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Confusão no sistema do TSE trava candidatura de Flávio Bolsonaro | Central Meio

a tese

Edição de quase duas horas do programa diário do Meio, com Pedro Doria, Yasmin Restum e Alexandre Borges, que parte da filiação fraudulenta de Flávio Bolsonaro ao partido Missão para discutir a fragilidade do sistema do TSE e, sobretudo, a solidez real da base eleitoral do candidato do PL.

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quase duas horas com muita conversa de futebol e leitura de chat, mas o bloco de metodologia de pesquisa é o melhor material didático da rodada: a diferença entre estimulada, espontânea e cruzamento de histórico, a pergunta sobre resultado ideal e a divergência aberta entre Felipe Nunes e Lavareda sobre calcificação do voto ensinam a ler pesquisa eleitoral sem ilusão; e a objeção de Alexandre Borges a Weber é a única do lote que cai no seu terreno, ainda que ele a formule por biografia do autor, argumento fraco que você tem condições de melhorar ou desmontar.

O que foi dito

  • O caso: ao formalizar a candidatura, a campanha de Flávio descobriu que ele constava filiado ao Missão, cujo candidato é Renan Santos; o partido alegou tentativa de filiação fraudulenta, o TSE negou invasão mas travou o sistema de filiação para checagem, e Kassio Nunes Marques mandou apurar; houve também tentativa de alterar o partido de Lula.
  • Doria explica o desenho institucional que permitiu isso: o TSE atribui aos partidos a responsabilidade por declarar quem está filiado e simplesmente registra o que o partido informa, e os partidos usam sistemas automatizados sem conferência humana.
  • Detalha o mecanismo técnico: o Missão diz ter usado o e-mail público de Flávio no Senado e que o botão de confirmação foi clicado quase instantaneamente; Doria mostra que esse clique é apenas um comando enviado a um servidor, reconstruível por quem tem o sistema, de modo que o autor pode ser alguém do próprio Missão, alguém com acesso ao e-mail do senador, ou até um agente de inteligência artificial que triava a caixa de entrada e seguiu o link para entender o que era.
  • Sobre a identificação, explica o rastro de IP: sem VPN, a operadora consegue dizer que máquina estava conectada àquele endereço naquela hora, e Alexandre Borges completa com a analogia da placa do carro, que leva ao dono e não necessariamente a quem dirigia.
  • Ambos concluem que se trata de trollagem digital sem consequência jurídica, já que a candidatura jamais deixaria de ser registrada por isso, mas registram o dano institucional e o fato de o TSE já ter admitido que vai revisar o sistema.
  • Doria aproveita para relatar seu próprio cerco: está sendo atacado simultaneamente pela esquerda, por dizer que a ANPD passou do ponto ao censurar as lives do Discord e que a plataforma vem cumprindo a lei; pelos bolsonaristas, por sustentar que decisão judicial se cumpre mesmo quando se discorda dela, ainda que considere absurda a quebra de sigilo de fonte determinada por Alexandre de Moraes; e pelo Missão, por ter afirmado com prints que o partido organiza mutirões em pesquisas online.
  • O bloco central é de análise de pesquisa. Doria distingue três medições: na pergunta estimulada de primeiro turno Flávio fica perto de 30%; na espontânea, em torno de 20%; e cruzando com voto em Bolsonaro em 2018 e 2022 sobra um núcleo duro de 12 a 15%.
  • Apresenta a pergunta que considera mais reveladora, sobre qual seria o resultado ideal da eleição: 36% respondem vitória de Lula, 25% vitória de alguém da família Bolsonaro, e os demais se dividem três para um entre alguém moderado e experiente e alguém de fora que resete o sistema; observa que esse terço não polarizado é majoritariamente de direita, o que explica o piso alto e o teto baixo de Lula.
  • Expõe a divergência real entre pesquisadores sobre a faixa entre 15 e 25%: Felipe Nunes, da Quaest, entende que há calcificação e que esse voto é inquebrável nesta eleição; Antônio Lavareda, com quem Doria concorda, entende que é gente despolitizada, que não vê jornal nem discute política nas redes, e cuja resposta “família Bolsonaro” significa na verdade “Lula perder”, por memória dos dois últimos ciclos.
  • Daí a hipótese da avalanche que Gilberto Kassab estaria apostando: se Flávio perder cinco ou dez pontos em duas ou três semanas, o eleitor antipetista não apaixonado migra, e as opções seriam Renan Santos, que oferece reset, e Ronaldo Caiado, que oferece experiência; Doria aposta em Caiado por ler esta como eleição de busca por tranquilidade e não de outsider, lembrando ainda que Caiado terá mais de dois minutos diários de propaganda com a neutralidade do centrão, enquanto o Missão não terá tempo de televisão.
  • Discutem o desconhecimento dos alternativos e Doria contesta a tese de que o brasileiro não vota em quem não conhece, listando Collor, Dilma, Zema e Witzel; Borges, que trabalhou na campanha de Witzel, conta que o candidato veio do nada nas duas últimas semanas.
  • Longa digressão sobre viradas de campanha, com Borges narrando de dentro dois casos paulistanos: Celso Russomanno, que liderava com folga em 2012 e desabou depois de sugerir num debate o fim do bilhete único, e João Doria, que em 2016 virou o jogo respondendo a Luiza Erundina que comprou sua casa com o próprio trabalho e não tem vergonha do próprio sucesso, vencendo em primeiro turno com votação altíssima na periferia.
  • Doria acrescenta o caso de 2016 nos Estados Unidos, em que Trump virou a eleição ao entregar a campanha a Kellyanne Conway, especialista em hábitos de consumo do público feminino, e usa a analogia do exame de colesterol para explicar que pesquisa não é bola de cristal, mas retrato do momento e indicação de tendência que a ação pode alterar.
  • Sustenta, contra o senso comum, que a literatura recente derrubou a tese (na qual ele mesmo acreditava) de que desinformação na internet pesa muito na decisão de voto; o efeito real das redes e da mensageria é tornar mais frequentes as viradas de última hora, antes raras.
  • Caracteriza a eleição como disputa entre dois candidatos cansados, com Flávio funcionando como representante de Jair assim como Haddad funcionou como representante de Lula, e diz não ter hoje a preocupação com ruptura que teve no fim do governo Bolsonaro, porque a base bolsonarista está se dissolvendo.
  • Encerra o bloco com sua convicção de fundo: o motor eleitoral e econômico do Brasil é a classe C da periferia urbana, cerca de um terço da sociedade, gente disposta a trabalhar muito desde que o trabalho renda acúmulo, que quer ser burguesa e por isso não compra o discurso de burguesia como inimigo; acrescenta o dado de produtividade, segundo o qual o mesmo trabalhador brasileiro transferido para a Holanda produz mais riqueza na mesma hora, o que localiza o problema na estrutura do país e não no trabalhador.
  • Borges, católico, contesta a analogia calvinista: diz ter escrito artigo sustentando que a tese de Weber é equivocada, que Lutero e Calvino eram contrários à usura e que os primeiros regimes calvinistas foram dos mais anticapitalistas, atribuindo a formulação weberiana ao conflito biográfico do autor com o pai liberal e a mãe calvinista.
  • O programa também trata da operação da Polícia Federal contra Cláudio Castro na Refit, reconstruindo a improvável trajetória do vice de Witzel que virou governador e hoje é ignorado pelo próprio partido no debate da sucessão fluminense, e comenta as declarações de Kassab sobre apoio do centrão a Lula.

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