Conversa de mais de uma hora entre Christian Lynch e o cientista político Guilherme Casarões, hoje na Florida International University, sustentando duas teses centrais: a matriz do nacionalismo cristão brasileiro é católica, ainda que sua expressão política hoje seja evangélica; e a política externa de Trump para as Américas é uma releitura do século XIX, com a geopolítica submetida a interesses empresariais e voltada sobretudo ao consumo eleitoral interno.
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é o material mais denso da rodada fora do bloco teológico e cruza direto com o que te interessa: a genealogia que liga Vaticano II, teologia da libertação, teologia da prosperidade e teologia do domínio é feita por cientistas políticos e por isso tem simplificações que você tem condição de corrigir (a leitura weberiana em particular é tratada de modo rápido demais), e a tese de que o nacionalismo cristão brasileiro é católico na matriz e evangélico na expressão merece ser confrontada com o que você conhece do campo por dentro.
O que foi dito
- Casarões recusa tratar o crescimento evangélico como espantalho e o explica como transformação religiosa de quarenta anos, ligada à crise brasileira dos anos 1980 (dívida, inflação, recessão) que levou muita gente a buscar na igreja uma rede de amparo.
- Explica por que a Igreja Católica não ocupou esse lugar: depois do Vaticano II e dos desdobramentos latino-americanos, ela amplificou o trabalho social com padres operários e comunidades eclesiais de base, e essa ala foi combatida a partir do pontificado de João Paulo II, cujo anticomunismo tinha raiz pessoal polonesa; Lynch lembra o apelido “padres melancia”, verdes por fora e vermelhos por dentro.
- Formula o paradoxo: a própria Igreja minou seus movimentos de base acusando-os de comunismo, e a teologia da libertação foi sendo suplantada pela teologia da prosperidade, de matriz pentecostal norte-americana, que converte fé em prosperidade individual e substitui a relação coletiva pela individual, alimentando o salto de cerca de 5 a 7% de evangélicos em 1980 para quase 30% hoje.
- Nega que ser evangélico implique ser conservador ou de direita, lembrando que essa massa votou tanto em Fernando Henrique quanto em Lula, e descreve o que houve como apropriação: movimentos de direita capturaram grupos evangélicos sobretudo pelos pastores, prometendo poder político, num processo que mimetiza a direita cristã americana nascida nos anos 1970, com ápice em Reagan e reabilitada em Trump.
- Marca a diferença estrutural entre os dois países: o protestantismo americano é fundacional e tem matriz racial branca que dialoga com o supremacismo, ao passo que o protestantismo brasileiro pega a classe média baixa e é racialmente diverso, e o Brasil é fruto de catequização católica, de modo que o nacionalismo cristão brasileiro é católico na origem, tese que ele diz ter desenvolvido na Piauí e em artigos acadêmicos.
- Lynch objeta que “nacionalismo” não se aplica ao caso brasileiro porque o centro do catolicismo está fora, em Roma, e o brasileiro se percebe periférico; e nota que a ala radical de hoje já nem tem Roma, sendo sedevacantista, com o centro deslocado para Washington, de modo que a categoria adequada seria patriotismo, já que o reacionário põe Deus acima da pátria (o lema é Deus, pátria e família, nessa ordem).
- Lynch acrescenta a chave econômica: o olhar católico tradicional sobre a economia é pré-capitalista, aristotélico e depois tomista, com a economia como administração da casa, e essa desconfiança do capitalismo atravessa até a doutrina social de Leão XIII e reaparece na teologia da libertação, o que num mundo de mercados interconectados dificulta a ascensão social e ajuda a explicar a migração para um protestantismo que autoriza enriquecer.
- Discutem Weber: o argumento clássico põe o trabalho como ascese e reverência, e Casarões sustenta que a teologia da prosperidade desloca o eixo do trabalho para a recompensa, tornando o resultado mais importante que o processo, com retorno à igreja em forma de dízimo, justamente porque no Brasil trabalho duro não leva à prosperidade.
- Sobre a relação com o Estado, contrapõem duas posturas: o catolicismo de certo modo capturou o Estado (com o caso brasileiro da TFP de Plínio Corrêa de Oliveira, que financia projetos conservadores na Europa e tem na propriedade privada o gancho com o empresariado, incluindo os católicos por trás de 1964), ao passo que o protestantismo nasce em tensão com o Estado, nas guerras religiosas contra monarquias católicas.
- Casarões apresenta as duas vias protestantes contemporâneas: a teologia do domínio acoplada à da prosperidade, que no Brasil converteu o antigo “crente não se mete em política” no “irmão vota em irmão” e visa ocupação efetiva de espaços culturais, econômicos e políticos (menos reconstrucionista que a versão americana); e o deslocamento da autoridade para fora do Estado.
- Desenvolve esse deslocamento com o conceito de neoliberalismo autoritário: o neoliberalismo não pressupõe igualdade, pressupõe hierarquia com o mercado no comando, de modo que o autoritarismo não desaparece, muda de lugar, e as autoridades reconhecidas passam a ser o pastor no espaço eclesiástico, o pai de família no domicílio e o mercado na vida econômica, com o Estado desqualificado como doutrinador; cita como sintoma a tese, importada dos Estados Unidos, de que a mulher não deve votar e o voto deve ser do domicílio.
- Lynch generaliza: toda ideologia conservadora pressupõe fundamentos extra-humanos e inalteráveis, seja a criação divina no reacionarismo, a tradição no conservadorismo comum ou a ordem espontânea e quase biológica do mercado no libertarianismo; e em todas o Estado atrapalha, seja porque é pagão e tolera o ateu, seja porque interfere no mercado.
