quer dizer isso em voz alta.

aprofundar

talvez

porque os primeiros quarenta minutos são fofoca qualificada de bastidor de Brasília que envelhece em uma semana, mas o miolo sobre a arquitetura institucional de 1988, a lógica estrutural do centrão e o nó fiscal da previdência indexada é a melhor síntese disponível em vídeo do porquê de o Brasil não conseguir escolher entre estado de bem-estar e política industrial.

O que foi dito

  • Pedro Doria abre com uma resposta pública a Renan Santos, que declinou do convite para entrevista alegando posicionamento consolidado do programa; Doria admite ter criticado o desempenho dele em pesquisas online (institutos que recrutam por banner pescam o eleitor hiperengajado, o que favorece a militância do MBL), mas insiste que a entrevista existiria para expor o pensamento do candidato, não para lacrar.
  • A crítica central a Renan Santos é ideológica e jurídica: o plano de governo mistura ajuste liberal (PEC da transição, corte de R$ 1,1 trilhão até 2031, desindexação de benefícios) com desenvolvimentismo (defesa da Petrobras, política industrial de soberania tecnológica, zonas econômicas especiais), e propõe “direito penal do inimigo”, regime jurídico diferenciado para faccionados, inversão do ônus da prova e superpresídio nos moldes do CECOT de Bukele; para Doria isso cria dois sistemas legais paralelos, fere cláusula pétrea e a pergunta que ele faria é se, ao ser derrubado pelo Supremo, o candidato recua ou elimina o Supremo.
  • O jantar de Moraes ocorreu na terça, 4 de agosto, foi revelado por Bela Megale (O Globo) e serviu para reaproximar Lula de Alcolumbre, afastados desde a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF; Creomar de Souza lê a virada como termômetro de que Brasília passou a precificar vitória de Lula, sem que os interesses de Alcolumbre tenham mudado, porque ele joga 2027, não 2026.
  • Flávia Tavares acrescenta Arthur Lira ao mesmo tabuleiro e a mesa desenha a disputa pela presidência do Senado em 2027 entre Alcolumbre, Tereza Cristina, Rogério Marinho e um eventual senador Lira, todos da mesma federação União Progressistas, com Renan Calheiros do outro lado; a saída de Alfredo Gaspar da disputa em Alagoas, depois de ser anunciado vice de Flávio Bolsonaro, abriu caminho para Renan e Lira serem eleitos.
  • A “neutralidade” nacional do União Progressistas é descrita como neutralidade de fachada que libera alianças regionais: Hugo Motta esperou a decisão dos Republicanos para anunciar o diretório da Paraíba com Lula, porque o pai dele, Nabor Wanderley, é candidato ao Senado, e Ciro Nogueira ficou neutro no Piauí porque abraçar Flávio seria suicídio eleitoral no Nordeste.
  • Doria sustenta o argumento com números: pesquisa Atlas Intel/Meio Norte de 15 a 20 de julho dá Lula com 70,8% contra 22% de Flávio Bolsonaro no segundo turno no Piauí, e a Real Time Big Data dá 58% a 30% na Paraíba, proporção de cerca de três quartos a um quarto que se repete no Nordeste e se inverte no Centro-Oeste; toda a política é local, e por isso Lira precisa da campanha de Flávio em Alagoas enquanto Motta precisa da foto do pai com Lula na Paraíba.
  • Segue uma digressão histórica sobre o centrão como a força política mais antiga do país, herdeira da República dos governadores e dos partidos republicanos estaduais, ideologicamente amorfa porque o que define sua eleição é a pauta regional; Doria discorda de Flávia ao negar que o centrão tenha desenhado isso na Constituinte, atribuindo a centralização fiscal à escolha desenvolvimentista de gente como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Afonso Arinos e Bernardo Cabral, formados na CEPAL, e conclui que hoje o centrão tem poder sobre a verba federal sem depender do presidente, o que ele considera a principal barreira contra uma ditadura.
  • Creomar de Souza acrescenta que a Constituinte foi também Congresso ordinário, o que impediu pensar o país com atenção, e que o calendário eleitoral de dois em dois anos consome a cognição do político; ele questiona se o modelo de 1988 sobrevive ao ciclo 2027 a 2030, diz que não há projeto de país em nenhuma liderança política, empresarial ou universitária, e que as duas forças que levarão o eleitor às urnas são desalento e desilusão.
  • O bloco fiscal é o mais afiado: Doria afirma que nenhum candidato diz que não há dinheiro, que a indexação da previdência ao salário mínimo é uma máquina de crescimento do gasto num país que não cresce, e que o Brasil tenta ter estado de bem-estar europeu com política industrial sul-coreana ao mesmo tempo; ele aposta que Lula, se eleito, será quem romperá a ligação entre aposentadoria e salário mínimo, e prevê para 2027 uma explosão de indiciamentos no escândalo do Banco Master, com senadores bolsonaristas negociando salvo-conduto com o STF, além de Flávio Dino usando a pauta dos penduricalhos e da inconstitucionalidade das emendas para se cacifar em 2030.
  • Creomar contrapõe que o Brasil sempre faz austeridade com quem é pobre, cita Bruno Carazza e Pedro Fernando Nery sobre privilégios e desigualdade, lembra o endividamento das famílias de dois a cinco salários mínimos e a renda dos avós sustentando o orçamento doméstico, e defende um pacto ao estilo Moncloa; o programa termina em atrito real entre Doria e Flávia Tavares sobre se a política econômica liberal tem ou não força política no Brasil, com ela citando o embarque de economistas liberais na campanha de 2022 e ele negando que responsabilidade fiscal seja liberalismo.

Mais de Meio

255 no radar
10/10A esquerda consegue virar o placar? | De Tédio a Gente Não Morreaprofundar: talvez09/10Suposto áudio de Vorcaro e a polêmica do filme sobre Lulaaprofundar: não09/10Quem entende melhor a Classe C? | Ponto de Partidaaprofundar: talvez09/10Nikolas e Ana Elisa em batalha, militâncias de Lula e Flávio espalham mentiras | Central Meioaprofundar: não09/10Datafolha: Flávio tem 52% e Lula, 48% dos votos válidosaprofundar: não

todos os 255 vídeos de Meio no radar →