a tese
Programa completo do Central Meio (Yasmin Restum com Flávia Tavares, Pedro Doria e Creomar de Souza) sobre a operação de contenção de danos de Lula no caso Lulinha, com a tese central de que o estrago eleitoral será pequeno porque o eleitorado já incorporou a corrupção dos dois lados, e de que a eleição será decidida por indecisos movidos menos por escândalo do que por desalento econômico.
aprofundar
não
como conteúdo, mas o bloco sobre sigilo de fonte e vazamento (a distinção entre o dever de segredo do Estado e o interesse público em saber, e a leitura correta do artigo 5º) é o único trecho que vale ouvir avulso, porque é argumento de princípio e não conjuntura.
O que foi dito
- O gancho é a reunião de Lula com Marco Aurélio de Carvalho, advogado do filho e também coordenador jurídico de campanha em São Paulo, seguida de discurso público de cobrança; ao mesmo tempo, os bastidores mostram a campanha querendo mapear cada agente da PF e do STF que tocou no processo.
- Pedro Doria trata a independência da PF como questão de princípio e aponta o descasamento entre discurso e prática petista: foi verdade no governo Dilma com José Eduardo Cardozo, não é hoje, e cita o pedido do Ministério da Justiça, no início do ano, para afastar do caso o delegado que pediu a investigação de Lulinha. Diferencia grau e estilo, com Bolsonaro ostensivo e Lula de mão leve, sem apagar a semelhança.
- Creomar de Souza formula a regra do morde e assopra e a ilustra com a sequência Ciro Nogueira e banco Master, além de lembrar o preço que Dilma e Cardozo pagaram por deixarem a Lava-Jato correr. Este trecho é o mesmo que já circula recortado no radar como o vídeo de treze minutos sobre Lula e a Polícia Federal.
- Flávia Tavares organiza a contenção de danos em três frentes: a política (a reunião de bastidor que existe para vazar o recado de que o presidente quer o filho esclarecendo tudo), a jurídica (o estudo de pedir a André Mendonça a suspensão total do sigilo dos inquéritos, para estancar o vazamento a conta-gotas, e o pedido da PGR para mandar os inquéritos à primeira instância) e a eleitoral (a militância empurrando nas redes as tags que cobram investigação sobre Flávio Bolsonaro).
- Ela explica por que a mudança de foro é disputada: os inquéritos sobre Lulinha derivam do inquérito maior do INSS, que tem políticos com foro, e tirá-los do Supremo os afastaria de Mendonça, que está em atrito direto com a PF pela demora de meses na quebra de sigilo telemático.
- Doria responde a um comentário do chat separando o que é fato do que é lenda: o escândalo da Gamecorp foi real e Fábio Luiz estava nele, mas a Ferrari dourada e a sociedade oculta na JBS não são verdade. E enumera o que está à vista: joias de diamante à chefia de gabinete, dinheiro da lobista na conta de Fábio Luiz sob a fórmula de empréstimo sem nenhuma condição combinada, e a comemoração de uma indicação seguida de contrato encaminhado ao Ministério da Saúde.
- O trecho mais denso do programa é o de Doria sobre vazamento e sigilo de fonte: toda democracia protege o servidor que vaza, no Brasil de forma mais frágil que na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá, e o artigo 5º da Constituição não restringe o sigilo de fonte a jornalistas, alcançando todo profissional que trata informação de interesse público. Observa que dois ministros do Supremo terem começado a discutir quem é ou não jornalista não é acaso, e lembra que o áudio de Flávio Bolsonaro pedindo 25 milhões de dólares a Daniel Vorcaro é vazamento mais grave que qualquer um contra Lulinha.
- Creomar acrescenta o ponto raramente dito: os atores dentro das instituições também têm preferência política, e a dinâmica do vazamento é em parte servidores agindo pelos seus. Prevê a eleição mais suja de que se tem notícia em ataque abaixo da cintura, e localiza o risco não no resultado presidencial (que projeta apertado, decidido por um ou dois pontos) e sim nos dois sentimentos que a lama alimenta: descrença nas regras do jogo e desalento, o segundo mais perigoso porque desmobiliza.
- A conclusão convergente da mesa é que o eleitor decisivo é o indeciso que escolhe entre o café e o colégio eleitoral, que as campanhas de escândalo não o alcançam, e que por isso os dois lados migraram para economia: Lula apostando no fim da escala 6x1, tema com maioria social rara no país, e Flávio Bolsonaro falando exclusivamente de carestia e do preço da picanha, ataque fácil porque cobra uma promessa que o eleitor confere no supermercado.
- Notam ainda que pesquisas qualitativas e grupos de foco mostram eleitores confusos sobre quais são os temas da campanha, e que ninguém está sendo inspirado por qualquer proposta de futuro.