- Identifica a “classe universal” de cada polo: famílias cristãs lideradas por patriarcas e orientadas por sacerdotes, de um lado; empresários, hoje reformulados como empreendedores, de outro; e observa que o empreendedor evangélico é exatamente o vaso comunicante entre os dois, o que explica a coalizão.
- Casarões menciona artigo escrito com Daniel Andrade, Letícia Cesarino e Mariana Côrtes na revista Economy and Society, aplicando um conceito de liturgia para mostrar que o neoliberalismo, diante das próprias falhas, recorre a uma dimensão esotérica e mágica estranha à sua lógica racional; daí a leitura de Pablo Marçal em 2024 como confluência entre hiperliberalismo e a metafísica do coach.
- Lynch observa que o libertarianismo econômico sempre se apresentou como puramente técnico (cita Eugênio Gudin, Roberto Campos, Joaquim Murtinho, com o refrão de que políticos são imbecis porque não conhecem economia) e que sua popularização recente expõe o que sempre foi crença; Casarões conecta isso à pesquisa da Fundação Perseu Abramo sobre a periferia paulistana, que registrou um pobre de direita, incomodado com impostos e desejoso de empreender.
- Ambos comentam a moda do candidato-CEO, de Doria a Zema e Renan Santos, e contrapõem os resultados reais: Milei na Argentina e o departamento de eficiência governamental de Elon Musk nos Estados Unidos, que classificam como fracasso e produtor de teorias conspiratórias sobre o estado profundo.
- Chegam à plutocracia tecnológica: Peter Thiel e a proposta de uma monarquia tecnológica, o tecnofeudalismo no sentido de Varoufakis, com o algoritmo no lugar da lei; Lynch cita o filme do criador de Succession sobre donos de big techs governando o mundo de uma casa na montanha, e retruca que a primeira coisa que Trump fez foi pôr todos eles de joelhos.
- Na segunda metade, Lynch pergunta se a conclusão americana não seria que o autoritarismo é vantagem comparativa chinesa; Casarões responde que ninguém admitiria isso publicamente, que ninguém se declara autoritário e que todos disputam a redefinição de democracia, notando ironicamente que a proposta MAGA de resgatar o poder do povo contra instituições elitistas não é tão distinta da democracia popular chinesa, tema recorrente em Steve Bannon.
- Sustenta que o ponto de referência não é a China e sim o próprio século XIX americano: Trump é um homem do XIX, de nacionalismo chauvinista e imperialismo econômico, e seus ídolos declarados são McKinley, Andrew Jackson e James Monroe, não Reagan.
- Descreve o ineditismo: pela primeira vez em oitenta anos um presidente americano reconhece que o rival geopolítico tem direito à sua esfera de influência, o que explica a disposição inicial de entregar a Ucrânia, o silêncio sobre Taiwan e o abandono do discurso da ordem liberal internacional, restando aos Estados Unidos voltar à sua esfera natural, as Américas, já que, como Vance repete, a Europa estaria acabada.
- Deixa aberto o problema do ovo e da galinha: se Trump submete as empresas americanas à geopolítica ou se é a geopolítica que está sendo redesenhada pelos oligopólios do agro, tecnologia, telecomunicações e farmacêuticas, o que seria a tese clássica do imperialismo de Lênin.
- Compara a chamada doutrina Donroe com a doutrina Monroe e aponta quatro diferenças: os instrumentos de coerção hoje são muito mais amplos que a diplomacia das canhoneiras (e o erro de Trump foi usá-los todos contra o Brasil ao mesmo tempo, ficando sem opções); o mundo é conectado demais para o desacoplamento exigido; existem alternativas geopolíticas que não existiam em 1823, sobretudo a presença econômica chinesa; e hoje a doutrina é mais sobre política interna do que externa.
- Detalha esse último ponto: o discurso anticomunista de Marco Rubio contra Cuba e Maduro é para consumo da Flórida, que concentra a maior população cubana; El Salvador vira a prisão para onde mandar supostos traficantes; e a questão migratória entra na mesma equação, tudo isso abrindo precedentes jurídicos, como a designação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, que Casarões diz o ter incomodado não por querer proteger essas facções, mas por deixar pendurada sobre o Brasil uma justificativa pronta de intervenção.
- Sobre o Brasil, Casarões lamenta o desaparecimento da direita nacionalista com zelo pela autonomia (a linhagem Jaguaribe e Golbery), lembra que a ameaça comunista nunca foi tangível na América Latina e que era isso que dava margem à política externa independente de Jânio e Jango, ao pragmatismo responsável de Geisel e à barganha pendular de Vargas que construiu Volta Redonda; hoje a penetração chinesa é grande demais para não ter de tomar lado, e tomar lado é exatamente o que o Brasil mais detesta.
- Sobre a eleição brasileira, é cético quanto a uma intervenção americana decisiva: o Brasil está em distante terceiro lugar de prioridade, atrás de Cuba e Venezuela, porque os mais de dois milhões de brasileiros nos Estados Unidos não formam comunidade política organizada nem lobby, ao contrário de cubanos e venezuelanos; e observa que a designação das facções já estava precificada antes da visita de Flávio Bolsonaro, que foi pedir para não haver tarifa e a tarifa veio.
- Fecha com o cenário mais grave: a proximidade das eleições de meio de mandato, com risco real de Trump perder as duas casas e virar pato manco por dois anos, abre duas possibilidades não excludentes, o uso de mecanismos de supressão democrática (lei marcial, emergência nacional, conflito interno fabricado para adiar ou cancelar eleições), hipótese que diz estar no horizonte de muitos analistas americanos, e o uso ostensivo de política externa para agradar eleitorados específicos, com uma operação militar contra Cuba às vésperas do pleito como cenário desastroso.