Gravação do lançamento em Fortaleza de *O menino que queria ser Deus*, primeira ficção de Yago Martins depois de 24 livros de teologia, com fala de abertura, depoimentos de leitores e uma hora de perguntas: o livro é uma teodiceia infantil sobre um menino de seis anos que, diante da perda, conclui que faria o mundo melhor no lugar de Deus, e a tese do autor é que essa vontade de divinização, a promessa da serpente no Éden, é o que há de comum entre a criança do livro e o leitor adulto.
não
é vídeo de lançamento, com depoimentos e agradecimentos ocupando boa parte do tempo, mas dois pontos ficam anotados para você: a leitura de Gênesis 3 como promessa de arbitrar o bem e o mal (que é a espinha do livro) e a resposta calvinista ao problema do mal dada em chave de consolo, que é exatamente o tipo de passagem em que vale distinguir o que consola do que se sustenta.
O que foi dito
- Yago descreve a novidade do exercício: passou dez anos construindo argumentos e agora teve que construir cenário, personagem e relação, dizendo aquilo que quer dizer sem explicar, o que é o oposto do seu ofício de pregador e professor, e relata ter sentido de novo a insegurança de quem começa.
- A origem é um projeto engavetado chamado 10 pesadelos, uma ficção para cada mandamento. Já escreveu quatro: uma sobre o sábado (O mistério do Monte Saint-Michel), uma sobre imagens de escultura (Tudo está cheio de deuses, já entregue ao editor), uma sobre o nome do Senhor em vão (A alma das palavras, inacabada), e a do primeiro mandamento, que ficou tão acima das outras que virou livro sozinho.
- O gatilho biográfico foi uma pergunta da filha Catarina, aos quatro anos, durante os seis meses da família nos Estados Unidos: por que neste mundo Deus pôs parquinhos e gente boa e no nosso mundo há ladrão, parede riscada e parquinho quebrado. O personagem Dandã nasce dessa criança que faz perguntas difíceis demais para a idade.
- A moldura teórica que ele assume é a de Tolkien e Lewis: ler sobre dragões não faz crer em dragões, faz crer que podem ser vencidos, e a literatura é recuperação contra a secularização entendida como perda do mundo mágico. Repete a fórmula lewisiana de que dois olhos são poucos e cada livro empresta mais um par de olhos.
- O subtexto declarado é bíblico e literário: há material de Adão e Eva e de Jacó, além de Adélia Prado, e uma intertextualidade que ele chama de polêmica com o rap brasileiro. A linha que puxa o título vem de Facção Central (Menino do Morro, em que o menino vira “Deus, o poderoso chefão” subindo uma estrada de sangue), de Djonga (o álbum O Menino Que Queria Ser Deus, resposta pela arte e não pela violência) e de uma pergunta de Emicida sobre o que acontece quando chega a vez de o outro ser Deus.
- A leitura teológica que ele extrai: a promessa da serpente não foi só conhecer o bem e o mal, foi ser como Deus e assim arbitrar o bem e o mal para si; o livro é sobre a queda, e Dandã verbaliza em voz alta o que o adulto disfarça, o cálculo de que teria escolhido outra família, outro país, outro corpo, outro casamento.
- Sobre o mal e o calvinismo, respondendo a uma pergunta direta da plateia, sustenta que é mais consolador ter um Deus soberano sobre o mal do que um Deus a cuja revelia o mal acontece, e diz achar mais difícil explicar o mal a partir da liberdade libertária do que a partir da soberania divina. É um argumento de conforto pastoral, não de coerência, e ele não o distingue disso.
- Sobre cultura, defende presença sem corrupção: a igreja tem hoje no Brasil uma paz social rara (compara com o Chile, onde achou Bíblia à venda na seção de artes), os evangélicos são quase um terço da população e portanto um mercado que a indústria persegue, e cita a adaptação de Os círculos não são infinitos, de Vitória Souza, pela Globo, com a observação seca de que o motor é dinheiro, não religião.
- Sobre método literário, invoca a distinção entre gêneros para justificar não explicar a própria obra: numa carta, num manual ou numa bula ele quer a intenção do autor, e é assim que lê Paulo; numa ficção o que vale é o texto dado, e por isso não gosta de entrevista de Tolkien explicando O Senhor dos Anéis.
- A polêmica interna da casa é a faixa etária: a editora marcou oito anos, a esposa acha que não é livro infantil e que os pais vão se irritar, uma editora leu em trinta minutos e voltou dizendo estar traumatizada. A frase da quarta capa, dela, resolve a tensão: história infantil para crianças que já cresceram. As ilustrações de Rogério Coelho saíram em preto e branco, e ele responde sem cerimônia que o motivo é custo, com o livro já a R$ 69.
- Encerra lendo o primeiro capítulo: a chuva no telhado de zinco da creche-escola, dona Maria perguntando o que cada criança quer ser quando crescer, e Dandã, com a convicção de quem já pensou muito no assunto, respondendo que quer ser Deus.