Yago Martins, gravando em Genebra, sustenta que nem a tese de que Calvino foi o executor de Miguel Serveto nem a de que não teve responsabilidade alguma se sustentam: a posição mais exata é que ele atuou como testemunha de acusação, consciente de que seu depoimento levaria à pena de morte, e que a existência de dissidentes contemporâneos tira dele o álibi do "homem de seu tempo".
talvez
a parte historiográfica é sólida e bem documentada, o aproveitável é o par Castellio-Hubmaier como precedente intraprotestante de liberdade de consciência, mas a tese de fundo (laicidade como desenvolvimento do "verdadeiro espírito da fé reformada", via neocalvinismo holandês) é apologética confessional e não aguenta a história comparada das tolerâncias.
O que foi dito
- Apresenta Serveto como médico humanista e teólogo que descreveu a circulação pulmonar dentro de uma obra teológica, a Christianismi Restitutio de 1553, e que antes publicara De Trinitatis Erroribus (1531) e uma reexposição em 1532.
- Precisa a heresia: Serveto não negava a divindade de Cristo, negava a existência eterna do Filho como pessoa distinta do Pai, de modo que o Filho propriamente dito passaria a existir na encarnação, o que fez católicos e protestantes concordarem, caso raro, que ele era herege.
- Desmonta a imagem de Calvino como ditador de Genebra com dados institucionais: ele não era membro do Pequeno Conselho (25 membros, que administrava os negócios públicos) nem do Conselho dos Duzentos, não tinha função judicial, presidia apenas a companhia de pastores e atuava pelo consistório, de alcance religioso e moral.
- Cita Carter Lindberg para o argumento de que Calvino só obteve cidadania genebrina em 1559, cinco anos antes de morrer, e nunca dispôs do poder político e dos recursos do bispo católico deposto, e lembra que o mesmo conselho que executou Serveto havia expulsado Calvino em 1538.
- Registra que Calvino e Guillaume Farel pressionaram Serveto a se retratar, que Calvino o advertiu a não entrar em Genebra, e que pediu ao conselho decapitação em vez da fogueira, pedido negado: Serveto foi queimado vivo em 27 de outubro de 1553.
- Lê o monumento expiatório de 1903, erguido a 350 anos da execução perto do local da fogueira, cuja inscrição é assinada por “filhos respeitosos e agradecidos de Calvino” que condenam “um erro que foi de seu século”, e observa que a fórmula foi criticada desde a inauguração por diluir a responsabilidade de Genebra e de Calvino.
- Vira a chave contra os nostálgicos da fogueira, reformados e católicos, que hoje sonham com um mundo em que hereges são executados, e se alinha aos reformados que ergueram o monumento para lembrar a desgraça.
- Traz Sebastião Castellio como prova de que havia alternativa no próprio tempo: humanista, antigo diretor de escola em Genebra, depois professor de grego em Basileia, publicou em 1554 sob pseudônimo “Sobre os hereges, se devem ser perseguidos”, que reúne patrística e reformadores, inclusive Lutero e um trecho das Institutas de 1536 em que Calvino defende tratamento humano aos inimigos da religião.
- Narra a troca: Calvino responde no mesmo ano com a “Defesa da fé ortodoxa”, legitimando a punição civil da heresia, Teodoro de Beza replica Castellio com outro tratado, e Castellio escreve o “Contra o libelo de Calvino” (1554, publicado só em 1612, depois de sua morte), de onde vem a frase citada: “matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem”, e “nada se deve obrigar a crer, a consciência é livre”.
- Puxa a linhagem mais atrás até Balthasar Hubmaier, que em 1524 escreveu “Sobre os hereges e aqueles que os queimam”, em 36 proposições, argumentando pela parábola do trigo e do joio e rejeitando o álibi de quem só entrega o réu à autoridade civil, e que acabou queimado por autoridades católicas em 1528.
- Conclusão pastoral e historiográfica: o contexto explica as pressões sobre Calvino mas não o absolve, porque Castellio e Hubmaier mostram que o argumento contrário já era formulável biblicamente, e ser mais reformado não é repetir os pecados da Reforma (fogueira, escravagismo dos puritanos) mas levar seus princípios às últimas consequências.