a tese
Programa de perguntas do público em que Pedro Doria sustenta duas teses complementares: candidato que lidera pesquisa não tem direito de fugir de debate, e a corrosão da democracia brasileira vem menos de golpe com tropa na rua do que da captura pessoal das instituições por quem as ocupa.
aprofundar
talvez
o valor aqui não é o noticiário e sim a estrutura do argumento sobre desenho institucional, isto é, quais órgãos devem responder à pressão popular e quais não devem, e por quê; é a peça mais bem articulada do bloco político desta rodada e serve de contraponto ao material do arvro, que aposta na leitura oposta.
O que foi dito
- Sobre a fuga dos debates, concorda com o ouvinte que lembra que Ciro Gomes no Ceará e ACM Neto na Bahia foram ao debate da Band mesmo liderando, e afirma que estar à frente não desobriga o candidato de se submeter ao teste dos adversários.
- Responde à sugestão de obrigar o debate apresentando o modelo argentino: lá se fixou por lei um número mínimo de debates e regras de realização, e o candidato que falta perde tempo de propaganda gratuita na televisão; cita também o esquema americano de rodízio entre emissoras.
- Rebate com dureza o ouvinte de esquerda que argumenta que Lula, prestes a completar 81 anos, não deveria se sujeitar à agressividade da direita: políticos em disputa estão a serviço do eleitor e têm de ser testados, e quem acha o contrário não entendeu uma ideia essencial da democracia.
- Sobre segurança em debate, observa que o gesto mais agressivo já ocorrido num debate brasileiro partiu de alguém que apoia Lula, referindo-se à cadeirada, e diz que a solução é operacional: parafusar cadeira no chão, instalar raio X, e não suprimir o debate.
- Na segunda parte, responde a quem pergunta o que fazer diante da sensação de que o sistema não representa a população: quem promete “peitar o sistema” está prometendo peitar a democracia, mas as democracias também morrem pela corrupção dos próprios atores.
- Enumera os exemplos que considera sintomáticos, sem poupar lado: Bolsonaro querendo escolher delegado da Polícia Federal para proteger a si, filhos e aliados; ministro do Supremo violando garantias constitucionais para proteger outro ministro; Dias Toffoli atrapalhando investigação de Daniel Vorcaro, seu sócio; a disputa entre Lula e Davi Alcolumbre por quem indica ministro que os proteja; e deputados distribuindo emendas conforme conveniência eleitoral.
- Explica por que isso alimenta o antissistema: um regime que deveria ser impessoal fica visivelmente pessoal, e daí a candidato presidencial dizendo que só obedecerá ordem do Supremo de que gostar.
- Diante da pergunta se pressão popular não faz as instituições avançarem, faz a distinção de desenho institucional: presidência e Congresso devem estar sujeitos à pressão popular; Supremo, Banco Central e agências reguladoras, não, porque suas decisões devem ser técnicas e não populares, e é por isso que têm mandato protegido.
- Aplica isso ao caso da ANPD pressionada pela primeira-dama a decidir sobre uma plataforma: defende regras gerais e uniformes para todas as plataformas, aplicadas do mesmo modo com e sem comoção pública, e observa que a investigação ainda não estabeleceu sequer em que plataformas o crime ocorreu, elogiando a cooperação do Discord em contraste com Telegram e X.
- Sobre a quebra de sigilo de fonte no caso das reportagens envolvendo Flávio Dino, remete sua posição ao artigo 5 da Constituição e endossa em parte o comentário de um advogado ouvinte: a interpretação elástica que se justificava quando a corte estava de fato ameaçada já não se justifica, e agora acaba dando razão a quem a ameaçava; recusa apenas o verbo “rasgar” como forte demais.
- Fecha com a distinção que considera decisiva, respondendo a quem pergunta o que faria se recebesse ordem judicial absurda: ordem ilegal não se cumpre é princípio militar e da aviação civil, mas decisão judicial se cumpre sempre, porque vivemos num estado de leis; cabe criticar, recorrer e questionar dentro do próprio Supremo, e vale a frase de Rui Barbosa de que alguém tem de errar por último.
- Conclui separando crítica legítima ao Supremo de ameaça de ruptura: dizer que não vai obedecer decisão judicial é declarar-se fora da lei, e isso vale igualmente para o cidadão comum e para o presidente da República.